Estampida de El Paraíso
A estampida de El Paraíso foi uma estampida de mais de 500 pessoas que ocorreu nas primeiras horas da manhã de 16 de junho de 2018 no El Paraíso Social Club, também conhecido como Los Cotorros Club, na urbanização El Paraíso, em Caracas, Venezuela. A estampida foi resultado da detonação de um bomba de gás lacrimogêneo durante uma briga entre um grupo de estudantes de diferentes escolas que celebravam suas formaturas. Pelo menos 19 pessoas morreram e, de acordo com relatórios oficiais da polícia, as mortes foram causadas por asfixia e politraumatismo.[1][2]
Contexto
O uso de gás lacrimogêneo é estritamente proibido na Venezuela, exceto pelas forças policiais e militares. Sedes de meios de comunicação já foram alvo de ataques com gás lacrimogêneo no passado, como o El Nacional e a Globovisión.[3][4] Grupos pró-governo conhecidos como coletivos também são conhecidos por atacar a oposição, tendo lançado gás lacrimogêneo contra o enviado do Vaticano em 2009, depois que o presidente Hugo Chávez acusou a Igreja Católica de interferir em seu governo.[5] Reportagens indicam que vários desses dispositivos e armas são obtidos por civis por meio de furtos e corrupção policial ou militar, e que esses itens são usados frequentemente por criminosos.[2]
Em 2018, houve vários relatos de incidentes com gás lacrimogêneo sem vítimas fatais. Em fevereiro de 2018, gás lacrimogêneo foi liberado em estações do Metrô de Caracas em três ocasiões, que as autoridades classificaram como "atos de sabotagem" para gerar ansiedade. Uma bomba foi dispersada na Praça Venezuela, estação de transferência das linhas principais do sistema,[6] e outra foi usada em Petare dias depois, uma área pobre do leste de Caracas.[7] Em 19 de fevereiro de 2018, outra bomba foi detonada na estação Capuchinos, no oeste de Caracas.[2][8]
Estampida
Cerca de 500 estudantes se reuniram na noite de sexta-feira, 15 de junho de 2018, no Los Cotorros Club para um evento de "pré-formatura" chamado The Legacy.[9][10] A boate é um edifício de dois andares, de tijolos, com janelas e portas gradeadas, que já foi palco de violência no passado.[11] O evento era para maiores de 18 anos, mas anúncios indicavam que menores poderiam entrar mediante pagamento extra.[9]
Um grupo de jovens saiu do banheiro discutindo às 1h20 da manhã (VET), trocando socos e chutes. Alguns quebraram garrafas que tinham nas mãos e ameaçaram os rivais com elas. Os participantes próximos recuaram, enquanto os ameaçados correram para a escada da boate, lançaram uma bomba de gás lacrimogêneo e fugiram do local, causando pânico entre centenas de pessoas que tentavam escapar do gás.[9][11][12]
A entrada do clube era uma pequena porta de metal localizada no final de uma escada.[9] Essa saída estava fechada, impedindo a fuga das pessoas.[12] Familiares das vítimas confirmaram que as portas estavam fechadas após a detonação, embora não tenham sido emitidos comunicados oficiais.[13] Nenhum serviço de emergência havia chegado até as 2h30 VET, apesar de várias tentativas de contato com o 911. Por volta das 2h40, um agente do CICPC em patrulha chegou ao local, sacou sua arma e gritou, mas depois ajudou na evacuação da boate.[9][12]
Vítimas
As primeiras informações foram publicadas de forma informal por meio de declarações da Polícia Nacional Bolivariana, da Guarda Nacional Bolivariana e do CICPC; o número de mortos variava entre as agências. A Guarda Nacional especificou que os adolescentes morreram a caminho de centros de saúde: 11 no Hospital Miguel Pérez Carreño, três na Clínica Popular El Paraíso, dois na Clínica Amay e um na Clínica Loira.[14][15]
Nazareth Duque, uma das sobreviventes, disse que três guardas nacionais estavam na entrada da boate, se recusaram a ajudá-la e lhe deram um soco no rosto. Segundo Duque, mais de 30 pessoas morreram; uma das mães das vítimas estimou 34 mortes.[16][17]
Oito das vítimas tinham menos de 18 anos e morreram por asfixia ou trauma da estampida ao tentar escapar do local.[18]
Consequências
A asfixia foi a causa de pelo menos 11 das 21 mortes ocorridas durante a estampida.[10] Devido à crise de desabastecimento na Venezuela, familiares relataram que não havia insumos médicos nos hospitais da região para tratar as vítimas.[19]
Segundo o ministro do Interior Néstor Reverol, oito pessoas foram detidas, incluindo dois menores de idade, sendo um deles responsável pelo lançamento do gás lacrimogêneo. O clube foi fechado pelo Ministério Público da Venezuela para investigação, e o proprietário foi preso por não garantir uma revista adequada nos participantes e por violar leis que proíbem a entrada de armas em estabelecimentos públicos.[10][2][1] Questionamentos foram feitos sobre como um menor teve acesso a gás lacrimogêneo.[11][20]
Néstor Reverol expressou condolências às vítimas, declarando: "O Governo da República Bolivariana da Venezuela deplora este triste evento e envia condolências aos familiares das vítimas."[18]
O vereador da oposição Jesús Armas pediu que as autoridades investigassem se a boate tinha autorização para abrigar várias centenas de pessoas, afirmando: "Esse não é um espaço grande e não deveria ser autorizado."[21]
Referências
- ↑ a b Marra, Yohana (16 de julho de 2018). «Identificadas 16 víctimas de explosión en club de El Paraíso». Crónica Uno
- ↑ a b c d «Reverol: Detenidas ocho personas por estallido de lacrimógena en el Paraíso». El Carabobeño. Agence France-Presse. 16 de junho de 2018
- ↑ «Reverol: Detenidas ocho personas por estallido de lacrimógena en el Paraíso». El Carabobeño. AFP. 16 de junho de 2018
- ↑ Sánchez, Fabiola (4 de agosto de 2009). «Detienen a Lina Ron por ataque a Globovisión». El Nuevo Herald. Consultado em 16 de junho de 2018
- ↑ Wallis, Dan (13 de fevereiro de 2014). «Venezuela violence puts focus on militant 'colectivo' groups». Consultado em 20 de março de 2014
- ↑ «Explosión de lacrimógena generó caos en estación Plaza Venezuela» (em espanhol). El Nacional. 5 de fevereiro de 2018. Consultado em 17 de junho de 2018
- ↑ «Detonaron una bomba lacrimógena en estación del Metro de Caracas» (em espanhol). El Nacional. 9 de fevereiro de 2018. Consultado em 17 de junho de 2018
- ↑ «Activan bomba lacrimógena en estación Capuchinos del Metro de Caracas». Panorama (em espanhol). 19 de fevereiro de 2018. Consultado em 17 de junho de 2018. Arquivado do original em 17 de junho de 2018
- ↑ a b c d e «"La puerta del club se cerró y la gente quedó atrapada", sobreviviente de tragedia en El Paraíso». Efecto Cocuyo (em espanhol). 16 de junho de 2018. Consultado em 17 de junho de 2018
- ↑ a b c «17 dead after Venezuela nightclub violence». CNN. 16 de junho de 2018. Consultado em 17 de junho de 2018
- ↑ a b c «Grenade blast kills 17 during huge brawl in Venezuelan nightclub». The Independent. London. Consultado em 17 de junho de 2018
- ↑ a b c Moreno Losada, Vanessa (16 de junho de 2018). «Al menos una decena de fallecidos tras explosión de lacrimógena dentro de club caraqueño». Efecto Cocuyo. Consultado em 17 de junho de 2018
- ↑ «Venezuela: 17 killed in Caracas club stampede». Al Jazeera. 16 de junho de 2018. Consultado em 17 de junho de 2018
- ↑ Moreno Losada, Vanessa (16 de junho de 2018). «Al menos una decena de fallecidos tras explosión de lacrimógena dentro de club caraqueño». Efecto Cocuyo. Consultado em 17 de junho de 2018
- ↑ Carpio, Gloria (16 de junho de 2018). «Lanzamiento de lacrimógena provocó tragedia en fiesta de graduación en El Paraíso». El Pitazo. Consultado em 17 de junho de 2018[ligação inativa]
- ↑ «Sobrevivientes del Club Los Cotorros aseguran que hay más de 30 muertos». Venezuela al Día. 16 de junho de 2018. Consultado em 17 de junho de 2018
- ↑ «Sobreviviente del Club El Paraíso: "Nadie nos ayudó"». El Nacional. 16 de junho de 2018. Consultado em 17 de junho de 2018
- ↑ a b Krygier, Rachelle (16 de junho de 2018). «Tear gas triggers stampede at Venezuela nightclub, resulting in 17 deaths». The Washington Post (em inglês). ISSN 0190-8286. Consultado em 20 de junho de 2018
- ↑ «En el hospital Vargas no hay insumos para atender a los heridos del club Los Cotorros». La Patilla (em espanhol). 16 de junho de 2018. Consultado em 17 de junho de 2018
- ↑ «Estampida en club nocturno de Venezuela deja 17 muertos, entre ellos 8 menores de edad». El Nuevo Herald. Associated Press. 16 de junho de 2018. Consultado em 17 de junho de 2018
- ↑ «17 Killed in Stampede After Brawl at Venezuela Club». NBC 6 South Florida (em inglês). Consultado em 20 de junho de 2018