Edward C. Tolman

Edward C. Tolman
Nascimento14 de abril de 1886
West Newton
Morte19 de novembro de 1959 (73 anos)
Berkeley
SepultamentoHartley Cemetery
CidadaniaEstados Unidos
Irmão(ã)(s)Richard C. Tolman
Alma mater
Ocupaçãopsicólogo
Distinções
  • Prêmio APA por Destacadas Contribuições Científicas para a Psicologia (1957)
  • Membro da Academia Americana de Artes e Ciências
  • Prêmio Kurt Lewin (1949)
  • Honorary Fellow of the British Psychological Society
Empregador(a)Universidade da Califórnia em Berkeley
Orientador(a)(es/s)Edwin Holt

Edward Chace Tolman (14 de abril de 1886 – 19 de novembro de 1959) foi um psicólogo norte-americano e professor de psicologia na Universidade da Califórnia em Berkeley.[1][2] Por meio de suas teorias e trabalhos, fundou um ramo da psicologia conhecido como comportamentalismo propositivo. Tolman também promoveu o conceito de aprendizagem latente, cunhado originalmente por Blodgett (1929).[3] Uma pesquisa da Review of General Psychology, publicada em 2002, classificou Tolman como o 45.º psicólogo mais citado do século XX.[4]

Tolman foi uma das figuras centrais na defesa da liberdade acadêmica durante a Era McCarthy, no início dos anos 1950.[5][6][7][8] Em reconhecimento por suas contribuições tanto ao desenvolvimento da psicologia quanto à liberdade acadêmica, o prédio de Educação e Psicologia no campus de Berkeley, o "Tolman Hall", foi nomeado em sua homenagem.[6]

Primeiros anos

Nasceu em West Newton, Massachusetts, irmão do físico Richard Chace Tolman, do Caltech. Edward C. Tolman estudou no Massachusetts Institute of Technology, onde recebeu o título de bacharel em eletroquímica em 1911.[1] Seu pai era presidente de uma empresa de manufatura e sua mãe era uma devota quacre.[9] Embora tenha frequentado o MIT por pressão familiar, após ler Principles of Psychology, de William James, decidiu abandonar a física, a química e a matemática para se dedicar à filosofia e à psicologia.[9]

Tolman sempre reconheceu a influência dos psicólogos da psicologia da Gestalt, especialmente Kurt Lewin e Kurt Koffka.[9] Em 1912, foi para Giessen, na Alemanha, estudar para seu doutorado, onde teve contato inicial com a psicologia da Gestalt.[10] Mais tarde, transferiu-se para Harvard, onde trabalhou no laboratório de Hugo Munsterberg e obteve seu doutorado em 1915.[1][9]

Carreira

Tolman é mais conhecido por seus estudos sobre aprendizagem em ratos usando labirintos. Publicou diversos artigos experimentais, sendo provavelmente o mais influente aquele escrito com Ritchie e Kalish em 1946. Suas principais contribuições teóricas estão no livro Purposive Behavior in Animals and Men (1932) e em uma série de artigos na Psychological Review, como "The determinants of behavior at a choice point" (1938), "Cognitive maps in rats and men" (1948) e "Principles of performance" (1955).[11][12]

Comportamentalismo propositivo

Parte das primeiras pesquisas de Tolman envolveu o desenvolvimento do que hoje se conhece como genética do comportamento. Ele realizou cruzamentos seletivos entre ratos com diferentes capacidades de aprender labirintos. Este foi o primeiro experimento a investigar a base genética da aprendizagem por labirinto. Em 1938, Tolman apresentou seu modelo teórico no artigo "The Determiners of Behavior at a Choice Point". Segundo ele, três tipos de variáveis influenciam o comportamento: independentes (controladas pelo experimentador), intervenientes (como apetite ou habilidades motoras) e dependentes (como velocidade ou número de erros).[13]

Embora adotasse uma metodologia comportamentalista, Tolman não era um behaviorista radical como B. F. Skinner. Ele buscava demonstrar que os animais aprendem informações sobre o ambiente que podem utilizar de forma flexível. Baseando-se na psicologia da Gestalt, argumentava que os animais podiam aprender conexões entre estímulos, sem precisar de reforços diretos — um processo que denominou aprendizagem latente. Sua teoria contrastava com o modelo mecanicista "S-R" (estímulo-resposta) defendido por Clark L. Hull.[14]

O famoso experimento de Tolman com Ritchie e Kalish em 1946 demonstrou que ratos eram capazes de formar mapas mentais de labirintos sem reforço direto. Após colocarem comida em determinado ponto, os ratos conseguiam chegar rapidamente ao local, sugerindo que haviam aprendido a estrutura do espaço. Ainda que Hull tenha proposto explicações alternativas, esse debate deu origem a novas abordagens que mais tarde fundamentariam a psicologia cognitiva.[14]

Em seu artigo de 1948, "Cognitive Maps in Rats and Men", Tolman introduziu o conceito de mapa cognitivo, aplicado amplamente em várias áreas da psicologia.[15] Ele diferenciou aprendizagem por resposta (movimento aprendido) de aprendizagem por lugar (reconhecimento de posição). Descobriu que os ratos no grupo de aprendizagem por lugar encontravam a rota correta em até oito tentativas, enquanto muitos do grupo por resposta não aprenderam nem após 72 tentativas.[16]

A partir do final do século XX, as pesquisas sobre cognição animal voltaram a ganhar força, influenciadas por experimentos da psicologia cognitiva.[17]

Outras contribuições

Além da aprendizagem, Tolman escreveu sobre a relação entre psicologia, sociologia e fisiologia. Em artigos como "A theoretical analysis of the relations between sociology and psychology" e "Physiology, Psychology, and Sociology", abordou a interdependência entre essas disciplinas.[18][19]

Tolman também desenvolveu uma teoria de dois níveis sobre o instinto, distinguindo entre ajustes determinantes (motivações) e atos subordinados (ações para atingir um objetivo). Essa teoria visava explicar comportamentos instintivos e deliberados, incluindo o conceito de "pensamento de ações" (thinking-of-acts), no qual estímulos mais fortes (prepotentes) substituem ajustes originais frente a novas decisões.[20]

Em 1948, publicou um obituário sobre Kurt Lewin, elogiando sua obra e comparando-o a Sigmund Freud.[21]

Cerimônia de dedicação do Tolman Hall, 1963

Northwestern e Berkeley

Tolman iniciou sua carreira acadêmica como instrutor na Universidade Northwestern de 1915 a 1918. No entanto, a maior parte de sua trajetória ocorreu na Universidade da Califórnia em Berkeley, onde lecionou de 1918 até 1954.[22]

Na década de 1950, recusou-se a assinar o juramento de lealdade exigido pelo governo da Califórnia, por considerar que ele feria a liberdade acadêmica. Liderou a resistência e processou os regentes da universidade. O caso Tolman v. Underhill resultou em uma decisão da Suprema Corte da Califórnia que anulou o juramento e reintegrou os professores afastados.[23][24][25]

Em 1963, o prédio de Psicologia e Educação no campus de Berkeley foi nomeado "Tolman Hall" em sua homenagem. O edifício foi demolido em 2019 por questões de segurança sísmica.[26]

Premiações e honrarias

Tolman recebeu diversos prêmios e distinções ao longo da carreira. Foi presidente da Associação Americana de Psicologia (APA) em 1937 e presidente da Sociedade para o Estudo Psicológico de Questões Sociais de Lewin, em 1940. Era membro da Society of Experimental Psychologists, da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos[27] e da Sociedade Filosófica Americana.[28] Em 1957, recebeu da APA um prêmio por suas contribuições distintas.[29] Foi eleito membro da Academia Americana de Artes e Ciências em 1949.[30]

Vida pessoal

Tolman era casado com Kathleen Drew Tolman. O casal teve três filhos: Deborah, Mary e Edward James. O cantor, compositor e produtor musical Russ Tolman é seu neto.

Como mencionado anteriormente, o pai de Tolman desejava que ele assumisse os negócios da família. No entanto, Edward preferiu seguir a carreira acadêmica e foi apoiado por seus familiares nessa decisão.[31]

Ver também

  • The Logic of Modern Physics

    Referências

  1. a b c «Edward C. Tolman» (PDF). National Academy of Sciences. Consultado em 18 de março de 2019 
  2. Bergman, Barry (13 de novembro de 2014). «Of rats and men: Tolman, behavior and academic freedom». Berkeley News (em inglês). Consultado em 18 de março de 2019 
  3. Tolman, E.C. (1948). «Cognitive maps in rats and men». Psychological Review. 55 (4): 189–208. PMID 18870876. doi:10.1037/h0061626 
  4. Haggbloom, Steven J.; Warnick, Renee; Warnick, Jason E.; Jones, Vinessa K.; Yarbrough, Gary L.; Russell, Tenea M.; Borecky, Chris M.; McGahhey, Reagan; Powell, John L. III; Beavers, Jamie; Monte, Emmanuelle (2002). «The 100 most eminent psychologists of the 20th century.». Review of General Psychology. 6 (2): 139–152. CiteSeerX 10.1.1.586.1913Acessível livremente. doi:10.1037/1089-2680.6.2.139 
  5. Smith, Wilson; Bender, Thomas (11 de abril de 2008). American Higher Education Transformed, 1940–2005: Documenting the National Discourse (em inglês). [S.l.]: JHU Press. ISBN 978-0-8018-9585-2 
  6. a b «Tolman, Edward (1886–1959)» (PDF). University of California, Berkeley. Consultado em 18 de março de 2019 
  7. Douglass, John; Thomas, Sally. «Timeline: Summary of events of the Loyalty Oath Controversy 1949-54». www.lib.berkeley.edu (em inglês). Consultado em 18 de março de 2019 
  8. Carroll, David W. (27 de abril de 2017). Purpose and Cognition: Edward Tolman and the Transformation of American Psychology (em inglês). [S.l.]: Cambridge University Press. ISBN 978-1-108-21060-7 
  9. a b c d History of Psychology 4ed, Hothersall. pp. 487–489.
  10. Lora Vander Zwaag, "Edward C. Tolman: 1886-1959" Psychology History. Muskingum University, dezembro de 1998. Acesso em 10 de novembro de 2014.
  11. Tolman, EC; Ritchie, BF; Kalish, D (1946). «Studies in spatial learning. I. Orientation and the short-cut.». Journal of Experimental Psychology. General. 121 (4): 429–434. PMID 1431737. doi:10.1037/0096-3445.121.4.429 
  12. Tolman, EC (setembro de 1955). «Principles of performance». Psychological Review. 62 (5): 315–326. PMID 13254969. doi:10.1037/h0049079 
  13. History of Psychology 4ed, Hothersall. p. 494
  14. a b História da Psicologia 4ed, Hothersall. pág. 487-489.
  15. Best, PJ; White, AM (1 de janeiro de 1999). «Placing hippocampal single-unit studies in a historical context». Hippocampus. 9 (4): 346–351. PMID 10495017. doi:10.1002/(SICI)1098-1063(1999)9:4<346::AID-HIPO2>3.0.CO;2-3 
  16. History of Psychology 4ed, Hothersall. p. 493
  17. História da Psicologia 4ed, Hothersall. pág. 487-489.
  18. Tolman, EC (1952). «A theoretical analysis of the relations between sociology and psychology». The Journal of Abnormal and Social Psychology. 47 (2, Suppl): 291–298. PMID 14937965. doi:10.1037/h0054466 
  19. Tolman, EC (1938). «Physiology, psychology, and sociology». Psychological Review. 45 (3): 228–241. doi:10.1037/h0060722 
  20. Tolman, EC (1920). «Instinct and Purpose». Psychological Review. 27 (3): 217–233. doi:10.1037/h0067277 
  21. Tolman, EC (1948). «Kurt Lewin: 1890-1947». Psychological Review. 55 (1): 1–4. doi:10.1037/h0058521 
  22. «"Edward C. Tolman" (PDF). Academia Nacional de Ciências. Página visitada em 18/03/2019» (PDF). www.nasonline.org. Consultado em 2 de maio de 2025. Cópia arquivada (PDF) em 14 de março de 2023 
  23. Tolman, EC (1954). «Freedom and the cognitive mind». American Psychologist. 9 (9): 536–538. doi:10.1037/h0061920 
  24. Smith, Wilson; Bender, Thomas (11 de abril de 2008). American Higher Education Transformed, 1940–2005: Documenting the National Discourse (em inglês). [S.l.]: JHU Press. Consultado em 2 de maio de 2025 
  25. «Wrong shelf. | UC Berkeley Library». www.lib.berkeley.edu (em inglês). Consultado em 2 de maio de 2025 
  26. «Tolman Hall demolition». Consultado em 18 de março de 2019 
  27. «Edward C. Tolman». www.nasonline.org. Consultado em 14 de março de 2023 
  28. «APS Member History». search.amphilsoc.org. Consultado em 14 de março de 2023 
  29. History of Psychology 4ed, Hothersall. p. 495
  30. «Book of Members, 1780–2010: Chapter T» (PDF). American Academy of Arts and Sciences. Consultado em 10 de abril de 2011 
  31. Ritchie, Benbow F. (1964). Edward Chace Tolman. Washington D.C.: National Academy of Sciences. pp. 294–295 

Leituras adicionais

Ligações externas