Ermida de Nossa Senhora das Neves (Mesquita)
| Ermida de Nossa Senhora das Neves | |
|---|---|
| Informações gerais | |
| Nomes alternativos | Ermida de Santa Maria das Flores |
| Construção | Século VIII ou IX |
| Religião | Igreja Católica Romana |
| Diocese | Diocese de Beja |
| Geografia | |
| País | |
| Localização | Mesquita, concelho de Mértola |
| Região | Alentejo |
| Coordenadas | 🌍 |
| Localização em mapa dinâmico | |
A Ermida de Nossa Senhora das Neves, igualmente conhecida como Ermida de Santa Maria das Flores, é um monumento religioso e um sítio arqueológico, situado nas imediações da aldeia de Mesquita, no concelho de Mértola, em Portugal.
Descrição
Consiste num edifício de pequenas dimensões, consagrado a Nossa Senhora das Neves.[1] Situa-se na freguesia de Espírito Santo, na região do baixo Guadiana, perto da fronteira com Espanha.[2] No interior encontra-se uma imagem de Nossa Senhora das Neves, provavelmente executada na primeira metade do século XVIII.[3]
Faz parte do percurso temático Rota das Ermidas, que inclui igualmente os santuários de Nossa Senhora do Amparo, em Corvos, de São Barão, em Corte da Velha, de Nossa Senhora das Neves, na vila de Mértola, de Santa Ana, em Montes Santana, e de Nossa Senhora de Aracelis, em São Marcos da Ataboeira.[1]
História
No local onde se ergue a ermida existia originalmente um povado, habitado desde os finais da era romana até ao domínio muçulmano.[4] Foi delimitada uma área de vestígios com cerca de quarenta mil metros quadrados, onde foram encontradas ruínas de edifícios habitacionais, além de um vasto conjunto de espólio, que inclui fragmentos de cerâmicas vidradas meladas, verdes e em corda seca, cronologicamente integrados entre os séculos X a XII.[4] Um dos edifícios escavados inclui uma casa de grandes dimensões, do período islâmico, que apresenta várias semelhanças com as encontradas na vila de Mértola.[5]
Também foram encontrados os indícios de pelo menos duas necrópoles, uma destas do século X, com sepulturas cristãs, enquanto que a outra é muito mais tardia, do século XVI, situa-se na área lateral da ermida.[5] A presença de enterramentos cristãos indica que neste local viveu uma comunidade moçárabe, ou seja, pessoas que seguiam o rito cristão durante o domínio islâmico, e que adoptaram a linguagem e outras facetas da cultura muçulmana.[5] A ermida em si foi construída provavelmente nos séculos VIII ou IX, podendo ser a mais antiga no concelho de Mértola.[1] A antiguidade da presença de um santuário cristão neste local pode ser atestada pela presença de peças em mármore, como uma coluna coluna torsa com elementos verticais, um capitel transformado numa pia de água benta, e parte de uma cancela na parede Sudeste do edifício, que podem ser cronologicamente integradas entre os séculos VI a IX.[5] Na área do Cercado das Alcarias, nas imediações da ermida, foi escavada uma alcaria, uma pequena povoação islâmica, que foi habitada entre os séculos XI e XIV.[5] Durante o período islâmico, provavelmente nas épocas almóada ou almorávida, foi convertida numa mesquita.[3]
Após a Reconquista de Mértola, o santuário voltou a receber o culto cristão, sendo então consagrado a Santa Maria das Flores.[3] Mantinha ainda esta designação em 1482, data em que surge nos registos como Santa Maria das Froles [sic].[3] Em 1515 foi alvo de uma visitação por parte da Ordem de Santiago, sendo descrita como «huua casa com sua ousia, tudo mujto pequeno», edificada «em pedra E barro E cuberta de telha Vãa».[3] O visitador relata que há muitos anos atrás esteve «daneficada E derribada», tendo sido reconstruída por «Joham Lourenço».[3] Na visitação de 1535, a ermida é descrita com o nome de Nosa Senhora da Mizquita, em vez de Santa Maria das Flores, indicando que havia perdido a sua invocação anterior.[3] Esta designação de Mizquita indica que ainda permanecia a memória de uma comunidade religiosa distinta da cristã naquela área.[5] Aquele registo menciona que tinham sido feitas obras de restauro alguns anos antes, durante as quais tinha sido igualmente aumentado o seu recheio, passando a ter «majs dous altares», e novas pinturas murais dos seus padroeiros: «da banda do aVanjelho com a jmagem de sam bemto» e «da banda da [e]pystolla com as jmagees de sam bertolameu E santo antonjo».[3] No cruzeiro encontrava-se «hum cocofixyo pyntado na parede E nosa senhora de hum cabo E sam joham do outro», e no altar-mor estava uma «jmagem de Vulto de nosa senhora, grande, com seu filho no collo num Retavallo com portas pyntado de cores».[3]
Porém, logo em 1565 o mordomo recebeu ordens para eliminar as pinturas murais no interior da ermida: «que ha mande cayar E apague as jmagens que ora estão pintadas nas paredes».[3] Entre os séculos XVII e XVIII foram feitas profundas obras de remodelação, tendo provavelmente sido também durante este período que foi novamente alterado o nome da ermida, para Nossa Senhora das Neves, uma vez que esta devoção disseminou-se de forma considerável a partir dos finais do século XVI.[3] Na área da ermida foram encontrados materiais arqueológicos relativos ao período entre os séculos XVI e XVIII, no interior das quais foi descoberta uma peça de especial interesse, uma pequena escultura em terracota, que poderá ser uma representação do Menino Jesus, e que demostra algumas influências das culturas africana e indo-europeia.[5]
Em 28 de Janeiro de 2021 foi assinado um protocolo entre a autarquia e a Fábrica da Igreja Paroquial da Freguesia de Mértola, para a recuperação e conservação do património religioso no concelho. A Ermida de Nossa Senhora das Neves foi um dos edifícios abrangidos na primeira fase deste programa, cuja intervenção incluiu a execução de pinturas exteriores e interiores, iluminação, e rebocos e outras pequenas obras.[6]
Em 2021 iniciou-se uma série de escavações na área da Ermida de Nossa Senhora das Neves, no âmbito do programa Intervenção Arqueológica na Cerca das Alcarias de Mértola: Da Hispânica ao al-Andaluz – Arabização, islamização e resistência em meio rural,[7] organizado pelo Campo Arqueológico de Mértola, em colaboração com a Universidade de Granada, o Centro de Estudos em Arqueologia, Arte e Ciências do Património, a Sociedade Recreativa Mesquitense e a Junta Freguesia do Espírito Santo, e com o apoio financeiro por parte do governo espanhol e da autarquia de Mértola.[2] Este programa foi criado principalmente no sentido de aprofundar os conhecimentos sobre a vivência rural no passado na região de Mértola, mas fora da vila em si, principalmente nas povoações mais distantes da sede do concelho.[7] As primeiras escavações revelaram a presença de estruturas residenciais, que muito provavelmente pertenceriam a uma alcaria, uma espécie de aldeia, que foi habitada entre os séculos XI e XII, quando o território se encontrava sobre o domínio islâmico.[7] Segundo a arqueóloga Maria de Fátima Palma, foi identificado «um complexo dividido e distribuídos numa série de unidades, das quais duas grandes salas, maioritariamente de forma retangular, uma de forma ligeiramente circular no seu lado sul e outra de maior importância ao centro», enquanto que em termos de espólio, foram encontrados «uma taça em corda seca do século XII, a cara de uma pequena escultura do século XVI, um cachimbo de caulino do século XVII e algumas moedas do século XVI e XVII».[7] Em 2022 foi realizada a segunda campanha, desta vez concentrada apenas no exterior da ermida, tendo sido estudada uma necrópole que lhe pode ter estado associada.[7]
Entre Maio e Junho de 2025 avançou a quinta campanha de escavações na área da ermida e no antigo povoado da Cerca das Alcarias, tendo os estudos revelado que a zona da aldeia de Mesquita apresenta um grande potencial do ponto de vista arqueológico, servindo para aprofundar os conhecimentos sobre a forma como os povoados rurais dos séculos IX e X se adaptaram às novas ordens políticas e religiosas da região,[5] e ao mesmo tempo sobre a vida rural no período entre os séculos X e XIV.[2]
Ver também
- Lista de património edificado em Mértola
- Convento de São Francisco
- Ermida de São Barão
- Ermida de São Salvador do Mosteiro
- Igreja Paroquial de Corte do Pinto
- Igreja de Nossa Senhora da Anunciação
- Igreja Paroquial de São Miguel do Pinheiro
- Igreja Paroquial de Via Glória
Referências
- ↑ a b c «Rota das Ermidas». Visit Mértola. Câmara Municipal de Mértola. Consultado em 5 de Outubro de 2025
- ↑ a b c «5ª campanha de escavações arqueológicas no âmbito do Projeto IACAM». Campo Arqueológico de Mértola. 1 de Setembro de 2025. Consultado em 6 de Outubro de 2025
- ↑ a b c d e f g h i j k «Ermida de St.ª Maria das Flores/N. Sr.ª das Neves». Junta de Freguesia do Espírito Santo. Consultado em 6 de Novembro de 2025
- ↑ a b «Senhora das Neves - Mesquita / Cerca das Alcarias». Portal do Arqueólogo. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 5 de Outubro de 2025
- ↑ a b c d e f g h ROSA, Gonçalo Pereira (29 de Julho de 2024). «Mértola medieval: o mundo rural há um milénio». National Geographic. Consultado em 6 de Outubro de 2025
- ↑ CORREIA, Teixeira (22 de Junho de 2021). «Mértola: Município e Fábrica da Igreja Paroquial promovem intervenções nas igrejas». Lidador Notícias. Consultado em 7 de Novembro de 2025
- ↑ a b c d e SOUSA, Ana Filipa Sousa de (26 de Agosto de 2022). «Na Mesquita, a escavar o passado no concelho de Mértola». Diário do Alentejo. Consultado em 9 de Outubro de 2025
Ligações externas
- Senhora das Neves - Mesquita / Cerca das Alcarias na base de dados Portal do Arqueólogo da Direção-Geral do Património Cultural