Elegibô (História de Ifá)

"Elegibô (História de Ifá)"
Single de Margareth Menezes
Lançamento 1988
Duração 04:10
Composição
  • Rey Zulu
  • Ythamar Tropicália
Produção Paulo Debétio
Cronologia de singles de Margareth Menezes
"Me Abraça e Me Beija"
(1988)

“Elegibô (Uma História de Ifá)” é uma canção da cantora brasileira Margareth Menezes, lançada originalmente no álbum homônimo de 1988 e posteriormente difundida internacionalmente em compilações como Elegibô, da gravadora Polydor. Considerada um dos primeiros grandes marcos de sua carreira, a faixa tornou-se referência central na projeção do afro-pop e do samba-reggae para além do Brasil no final dos anos 1980 e início dos anos 1990. A obra apresenta uma síntese particular de elementos musicais de matriz africana, como o ijexá e ritmos associados ao candomblé, combinados a arranjos contemporâneos voltados para o mercado pop, característica que contribuiu para inseri-la no circuito emergente da chamada "música do mundo"[1].

Além de seu impacto musical, “Elegibô” destaca-se pela temática inspirada na cosmologia iorubá e pela narrativa que evoca mitos, cidades sagradas e rituais de restauração espiritual ligados ao universo de Ifá. A interpretação de Margareth Menezes, marcada por forte presença rítmica e vocal, reforçou a força simbólica da canção e consolidou sua reputação como uma das principais vozes da música afro-baiana. O sucesso do single também impulsionou a circulação internacional da artista e motivou análises acadêmicas que situam “Elegibô” como peça fundamental no processo de globalização da música de matriz africana produzida na Bahia.

Grafias e versões do título

O nome da música aparece com variações por causa da transcrição fonética de termos de matriz iorubá e da circulação internacional do single. Entre as formas encontradas estão “Elegibô”, “Elegibo”, “Uma História de Ifá (Elegibô)”, “Uma Historia De Ifa (Elegibo)” (sem acentos em catálogos estrangeiros) e, em lançamentos de DJs europeus, apenas “Uma Historia de Ifa (Elegibo)”[2][3].

Catálogos digitais de streaming (Spotify, Apple Music etc.) costumam registrar tanto a versão de estúdio (“Original Radio Version”) quanto gravações ao vivo, quase sempre mantendo a associação com Margareth Menezes no crédito principal. Em remixes de house/club, o título é preservado, mas o contexto sonoro muda para pista de dança, com menção a produtores como Relight Orchestra e DJs italianos.

Contexto no álbum e na carreira

“Elegibô (Uma História de Ifá)” tornou‑se uma das principais canções do primeiro álbum de Margareth Menezes e, em retrospectivas, é tratada como um divisor de águas de sua carreira. O sucesso da faixa levou à criação do álbum internacional Elegibô, lançado pela gravadora Polydor na Europa, reunindo faixas dos dois primeiros discos de Margareth e apresentando o afro‑pop baiano a novos públicos.

Pesquisadores como Charles Perrone e Christopher Dunn, no livro “Brazilian Popular Music & Globalization”, apontam “Elegibô” como peça central da estratégia de internacionalização da música afro‑baiana, destacando o papel de Margareth na divulgação do estilo fora do Brasil. Para esses autores, a combinação de ritmos afro‑brasileiros, letras de matriz africana e uma produção voltada ao mercado global ajudou a inserir o som de Salvador num circuito da “música do mundo”.

Temática e narrativa

A letra de “Elegibô (Uma História de Ifá)” narra uma lenda ambientada em cidades míticas ligadas ao universo de Ifá, sistema oracular e de conhecimento da tradição iorubá. A canção fala de uma “cidade encantada”, de um “reino” e de um povo que atravessa tempos de seca, fome e esterilidade, associando essa crise a um desequilíbrio espiritual que precisa ser reparado.​

A narrativa envolve rituais, batalhas simbólicas “entre o bem e o mal” e um banquete coletivo com inhame, elemento presente em muitas tradições africanas e afro‑brasileiras, culminando em um gesto de reconciliação e comunhão com os ancestrais e com o sagrado. Há referências diretas ao candomblé (como a menção a “ritual” e “floresta sagrada”) e à nação Queto, indicando um enraizamento específico na tradição afro‑baiana. Por respeito a direitos autorais, não é possível reproduzir ou reconstituir a letra integral; para leitura completa, é necessário recorrer a gravações e cancionários oficiais.​

Gravação

Estudos sobre a obra de Margareth Menezes destacam que “Elegibô” mescla o padrão rítmico do ijexá (ligado a cortejos religiosos de matriz africana) com elementos do samba‑reggae, por meio de uma base percussiva rica em agogôs, tambores, timbales, surdos e congas. Clarence Bernard Henry, em pesquisa sobre música africana, axé e pop no Brasil, observa que essa combinação, somada ao uso de metais (trompete, trombone, saxofones), teclado e sons digitalizados, cria uma textura sonora densa e ao mesmo tempo acessível para o mercado pop.

A linha melódica e os refrões de “Elegibô” são construídos para o canto coletivo, com repetições de palavras‑chave (como o próprio nome “Elegibô”), o que reforça o caráter de cântico ritual e, ao mesmo tempo, de música de carnaval. A interpretação de Margareth é marcada por intensidade rítmica, variações de dinâmica e uso de recursos vocais que remetem tanto ao canto litúrgico quanto à performance de trio elétrico.

Videoclipe

Há registro de um videoclipe de “Uma História de Ifá (Elegibô)” gravado no Museu de Arte Moderna da Bahia e divulgado em 1988 como parte da estratégia de lançar o álbum Margareth Menezes. Em materiais recentes de redes sociais e plataformas de vídeo, esse videoclipe vem sendo resgatado como “o primeiro da carreira” da artista, evidenciando a importância simbólica do single em sua videografia.​

Além da versão de estúdio, circulam registros ao vivo de “Uma História de Ifá (Elegibo)” gravados em Salvador nos anos 2000, reafirmando o lugar da música como ponto alto dos shows. Em catálogos internacionais de “world music”, “Elegibô” aparece ao lado de faixas como “Faraó (Divindade do Egito)” como exemplo da síntese afro‑baiana que projetou Margareth Menezes para públicos na América do Norte e Europa.

Referências

  1. Mion, José; NBZ, Agência (10 de outubro de 2024). «'Elegibo': álbum clássico de Margareth Menezes está entre relançamentos no streaming». Alô Alô Bahia. Consultado em 23 de novembro de 2025 
  2. „Uma Historia De Ifa (Elegibo) [feat. Margareth Menezes]“ von Relight Orchestra & DJ Andrea bei Apple Music (em alemão), 4 de abril de 2014, consultado em 23 de novembro de 2025 
  3. Margareth Menezes - Uma História De Ifá (Ejigbô) (em inglês), 1988, consultado em 23 de novembro de 2025