Emilia Galotti

Emilia Galotti é uma tragédia burguesa em cinco atos escrita por Gotthold Ephraim Lessing em 1772. Foi inspirada na história de Virgínia, relatada no Ab Urbe Condita de Tito Lívio. Apesar de a peça se desenvolver em Itália, Emília Galotti é uma forte crítica à realidade aristocrática na Alemanha à luz do pensamento Iluminista. De acordo com Roberto Schwarz,[1] esta penúltima peça de Lessing representa a primeira tragédia política alemã.

Personagens

Capa da primeira edição (1772).

Emilia Galotti

Odoardo Galotti – pai de Emilia Galotti

Cláudia Galotti – mãe de Emilia Galotti

Hettore Gonzaga – príncipe de Guastalla

Marinelli – secretário áulico do príncipe

Camillo Rota – um dos conselheiros do príncipe

Conti – pintor

Conde Appiani

Condessa Orsina

Pirro – criado da família Galotti

Ângelo e alguns criados.

Sinopse

Ensaio de uma das cenas da peça. Erfurt, Alemanha (1974).

A peça inicia com o príncipe Hettore Gonzaga lidando com assuntos burocráticos. Já de partida tem-se conhecimento de sua obsessão em fazer Emilia Galotti sua amante, uma jovem de origem burguesa, prometida ao Conde Appiani por quem é apaixonada. Quando o príncipe descobre o futuro casamento pede que Marinelli resolva a situação, não importa como. Marinelli, por sua vez, planeja uma emboscada para que o Conde seja assassinado.

Emília Galotti é então sequestrada e levada à mansão de veraneio do príncipe. Ela não percebe a real face dos acontecimentos, diferentemente de sua mãe, Claudia, que age como árbitro entre seu marido e sua filha, pois consegue discernir as maquinações de Marinelli. Nesse ínterim chega Condessa Orsina, a amante do príncipe, comparada à figura da Medusa; ela deseja falar com ele, que não quer recebê-la. Frustrada e a par da situação, tenta fazer a cabeça de Odoardo para que ele vingue a morte do Conde Appiani matando o príncipe, mas ele hesita e decide deixar a vingança nas mãos de Deus. Emilia na tentativa desesperada de manter a dignidade e não se deixar seduzir pelo príncipe, tenta convencer seu pai de que o suicídio é a única solução. Odoardo mata a filha para manter sua honra intacta, mas fica horrorizado com seu feito. Ao final deixa tudo nas mãos do príncipe, que culpa Marinelli por todo o mal e o bane da corte.

Cena a cena

ATO 1

CENA 1

O príncipe Hettore Gonzaga fica chateado por não ter recebido na correspondência recém-chegada nenhuma carta de Emília Galotti. Um criado da condessa Orsina traz uma mensagem ao príncipe. A condessa de Orsina tem envolvimento amoroso com o príncipe, mas ele está apaixonado por Emília. Ele não lê a carta dela.

CENA 2

O pintor Conti traz o retrato encomendado pelo príncipe com o rosto da condessa e outro que ele não pediu.

CENA 3

O príncipe pensa nas pinturas que Conti sai para pegar.

CENA 4

O príncipe diz que o pintor foi muito mais elogioso do que deveria no retrato que fez da condessa Orsina. Ele se assusta quando vê que Conti pintou, no outro quadro, o retrato de Emília Galotti. Gonzaga, que no fim compra as duas pinturas, revela que conheceu tanto a moça quanto os pais dela num sarau noturno na casa dos Grimaldi.

CENA 5

O príncipe admira o retrato de Emília.

CENA 6

O príncipe relata a Marinelli que o casamento com a condessa é arranjado por motivos políticos. O secretário conta que Emília Galotti se casará ainda naquele dia com o conde Appiani em Sabionetta. Gonzaga e Marinelli, então, começam a tramar um plano para separar o casal. Marinelli pede que o príncipe se dirija ao seu castelo de veraneio em Dosalo, que fica perto de onde Emília passará para ir ao casamento. Pede também que ele force o conde a ir a Massa para um trabalho naquele mesmo dia.

CENA 7

O príncipe acredita ter mais sofrido que agido. Resolve então falar com Emília pessoalmente, talvez indo à missa que ela deve frequentar na região. O camareiro chama Camillo Rota, um conselheiro.

CENA 8

Rota afirma que tem uma condenação de morte que o príncipe tem de assinar, mas ele se diz apressado e sai.

ATO 2

CENA 1

Cláudia Galotti, mãe de Emília, pergunta a Pirro, criado dos Galotti, quem está chegando, e este diz que se trata de Odoardo, marido dela.

CENA 2

Odoardo descobre que Emília saiu para a missa e reclama com Cláudia, afirmando que ela não deveria tê-la deixado, embora a igreja seja bem perto, porque, segundo ele, bastam alguns passos para ocorrer um deslize.

CENA 3

Pirro fica sozinho na sala, e Angelo, que está foragido, entra. Ele entrega a Pirro um saco com dinheiro porque Pirro conduziu seu antigo senhor para uma emboscada feita por Angelo. Este indaga quando Odoardo e a família vão pegar a estrada e com quem. O objetivo é atacá-los e roubar as joias da noiva. Pirro não gosta de ser cúmplice dessa vez.

CENA 4

Cláudia quer que o conde Appiani e Emília continuem morando ali, mas Appiani havia decidido ir com a esposa para o vale onde moram seus pais. Odoardo concorda com isso e prefere que eles vão para lá, onde haverá mais oportunidades para o genro. Cláudia conta que o príncipe se encontrou com Emília num sarau na casa do chanceler Grimaldi e se encantou por ela. Odoardo fica assustado porque acredita que o príncipe o detesta.

CENA 5

Cláudia reflete sobre a situação de Emília e do príncipe.

CENA 6

Emília chega em casa e conta para Cláudia que foi assediada na igreja pelo príncipe, que se aproximou dela e lhe lançou juras de amor. Quando ela tentou escapar, ele ainda a pegou pela mão. Cláudia pede que a filha não conte ao noivo nem ao pai.

CENA 7

Appiani chega. Emília reclama que o pai dela não a quis esperar para irem juntos ao casamento. Diz ainda que vai se arrumar para que eles possam partir. Menciona que sonhou com as joias que o noivo lhe deu; no sonho, as pedras preciosas se tornavam lágrimas.

CENA 8

Appiani se mostra preocupado por ter prometido aos amigos que conversaria com o príncipe antes de efetivar o casamento.

CENA 9

Pirro anuncia a entrada de Marinelli, que comunica a Appiani que tem um serviço urgente para ele. Cláudia sai para que os dois fiquem a sós.

CENA 10

Marinelli exige que Appiani cumpra as ordens do príncipe, que manda que o conde viaje imediatamente até Orsina para firmar o compromisso com ela. Appiani recusa, porque ele mesmo se casará, mas Marinelli não aceita as desculpas, argumentando que ele deve obediência ao senhor. Ambos estão irredutíveis.

CENA 11

Appiani comenta a Cláudia que pretende apressar a partida. Ele sai para arrumar as malas.

ATO 3

CENA 1

Marinelli relata ao príncipe que o início do plano foi malsucedido. Tiros estouram, e ele revela que planejou um ataque ao comboio de Emília Galotti para sequestrá-la.

CENA 2

Angelo chega mascarado. O ataque não saiu totalmente como o planejado, e um dos assaltantes morreu no combate. O criminoso afirma que matou o conde, mas Marinelli desconfia que isso não seja verdade.

CENA 3

O príncipe está descontente com o rumo da situação, e Marinelli tenta acalmá-lo.

CENA 4

Emília é levada por Batista, criado de Marinelli, até o palácio de veraneio do príncipe. Ela pensa que foi salva por eles e pede para rever a família, mas assusta-se quando descobre onde realmente está.

CENA 5

O príncipe tranquiliza Emília em relação à família dela. A moça pede que ele traga sua mãe, se é assim como ele afirma. Após pedir longas desculpas pelo comportamento dele na igreja, leva-a dali para um aposento reservado. Depois que eles saem, Marinelli reflete que, enquanto o príncipe está a sós com a jovem, deve cuidar para que Cláudia não interfira e estrague tudo.

CENA 6

Marinelli e Battista ouvem Cláudia chegando para procurar a filha.

CENA 7

Claudia diz que viu Battista levar Emília e pergunta onde ela está. Battista dá a entender que a salvou, e Claudia ameniza o tom.

CENA 8

Quando enfim vê Marinelli, Cláudia percebe que a emboscada não foi de ladrões, mas de assassinos encomendados. Ela revela que o conde balbuciou o nome de Marinelli como uma de suas últimas palavras num tom específico e sugestivo. Cláudia ouve a voz de Emília e corre para vê-la.

ATO 4

CENA 1

O príncipe reclama que o conde está morto, e Marinelli alega que foi um acidente. O príncipe teme que o associem a Angelo e descubram que ele está envolvido na morte. Marinelli reclama que o príncipe tenha ido à igreja exibir suas intenções à jovem.

CENA 2

Battista chega anunciando a vinda da condessa Orsina. O príncipe não sabe como Orsina os descobriu ali. Marinelli aceita recebê-la, e o príncipe se esconde.

CENA 3

A condessa conta que, na carta enviada mais cedo, marcava um encontro com o príncipe em Dosalo, o castelo de veraneio dele. Como soube que ele havia ido para lá, então acreditou que o combinado estava se cumprindo. Ela ouve vozes de mulher e tenta entrar, mas Marinelli a impede. A condessa acha que o amor do príncipe por ela foi substituído por indiferença.

CENA 4

Sem parar para conversar, o príncipe afirma que está ocupado, encontra-se acompanhado de alguém e não pode dar atenção à condessa.

CENA 5

Orsina exige que Marinelli dê uma desculpa para o tratamento vexatório que o príncipe acabou de lhe dispensar. Ele mente que o príncipe está recebendo o conde Appiani, mas Orsina sabe que o noivo morreu por ter visto corpo dele sendo transportado. Quando Marinelli se corrige afirmando que as visitas são Emília Galotti e sua mãe, então Orsina demonstra saber do encontro do príncipe com Emília na igreja e do plano para matar Appiani. Ela diz que vai expor tudo.

CENA 6

Odoardo chega querendo ver a filha e a esposa. Marinelli alega que ele deve ser primeiro anunciado. Marinelli tenta tirar Orsina de lá, mas ela prefere esperar. O secretário acaba tendo de sair deixando os dois sozinhos.

CENA 7

Orsina conta a Odoardo que Appiani foi morto e o assassinato dele encomendado pelo príncipe, que havia se encontrado com Emília na igreja de manhã, para que os dois ficassem juntos. Orsina oferece um punhal para que Odoardo faça justiça.

CENA 8

Cláudia aparece, e Odoardo confirma com ela tudo o que Orsina disse. Ele despacha a esposa com Orsina, que lhe dará uma carona.

ATO 5

CENA 1

Marinelli e o príncipe especulam como devem reagir à presença de Odoardo enquanto o veem pela janela deixar Cláudia na carruagem de Orsina. Odoardo volta para falar com eles.

CENA 2

Odoardo diz que vai se vingar pelo conde Appiani e para salvar a honra da filha.

CENA 3

Odoardo avisa a Marinelli que Emília deve ir com ele; mas o secretário sugere que ela seja levada pelo príncipe para Guastalla. Odoardo diz que ela não vai.

CENA 4

Odoardo fala consigo mesmo, espumando de ódio.

CENA 5

Marinelli conta a Odoardo que Appiani está morto e sugere que pode ter sido uma emboscada armada por alguém de renome; Odoardo finge surpresa e está prestes a empunhar a adaga, mas resiste. Ele promete levar a filha a um convento, enquanto o príncipe diz que será melhor mantê-la na casa do chanceler Grimaldi. Odoardo quer ver a filha antes disso.

CENA 6

Odoardo se questiona se Emília não estará junta com o príncipe nas tramoias.

CENA 7

Emília encontra-se com o pai, descobre tudo o que se passou e pede o punhal para manter sua pureza. Odoardo entrega-lhe a arma, mas a toma de volta, e ele mesmo desfere o golpe fatal.

CENA 8

Marinelli e o príncipe veem Emília morrer. Odoardo se entrega, arremessando o punhal ensanguentado no chão, e espera a justiça tanto dos homens quanto de Deus. O príncipe culpa Marinelli pela tragédia e o manda embora do principado.

Sobre a obra

A peça Emília Galotti foi traduzida para o português em 1999 por Marcelo Backes e conta com um breve prefácio explicativo.[2] É tida como uma crítica essencialmente política à sociedade aristocrática alemã da época, ainda que a história se passe em um principado italiano, mostrando o despotismo da corte no papel do príncipe e de seu secretário Marinelli.

Apesar de o amor representar um tema central nessa tragédia, há uma crítica aos valores da aristocracia descendente frente aos ideais da burguesia em ascensão. Esse contraste é mostrado com a contraposição da ideia de casamento: para a aristocracia este é visto como um negócio fechado entre as duas partes em acordo a fim de que a riqueza se perpetue. Relações que envolvessem sentimentos eram estranhos à classe mais nobre da sociedade, enquanto que na burguesia o casamento apresenta o formato que se entende atualmente: é feito por amor e não por interesse. Um aristocrata jamais se casaria com alguém de classe diferente da sua, pois, deste modo, haveria um desnível principalmente financeiro. O que poderia e o que geralmente ocorria era esse mesmo aristocrata tomar uma jovem de nível inferior como amante, como desejava o príncipe com Emília Galotti. Esse desejo é o que levará à desestabilização da sociedade, como comenta Roberto Schwarz,[3] e para que ela recupere seu equilíbrio é preciso que alguém se sacrifique por isso, no caso a própria Galotti. O príncipe demonstra seu poder excessivo autorizando Marinelli a tomar as medidas necessárias para que Emília não se case com o Conde Appiani (casamento que se daria por amor, contrapondo-se com os ideais aristocráticos, representados por Lessing como defasados). É esse o exato momento da emboscada para o Conde Appiani, ainda que receoso, o príncipe nada faz, melhor dizendo, faz vista grossa para os fatos. Deste modo ele se isenta de uma possível culpa, caso seja acusado. Por conta disso Emilia Galotti, sem esperanças, decide se matar para que assim não seja vítima da sedução do príncipe, poder muito mais violento que qualquer outro:

EMÍLIA – [...] Como se nós, como se nós não tivéssemos vontade própria, meu pai!

ODOARDO - Eu também já estava furioso a ponto de pegar neste punhal (puxando-o para fora), para atravessar o coração de um dos dois… dos dois.

EMÍLIA – Pelo amor dos céus não, meu pai! Esta vida é tudo que esses perversos tem. A mim, meu pai, a mim é que devei dar esse punhal.

[...]

ODOARDO -O quê? A coisa chegaria a esse ponto? Não, de jeito nenhum, não! Te acalmes! Tu também só tens uma vida a perder.

EMÍLIA – E só uma inocência!

ODOARDO - Que é superior a todo o poder.

EMÍLIA – Mas não a toda sedução. Poder! Poder! Quem não poder desafiar o poder? O que tem nome de poder não é nada: a sedução é o verdadeiro poder. [...] (Ato V, cena VII)[4]

Para poupar que sua filha poupe sua desonra com outra desonra, Odoardo decide matá-la, concluindo que por mais que a aristocracia acredite que está acima de qualquer poder, sempre haverá um juízo superior, que não distingue as pessoas por seus títulos ou suas riquezas. A trama se fecha com o esfacelamento da posição de aparente superioridade do príncipe, uma crítica feroz ao sistema descendente de valores ainda feudais.

ODOARDO – Vá em paz! Aí está, príncipe! Ela ainda voa agrada? Ainda acende vossos desejos? Ainda, nesse sangue, que clama por vingança contra vós? (Depois de uma pausa) Mas vós esperais para ver até aonde a coisa chegara? Vós esperais, talvez, que eu volte ao aço contra mim mesmo, e encerre minha ação como uma tragédia insípida? Enganai-vos. Aqui! (Enquanto arroja o punhal aos pés do príncipe) Aqui está ele, testemunha sangrenta de meu crime! Eu vou e me entrego eu mesmo à prisão. Vou e vos aguardo como juiz. E então lá… vos aguardarei diante do juiz de todos nós! (Ato V, Cena VIII)[5]

Esta última cena ilustra justamente a imagem da decadência da aristocracia, apesar de o príncipe acreditar ser o poder superior em todo seu território e, deste modo, fazer aquilo que bem entende, Odoardo contrasta enquanto personagem da burguesia em ascensão, revelando um poder que está acima de qualquer um, este sim, onipotente.

Publicações em português

Publicada no Brasil, recentemente, pela Editora Peixoto Neto, a peça de Lessing faz parte de Coleção Grandes Dramaturgos. www.peixotoneto.com.br

Publicada em Portugal, em 2011, pelo Teatro Nacional São João e a editora Húmus, com tradução de João Barrento[6].

Referências

  1. SCHWARZ, Roberto. Emília Galotti e o nascimento do realismo. In.: SCHWARZ, Roberto. A Sereia e o Desconfiado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
  2. LESSING, Gotthold Ephraim. Emília Galotti; Minna Von Barnhelm ou a felicidade do soldado. (Trad. Marcelo Backes) Porto Alegre: Mercado Aberto, 1999.
  3. SCHWARZ, Roberto. Op.cit.
  4. LESSING, Gotthold Ephraim.Op.cit
  5. Op.cit.
  6. «Emilia Galotti, Editora Húmus». Teatro Nacional de São João. Consultado em 31 de outubro de 2022