Estêvão de Ataíde
| D. Estêvão de Ataíde | |
|---|---|
| Capitão-general e Governador de Moçambique | |
![]() Gravura do séc. XVII, representando um combate naval entre portugueses e holandeses ao largo da Ilha de Moçambique, no ano de 1608, quando D. Estêvão de Ataíde era governador | |
| Consorte de | D. Mariana de Noronha |
| Antecessor(a) | Sebastião de Macedo (no 1.º mandato) Nuno Álvares Pereira (no 2.º mandato) |
| Sucessor(a) | Nuno Álvares Pereira (no 1.º mandato) Diogo Simões de Madeira (no 2.º mandato) |
| Dados pessoais | |
| Nascimento | c. 1570 |
| Morte | 1613 (43 anos) Moçambique |
| Sepultado em | Capela dos Jesuítas, Ilha de Moçambique |
| Pai | D. Álvaro de Ataíde, capitão e governador das ilhas Molucas |
| Mãe | D. Jerónima de Castro do Canto |
| Título(s) | Dom |
| Ocupação | Fidalgo, Militar |
| Filho(s) | D. Álvaro de Ataíde |
| Filha(s) | D. Ana de Noronha |
| Brasão | ![]() |
D. Estêvão de Ataíde foi um militar português, duas vezes governador de Moçambique, que se distinguiu por ter defendido, com sucesso, a Ilha de Moçambique e a sua fortaleza dos ataques e cercos conduzidos pelos holandeses, entre 1607 e 1609. Segundo o historiador britânico Edgar Prestage, essa defesa "salvou, não somente a própria fortaleza, mas o domínio português no Oriente e na África Oriental".[1]
D. Estêvão de Ataíde foi descrito pelo seu contemporâneo, o navegador e explorador francês François Pyrard de Laval, como sendo "um corajoso e galhardo fidalgo".[2][3]
Biografia
Era filho de D. Álvaro de Ataíde, capitão das Molucas, entre 1571 e dezembro de 1574,[4] e de sua mulher, D. Jerónima de Castro do Canto. Sendo assim bisneto, na linha paterna, de outro D. Álvaro de Ataíde, senhor da Castanheira, Povos e Cheleiros (filho segundogénito do 1.º conde de Atouguia), participante na conspiração do Duque de Viseu contra o Rei D. João II.[5]
Desconhece-se a data exata do seu nascimento, mas tendo em conta que os seus avós maternos casaram em 1544, é provável que tenha ocorrido em redor do ano de 1570.
A sua nomeação para o cargo de capitão-general de Moçambique foi feita no contexto da ameaça de um próximo ataque holandês, que já se adivinhava e que muito preocupava o soberano da União Ibérica.
De facto, numa carta de 18 de janeiro de 1607, dirigida ao vice-rei da Índia, D. Martim Afonso de Castro, o Rei Filipe II de Portugal escreveu que, se os holandeses conseguissem ocupar a fortaleza de Moçambique, "seria total impedimento para a navegação das minhas armadas para essas partes, por ser ordinário irem-na demandar, assi a ida como a vinda, e muitas vezes lhes ser necessário invernar nella, de mais da muita riqueza d’estas províncias, que com a dita fortaleza se sustentam e defendem."[1]
Entre 1607 e 1609, D. Estêvão de Ataíde liderou assim uma defesa tenaz das forças portuguesas contra as investidas dos holandeses, que acabariam por desistir das suas tentativas de ocupar a ilha em 1609, levantando finalmente o cerco e partindo em direção às ilhas de Sonda.[2] Este feito militar português seria celebrado mais tarde, numa obra publicada em Madrid, no ano de 1633, mas escrita antes de 1611, por uma testemunha ocular dos combates, o soldado português António Durão.
O livro, escrito em espanhol, com o título "Cercos de Mocambiqve, defendidos por Don Esteban de Atayde capitan-general, y gouernador de aquella plaça", faz a descrição detalhada, em estilo narrativo e factual, das operações militares da defesa da ilha de Moçambique. O autor informa ter escrito o seu texto dentro da fortaleza de Moçambique e, de uma carta que dirige ao filho de D. Estevão de Ataíde, publicada nas primeiras páginas do livro, depreende-se que o manuscrito foi enviado ao próprio governador em março de 1611, embora a publicação final só tenha saído 22 anos mais tarde.
D. Estêvão de Ataíde mostrou grandes qualidades de comando, e de coragem pessoal, entre 1607 e 1609. Porém, logo após o levantamento do cerco de 1609, ao ser nomeado em julho do mesmo ano pelo vice-rei da Índia, Rui Lourenço de Távora, para o cargo e título de Conquistador das Minas de Monomotapa, as coisas não lhe correram de feição.[6]
Revelou falta de tacto político e diplomático, ao recusar-se a continuar a enviar o tributo ao Império Monomotapa, que os capitães portugueses tradicionalmente pagavam, para poderem comerciar nessas terras. Daí resultou uma situação de conflito militar entre os portugueses e as forças do Monomotapa e, no final, Ataíde não conseguiu descobrir as minas de ouro e prata que, desde a malograda expedição de Francisco Barreto, em 1569, a coroa portuguesa persistia em tentar alcançar.[7]

D. Estêvão fora entretanto nomeado, em 1611, para um segundo mandato de governador de Moçambique.
Porém, logo em maio de 1612, o Rei de Portugal, insatisfeito com o desempenho de Ataide após 1509, escreveu ao novo vice-rei da Índia, D. Jerónimo de Azevedo, dando instruções no sentido de ser anulado o contrato feito entre Rui Lourenço de Távora e D. Estêvão, para a conquista das minas do Monomotapa, e ordenando ainda que Ataíde se dirigisse a Goa e que a sua administração fosse devassada.[8]
Pouco depois, em 1613, Filipe II de Portugal subiu o tom e determinou que D. Estêvão de Ataíde partisse preso para Lisboa e que se sequestrassem os seus bens. Mas D. Estêvão morreu nesse mesmo ano, vitimado por febres tropicais. A morte salvou-o assim do cumprimento da sentença real; e o seu rico espólio foi aplicado às despesas de reparos na fortaleza de S. Sebastião, que tão bem soubera defender por duas vezes.[1][9]
D. Estêvão de Ataíde jaz sepultado na Igreja dos Jesuítas da Ilha de Moçambique.
Sucedeu-lhe no cargo, como governador interino, Diogo Simões de Madeira, e depois, como governador nomeado pelo Rei, em 1613, o seu parente (tal como D. Estêvão, trineto do 1.º Conde de Atouguia), D. João de Azevedo, irmão do Vice-Rei da Índia, o acima referido D. Jerónimo de Azevedo.
Casamento e descendência
Casou com D. Mariana de Noronha,[9][10] filha de D. Afonso de Noronha e de Joana de Miranda, e desse casamento nasceram:
- D. Álvaro de Ataíde, Capitão-mór de Elvas e 2.º Administrador da Capela de sua avó materna, Dona Jerónima de Castro do Canto; não casou, nem teve geração conhecida.
- D. Ana de Noronha, que casou em Lisboa, Loreto,[11] 18.de dezembro de 1627, com Jorge de Albuquerque; sem geração.
Referências
- ↑ a b c Antonio Durão; Prefácio de Edgar Prestage (1937). Cercos De Mocambique Defendidos Por Dom Estevao De Ataide. Lisboa: Na Tipografia Silvas Limitada. pp. 13–16. Consultado em 7 de outubro de 2024
- ↑ a b «Viagem de Francisco Pyrard de Laval: contendo a notícia de sua navegação às Índias Orientais..., Volume II, Porto, 1944 - Biblioteca Nacional Digital». purl.pt. p. 171. Consultado em 7 de outubro de 2024
- ↑ Francois Pyrard de Laval (1679). «Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Voyage de Francois Pyrard, de Laval, contenant sa navigation aux Indes Orientales, Maldives, Moluques, & au Bresil...Seconde Partie». digital.bbm.usp.br (em francês). p. 156. Consultado em 7 de outubro de 2024.
Le Gouverneur appellé Don Estevan, qui était un brave et gallant Seigneur
- ↑ «Indonesia. Moluccas Portuguese Captains (at Ternate)». www.worldstatesmen.org (em inglês). Consultado em 16 de julho de 2025.
1571 - Dec. 1574 Álvaro de Ataíde
- ↑ Manuel José da Costa Felgueiras Gaio. «Nobiliário de famílias de Portugal. Tomo III. Título "Ataídes"». purl.pt. Consultado em 7 de outubro de 2024
- ↑ «"Sobre o contrato das minas de Monomotapa que Rui Lourenço de Távora vice-rei, fez com D. Estêvão de Ataíde" - Arquivo Nacional da Torre do Tombo - DigitArq». digitarq.arquivos.pt. Consultado em 8 de outubro de 2024
- ↑ António Bocarro. «Decada 13 da Historia da India, Vol. I, Lisboa, 1876 - Biblioteca Nacional Digital». purl.pt. p. 8. Consultado em 12 de outubro de 2024.
... o que não houve effeito, por não achar prata
- ↑ «Consulta sobre a devassa que Francisco da Fonseca Pinto tirou em Moçambique dos procedimentos de D. Estêvão de Ataíde - Arquivo Histórico Ultramarino». digitarq.ahu.arquivos.pt. Consultado em 8 de outubro de 2024
- ↑ a b «Ataíde, Dom Estêvão de - Vinculum Database». www.vinculum-database.fcsh.unl.pt. Consultado em 7 de outubro de 2024.
Data de morte atribuída de acordo com a data de abertura do testamento.
- ↑ «Consulta sobre D. Mariana de Noronha viúva de D. Estêvão de Ataíde Data: 08.08.1615 - Arquivo Histórico Ultramarino». digitarq.ahu.arquivos.pt. Consultado em 8 de outubro de 2024
- ↑ «Loreto». tombo.pt. Consultado em 7 de outubro de 2024

