Dona Branca
| Dona Branca | |
|---|---|
![]() Dona Branca, em fotografia do "Tal & Qual" (1984) | |
| Nome | Maria Branca dos Santos |
| Nascimento | 20 de junho de 1911 |
| Pseudônimo(s) | Dona Branca |
| Morte | 3 de abril de 1992 (80 anos) |
| Sepultado | Cemitério do Alto de São João |
| Nacionalidade(s) | |
| Crime(s) | Burla, Falsificação, Agiotagem |
| Pena | 10 anos de prisão |
Maria Branca dos Santos (Lisboa, 20 de junho de 1911 — Lisboa, 3 de abril de 1992), mais conhecida por Dona Branca, foi a famosa "Banqueira do Povo", uma agiota que causou um enorme escândalo financeiro nos anos 1980 em Portugal.[1][2][3][4][5][6]
Infância
Maria Branca dos Santos nasceu no Hospital de São José, freguesia do Socorro, em Lisboa, a 20 de junho de 1911, sendo filha de Francisco dos Santos, funileiro, natural de Torres Novas, e de sua mulher, Maria Amália, doméstica, natural do Castelo, Lisboa.[6]
A sua família era extremamente pobre, pelo que, como tal, a futura "Banqueira do Povo" não chegou a completar a instrução primária.
Atividade
Desde cedo, começou a sua prática "bancária": guardava o dinheiro da venda de varinas ao longo do dia recebendo ao anoitecer uma pequena compensação pelo "depósito". Destacou-se pela sua honestidade e carisma, e passou a ser solicitada também pelos vendedores ambulantes.
No decorrer dos anos 1950, com a política Salazarista, em que reinava a pobreza nacional, torna-se numa pseudo-bancária quando iniciou a sua atividade clandestina. Estrategicamente, começou a atribuir juros a quem lhe confiasse as suas economias, tanto maiores quanto mais elevadas fossem. Utilizava bastante bem o esquema em pirâmide.
Assumiu posição diferente à da Banca e da técnica bancária: recebia depósitos acrescidos de 10% de juros a quem aplicasse as suas poupanças e concedia empréstimos a juros elevados. Esta medida foi crucial para a expansão da sua atividade e renda.
Num ápice, fosse rico ou pobre, pescador a empresário, todos recorriam à "Banqueira do Povo" como passou a ser conhecida.[7][8][9]
Método
A metodologia resultava com o aparecimento diário de novas pessoas e operava do seguinte modo:
- ontem pessoa 'X' depositou 20 contos.
- hoje pessoa 'Y' deposita 20 contos (2 contos iriam para pessoa 'X' - ficava logo com os juros mensais)
Funcionava assim sucessivamente, uma vez que o cliente de ontem recebia os juros provenientes do investimento do(s) cliente(s) do dia seguinte.
Uma vez que tanto o cliente 'X' como o cliente 'Y' não procediam ao levantamento da totalidade do depósito, facilmente se gerava um fundo sustentável, que seria aumentado significativamente dado que, ao invés do levantamento, os clientes voltariam a depositar.
O empréstimo que concedia era rigorosamente estudado e concedido a juros elevados atingindo valores até metade do empréstimo.
Ao longo de décadas, o esquema funcionara, pois semanalmente apareciam dezenas de cliente novos vindos de todo o país.
Isto obrigou-a à criação de novos escritórios espalhados tanto por Lisboa quanto por todo o país, visto que começavam a ser notórias as extensas filas à porta do seu escritório de Alvalade.
Para isso contou com a colaboração de familiares e amigos íntimos que eram aliciados e estimulados pela entrada de quantias exorbitantes de dinheiro vivo.
No entanto as pessoas que contratara estavam ligadas a negócios ilícitos e, por isso, estes angariadores tinham a esperteza e conhecimentos técnicos, conseguindo assim obter valores de milhares de contos.
Esta sua atividade não passou despercebida às autoridades judiciais e bancárias, mas estas tornaram-se facilmente subornáveis.
Declínio da atividade
Em março de 1983, o semanário "Tal & Qual" divulgou a sua atividade e os seus métodos, tendo sido também notícia na imprensa internacional.[9][10][11]
Com essa publicidade, D. Branca conseguiu, em muito pouco tempo, quadruplicar o seu capital. Centenas de pessoas dirigiam-se aos seus escritórios para obter um juro mensal de 10% que fazia concorrência ao juro oficial da banca que era de 3% por ano.
O crescente levantamento das contas à Banca oficial e o depósito na atividade da "Banqueira do Povo" alarmaram o Banco de Portugal e o Governo, prevendo-se a muito curto prazo a bancarrota da banca.
O Ministro das Finanças, Ernâni Lopes, estrategicamente, foi à televisão advertir e acautelar os portugueses.
Resultado disso foi o deslocamento de centenas de pessoas querendo reaver o seu dinheiro depositado, o que imediatamente gerou uma confusão incontrolável e um pânico estrondoso.
Os seus escritórios estavam pejados com sacos com dinheiro e a falta de controle da situação levou a que, gananciosamente, alguns dos seus colaboradores sacassem o dinheiro que conseguissem ou passassem os bens imobiliários para o seu próprio nome.
Alguns dos colaboradores da "Banqueira" estavam envolvidos no mundo do crime, tanto que a um deles, Manuel Manso (suspeito de um assalto de uma ourivesaria, tendo furtado cerca de 3 quilos de ouro), durante uma busca à sua residência, fora encontrado um cofre contendo 60 mil contos em dinheiro vivo e dezenas de cheques no valor de 90 mil contos.
Processo em Tribunal
Dona Branca, de modo a devolver a quantia que havia sido depositada pelos seus clientes, passou milhares de cheques sendo centenas deles devolvidos por falta de provisão.
Envolvida com colaboradores corruptos e criminosos, um deles o seu advogado, que "legalizava" as suas ações financeiras, foi finalmente detida a 8 de outubro de 1984 e colocada preventivamente na Cadeia das Mónicas, em Lisboa.[11]
Foi acusada pelo Ministério Público, juntamente com 68 arguidos, por associação de malfeitores (actualmente designado crime de associação criminosa), múltipla prática da emissão de cheques sem cobertura, burla agravada, falsificação e abuso de confiança, tendo sido iniciado o julgamento em 1988 no Tribunal da Boa-Hora, que teve a duração de 1 ano.[10][12]
Resultado do julgamento: pena de prisão de 10 anos para a D. Branca por crime de burla agravada e 24 dos arguidos foram absolvidos.
Morte
Pouco tempo depois, e devido ao estado débil de saúde e à idade avançada, viu ser-lhe reduzida a pena e saiu em liberdade, vivendo até a data da morte num lar, cega e na miséria. Faleceu aos 80 anos, na madrugada de 3 de abril de 1992, na freguesia da Pena, em Lisboa.[6][12]
Foi enterrada no Cemitério do Alto de São João, encontrando-se presentes apenas 5 pessoas.
Na cultura popular
- A história de Dona Branca inspirou uma novela produzida pela RTP: A Banqueira do Povo, que foi para o ar em 1993. A personagem inspirada em Dona Branca ficou a cargo de Eunice Muñoz. Na história, a personagem ganhou o nome de Dona Benta e não Dona Branca. A novela obteve resultados bastante aceitáveis na época, sendo transmitida ao final da tarde;[9][13]
- Foi parodiada no teatro de revista, por exemplo, por Ivone Silva.
Referências
- ↑ Associação criminosa leva Dona Branca à prisão
- ↑ Os milhões e mistérios da banqueira do povo
- ↑ Os escudos de Dona Branca
- ↑ «Nova 'Dona Branca' ainda paga a renda no centro comercial - Portugal». DN. Consultado em 12 de setembro de 2015
- ↑ «'Banqueira do povo' pagava a dois dígitos - Bolsa». DN. Consultado em 12 de setembro de 2015
- ↑ a b c «Registos de nascimento - Hospital de São José (1911-04-08 a 1911-12-31)». digitarq.arquivos.pt. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. p. 77. Consultado em 6 de março de 2025
- ↑ «Falsa banqueira enganou centenas de pessoas em Almada - Vida - TSF Rádio Notícias». Consultado em 12 de setembro de 2015
- ↑ 1, RTP, Rádio e Televisão de Portugal - Antena. «"Dona Branca" de Almada burlou centenas de clientes, a Antena 1 foi conhecer o escritório - País - RTP Notícias». www.rtp.pt. Consultado em 12 de setembro de 2015
- ↑ a b c «'Banqueira do povo' pagava a dois dígitos». Consultado em 12 de setembro de 2015
- ↑ a b «"A Banqueira do Povo"». Consultado em 12 de setembro de 2015
- ↑ a b Erro de citação: Etiqueta
<ref>inválida; não foi fornecido texto para as "refs" nomeadasNão_nomeado-xfq5-1 - ↑ a b «Dona Branca morreu há dez anos | Juros de dez por cento ao mês celebrizaram a "Banqueira do Povo" | PÚBLICO». webcache.googleusercontent.com. Consultado em 6 de maio de 2022
- ↑ «A Banqueira do Povo no "Perdidos e Achados"». Zapping. Consultado em 12 de setembro de 2015
