Dupla contenção

A dupla contenção ou contenção dupla[1] (em inglês: dual containment) foi uma política externa oficial dos Estados Unidos destinada a conter o Iraque Baathista e o Irã revolucionário. O termo foi usado oficialmente pela primeira vez em maio de 1993 por Martin Indyk no Washington Institute for Near East Policy e anunciado oficialmente em 24 de fevereiro de 1994 em um simpósio do Middle East Policy Council por Indyk, que era o diretor sênior de Assuntos do Oriente Médio do Conselho de Segurança Nacional.[2][3]

Representou uma continuação da política externa estadunidense em relação ao Irã e ao Iraque durante a Guerra Fria e a tentativa de Bill Clinton de revisar uma estratégia do Golfo Pérsico após a Guerra do Golfo.

Justificativa

Os Estados Unidos tinham uma doutrina estratégica de longa data no Oriente Médio para não deixar nenhum país se tornar tão poderoso a ponto de controlar todo o suprimento de petróleo da região do Golfo. Por essa razão, os estadunidenses consideravam tanto a Arábia Saudita como o Irã, sob o Xá, como "pilares gêmeos" da segurança regional.[4]

Clinton pretendia fazer do processo de paz israelense-palestino uma grande prioridade em sua política externa e, portanto, queria garantir que o Iraque e o Irã não estivessem em posição de interferir nessa agenda.[5] O Iraque já estava sob contenção pelos Estados Unidos e seus aliados no âmbito das zonas de exclusão aérea iraquianas. O Irã estava isolado pelos estadunidenses desde a Revolução Iraniana em 1979. Ainda que Clinton tivesse esperanças de eventuais mudanças na política do regime desses países, a contenção parecia ser a única opção viável para o futuro próximo.[6]

Embora os Estados Unidos tivessem planejado na década de 1980 equilibrar o Iraque e o Irã um contra o outro diretamente, isso se tornou insustentável e desnecessário no início da década de 1990. Ambos os países estavam exaustos militar e financeiramente devido a Guerra Irã-Iraque. Além disso, a União Soviética já não existia para ser uma benfeitora de segurança para qualquer um dos países.[7]

Clinton encarregou seu conselheiro de segurança nacional, Tony Lake, de elaborar uma nova estratégia.

Visão e implementação política

Iraque

O Estado-Maior Conjunto era favorável à exploração do diálogo com Saddam Hussein, mas o Secretário da Defesa dos Estados Unidos, Les Aspin, a CIA e o Departamento de Estado dos Estados Unidos queriam uma linha mais dura. O Departamento de Estado, no entanto, estava preocupado com a possibilidade de uma guerra sectária se Saddam fosse derrubado. Ele decidiu por uma abordagem que foi chamada de "contenção agressiva", uma estratégia de contenção "por meio de sanções e o recurso ocasional à força". [8]

Lake rejeitou dar à CIA autoridade imediata para começar a explorar opções de um potencial golpe de Estado liderado por oficiais contra Saddam. No entanto, foi acordado que a administração daria apoio político ao Congresso Nacional Iraquiano e continuaria com as zonas de exclusão aérea que protegem as populações curdas e xiitas no Iraque.[9]

A política de contenção dupla estadunidense em relação ao Iraque também incluiu esforços secretos para alcançar a mudança de regime. Após o estabelecimento de uma zona protegida no Norte em 1991, destinada a fornecer ajuda humanitária e conter o fluxo de refugiados curdos para os países vizinhos, a região tornou-se uma base segura para movimentos de oposição. O Congresso Nacional Iraquiano, uma coalizão de grupos de oposição, foi formado e apoiado secretamente pela CIA. Esse apoio incluiu o fornecimento de fundos, armamentos e ajuda logística para promover uma insurgência que enfraqueceria o regime de Saddam Hussein e abriria caminho para um golpe de Estado interno. Esses esforços marcaram uma mudança tática significativa, com a mudança de regime sendo buscada secretamente sob o pretexto de contenção.[10]

Anthony Lake, Conselheiro de Segurança Nacional do Presidente Clinton, reconheceu mais tarde que, embora a contenção fosse oficialmente enquadrada como a manutenção das resoluções da ONU, era, na verdade, uma ferramenta tática para atingir o objetivo estratégico mais amplo de mudança de regime. A administração evitou declarar explicitamente esse objetivo para manter a coalizão formada após a Guerra do Golfo, pois um apelo explícito para mudança de regime teria excedido o mandato da ONU.[11]

Clinton autorizou o uso de força militar punitiva contra o regime de Saddam como parte dessa estratégia, como em 1993, quando foi descoberto que o líder iraquiano havia conspirado para assassinar George H. W. Bush,[12] e em 1998, quando Saddam expulsou os inspetores de armas das Nações Unidas.[13]

Irã

A equipe de Clinton via o Irã como um "Estado vilão" que era fundamentalmente oposto aos interesses estadunidenses no Oriente Médio.[14]

A derrubada não era uma opção política viável devido à falta de oposição organizada ou de recursos de inteligência estadunidenses no terreno. O incentivo positivo a mudanças comportamentais também foi rejeitado devido à profunda desconfiança do regime iraniano em relação aos EUA. Finalmente, a ação militar punitiva foi descartada com base no fato de que as capacidades retaliatórias do Irã serem consideradas muito grandes e os benefícios dos ataques eram muito incertos. Assim, foi decidido continuar os esforços estadunidenses para impedir a aquisição de mísseis balísticos pelo Irã e o acesso ao financiamento internacional. Essa abordagem, conhecida como "contenção ativa", foi projetada para convencer a elite iraniana a buscar a reaproximação com o Ocidente ao longo do tempo.[15]

Em 6 de maio de 1995, Clinton assinou uma ordem executiva para reforçar a contenção iraniana. Esta, proibiu a venda de armas ao Irã, como tecnologias de uso duplo, e importações de produtos iranianos. Também estabeleceu uma posição diplomática de bloquear o Irã de todos os empréstimos internacionais.[16]

Nota

  • Este artigo foi inicialmente traduzido, total ou parcialmente, do artigo da Wikipédia em inglês cujo título é «Dual containment».

Ligações externas

Referências

  1. Saiba qual é a importância de Saddam para os Estados Unidos. Folha de S.Paulo. 8 de fevereiro de 1998.
  2. Landpower and dual containment – rethinking America's policy in the gulf. Arquivado em 2009-06-05 no Wayback Machine – by Stephen C. Pelletiere, Strategic Studies Institute, US Army War College, Novembro de 1999
  3. America's Misguided Policy of Dual Containment in the Persian Gulf Arquivado em 2021-08-24 no Wayback Machine – Cato Foreign Policy Briefing No. 33, by Barbara Convay, Cato Institute, 10 de novembro de 1994
  4. Indyk, pp. 32–33.
  5. Indyk, Martin (6 de janeiro de 2009). Innocent Abroad: An Intimate Account of American Peace Diplomacy in the Middle East. [S.l.]: Simon & Schuster. pp. 30, 32. ISBN 9781416597254 
  6. Indyk, p. 32.
  7. Indyk, pp. 33–36.
  8. Indyk, pp. 36–37.
  9. Indyk, p. 38.
  10. Wright, Steven (2007). The United States and Persian Gulf Security: The Foundations of the War on Terror. Reading, UK: Ithaca Press. pp. 123–154. ISBN 978-0863723216 
  11. Wright, Steven (2007). The United States and Persian Gulf Security: The Foundations of the War on Terror. Reading, UK: Ithaca Press. pp. 123–154. ISBN 978-0863723216 
  12. David Von Drehle; R. Jeffrey Smith (27 de Junho de 1993). «U.S. Strikes Iraq for Plot to Kill Bush». The Washington Post. Cópia arquivada em 26 de agosto de 2017 
  13. «Transcript: President Clinton explains Iraq strike». CNN. 16 de dezembro de 1998. Cópia arquivada em 30 de outubro de 2021 
  14. Indyk, p. 39.
  15. Indyk pp. 39–41.
  16. Bahgat, Gawdat (1997). «Beyond Containment: US–Iranian Relations at a Crossroads». Security Dialogue. 28 (4): 454