E pur si muove!

Eppur si muove ou E pur si muove (mas se movimenta ou no entanto ela se move, em português) é uma frase polêmica que, segundo a tradição, Galileu Galilei pronunciou depois de renegar a visão heliocêntrica do mundo perante o tribunal da Inquisição. Embora a defesa heliocêntrica de Galileu sobre os movimentos da Terra tenha provocado intensa hostilidade em sua época, o leitor contemporâneo tende a encarar a obra sob uma perspectiva documental, esvaziada da polêmica original.[1]
Simbolismo da frase
Diz a lenda que o matemático, físico e filósofo italiano Galileu Galilei murmurou esta frase depois de ter sido obrigado a renegar em 1633, diante da Inquisição, sua tese de que a Terra se move em torno do Sol.
No momento do julgamento de Galileu, a visão dominante entre os teólogos, filósofos e cientistas era de que a Terra seria estacionária, e de fato o centro do universo. Adversários de Galileu acusaram-no de heresia, crime punível com a morte pelo tribunal da Inquisição. Tendo Galileu se retratado, foi colocado sob prisão domiciliar até sua morte, nove anos após o julgamento.
No entanto, a mais antiga biografia de Galileu, escrita por seu discípulo Vincenzo Viviani, não menciona esta frase, e descreve Galileu como tendo-se retratado sinceramente.
Do ponto de vista simbólico, a frase sintetiza a estabilidade dos fatos descobertos pela ciência mesmo diante da censura pela fé; a quintessência do conflito entre descobertas científicas e as convenções de autoridade. A expressão Eppur si muove é usada com frequência como um apontamento de que os fatos físicos continuam sendo os mesmos, independente de opiniões ou religiões.
História
O evento foi registrado pela primeira vez em inglês por Giuseppe Baretti, em seu livro impresso em 1757: he Italian Library[2] página 357:
No momento em que foi libertado, ele olhou para o céu e para o chão e, batendo o pé no solo, em atitude contemplativa, disse: Eppur si muove, ou seja, "e, no entanto, ela se move", referindo-se à Terra,[3] página 52 .
O livro passou a ser amplamente divulgado na Querelles Littéraires em 1761[4]
Em 1911, as palavras E pur si muove foram encontradas em uma pintura recém-adquirida por um colecionador de arte, Jules van Belle, de Roeselare, na Bélgica.[5] Essa pintura é datada de 1643 ou 1645 (o último dígito está parcialmente obscurecido), ou seja, dentro de um ou dois anos após a morte de Galileu. A assinatura é ilegível, mas Van Belle a atribuiu ao pintor espanhol do século XVII, Bartolomé Esteban Murillo. A pintura sugeriria que alguma variante da anedota Eppur si muove já circulava imediatamente após a morte de Galileu, quando ainda viviam muitas pessoas que o conheceram e poderiam confirmar a veracidade do relato — e que essa história teria circulado por mais de um século antes de ser publicada.[2] No entanto, essa pintura, cujo paradeiro atual é desconhecido, revelou-se quase idêntica a uma outra, pintada em 1837 por Eugene van Maldeghem. Com base no estilo, muitos especialistas em arte duvidam que a pintura de Van Belle tenha sido feita por Murillo ou mesmo que tenha sido produzida antes do século XIX.[6]
O juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos, Antonin Scalia, supostamente concedia um prêmio chamado E pur si muove a juízes de instância inferior cujas decisões foram inicialmente revertidas por tribunais de apelação, mas mais tarde confirmadas pela Suprema Corte.[7]
Ver também
- Caso Galileu (em inglês)
Referências
- ↑ Cardozo, Mauricio Mendonça (2016). «E pur si muove: tempo e tradução em movimento». Tradução em Revista. 2015: 181-191
- ↑ a b Drake, Stillman (1 de janeiro de 2003). Galileo at Work: His Scientific Biography (em inglês). [S.l.]: Courier Corporation. Consultado em 5 de abril de 2025
- ↑ Baretti, Giuseppe Marco Antonio (1757). The Italian library. Containing an account of the lives and works of the most valuable authors of Italy. With a preface, exhibiting the changes of the Tuscan language, from the barbarous ages to the present time. University of California Libraries. [S.l.]: London : A. Millar. Consultado em 5 de abril de 2025
- ↑ A. Rupert Hall (1979). «Galileo nel XVIII secolo». Rivista di filosofia. 15: 375–378
- ↑ Fahie, J. J. (John Joseph) (1929). Memorials of Galileo Galilei, 1564-1642 : Portraits and paintings, medals and medallions, busts and statues, monuments and mural inscriptions. Wellcome Library. [S.l.]: Leamington ; London : Printed for the author, The Courier press. Consultado em 5 de abril de 2025
- ↑ Livio, Mario. «Did Galileo Truly Say, 'And Yet It Moves'? A Modern Detective Story». Scientific American (em inglês). Consultado em 5 de abril de 2025
- ↑ Armour, Maureen (1 de janeiro de 2009). «Remembering Judge Sanders: Judicial Pragmatism in the Court of First and Last Resort». SMU Law Review (5). 1547 páginas. ISSN 1066-1271. Consultado em 5 de abril de 2025
Bibliografia
- Hawking, Stephen (2003). On the Shoulders of Giants: The Great Works of Physics and Astronomy (em inglês). [S.l.]: Running Press. pp. 396–7. ISBN 9780762416981
- Magrini, Graziano (1 de dezembro de 2010). «Villa Il Gioiello» (em inglês). Traduzido por Victor Beard. Institute and Museum of the History of Science, Florence. Consultado em 14 de maio de 2015
- Simons, Jay. "Did Galileo Really Say: “And Yet It Moves”?" (em inglês)
- Fahie, J.J. (1929). Memorials of Galileo (1564–1642) (em inglês). Leamington and London: the Courier Press. pp. 72–74
- Drake, Stillman (2003). Galileo at Work: His Scientific Biography (em inglês) Facsim. ed. Mineola (N.Y.): Dover Publications Inc. ISBN 0486495426
- Baretti, Giuseppe (1757). The Italian Library. Containing An Account of the Lives and Works of the Most Valuable Authors of Italy. With a Preface, Exhibiting The Changes of the Tuscan Language, from the barbarous Ages to the present Time. (em inglês). [S.l.]: London: Printed for A. Millar, in the Strand. 52 páginas.
Text preceded by: "This is the celebrated Galileo, who was in the inquistion for six years, and put to the torture, for saying, that the earth moved."
- A. Rupert Hall, "Galileo nel XVIII secolo," Rivista di filosofia, 15 (Turin, 1979), pp. 375–78, 83. (em italiano)