Dispositivo (filosofia)

Dispositivo é um termo usado pelo intelectual francês Michel Foucault,[1] geralmente para se referir aos vários mecanismos institucionais, físicos e administrativos e estruturas de conhecimento que potencializam e mantêm o exercício do poder dentro do corpo social. O dispositivo ocupa uma posição estratégica em sua reflexão sobre as relações entre saber, poder e subjetividade. O termo designa um conjunto heterogêneo de práticas, discursos, instituições, técnicas e normas que se articulam historicamente para responder a determinadas urgências sociais e políticas. Desde sua formulação, o conceito tornou-se amplamente utilizado nas ciências humanas e sociais como ferramenta analítica para a compreensão de fenômenos históricos, culturais e institucionais.

Tradução

O conceito "dispositif" é traduzido de várias maneiras, até mesmo no mesmo livro, como 'dispositivo', 'maquinário', 'aparato', 'construção' e 'implantação'. Sendo seu uso sempre atribuído a certas formas de fazer ou manter verdades construídas historicamente.

Definição

Foucault usa o termo em sua entrevista "A Confissão da Carne" de 1977, onde responde à pergunta: "Qual é o significado ou função metodológica para você deste termo, aparato (dispositivo)?" do seguinte modo:

"O que estou tentando explicar com este termo é, em primeiro lugar, um conjunto completamente heterogêneo que consiste em discursos, instituições, formas arquitetônicas, decisões regulatórias, leis, medidas administrativas, declarações científicas, proposições filosóficas, morais e filantrópicas - em suma, o dito tanto quanto o não dito. Esses são os elementos do aparato. O próprio aparato é o sistema de relações que pode ser estabelecido entre esses elementos."[2][3]

Essa formulação destaca três aspectos fundamentais. Em primeiro lugar, o dispositivo possui caráter heterogêneo, pois reúne componentes de naturezas muito distintas. Em segundo lugar, ele articula tanto elementos discursivos quanto não discursivos. Em terceiro, o dispositivo deve ser entendido como uma rede de relações, e não como um objeto isolado ou uma estrutura fixa.[4]

Assim, o conceito não se refere a uma entidade material específica, mas a um arranjo histórico que conecta práticas, saberes, instituições e técnicas, produzindo efeitos concretos na organização social.

Percebe-se, assim. que dispositivos tem funções específicas dentro das sociedade, sendo a principal de estruturação daquilo que é dito como desejável ou indesejável, justo ou injusto, belo e feio. Assim, o poder não está em um lugar específico, mas, entre lugares, no discurso de verdade que fazem com que certas formas de viver, ou ainda, de perceber a realidades recebam maior atenção que outras.

O linguista alemão Siegfried Jäger define o dispositivo de Foucault como

"a interação de comportamento discursivo (ou seja, fala e pensamentos baseados em um conjunto de conhecimento compartilhado), comportamento não discursivo (ou seja, atos baseados em conhecimento) e manifestações de conhecimento por meio de atos ou comportamentos [...] Os dispositivos podem, portanto, ser imaginados como uma espécie de Gesamtkunstwerk; os dispositivos complexamente entrelaçados e integrados somam-se em sua totalidade a um dispositivo de toda a sociedade." [5]

O filósofo dinamarquês Sverre Raffnsøe "avança o 'dispositivo' (le dispositif) como uma concepção chave na obra de Foucault" e "uma abordagem engenhosa para o estudo dos problemas sociais contemporâneos".[6] De acordo com Raffnsøe, “o nível disposicionalmente prescritivo é um aspecto crucial da realidade social na vida organizacional, uma vez que tem um efeito determinante sobre o que é dado como certo e considerado real. Além disso, determina não apenas o que é e pode ser considerado possível, mas também o que pode até ser imaginado e antecipado como potencialmente realizável, como algo que se pode esperar ou agir para realizar".[7]

Contexto de surgimento

O dispositivo emerge na obra de Foucault no interior de sua chamada fase genealógica, período em que o filósofo passa a investigar de forma sistemática as relações entre saber e poder. Diferentemente da fase arqueológica, voltada principalmente para a análise das formações discursivas, a genealogia busca compreender como os discursos se articulam com práticas sociais, instituições e estratégias de governo.

Nesse contexto, Foucault percebe que não é possível explicar fenômenos como a prisão, a sexualidade ou a loucura apenas por meio da análise de ideias e discursos. Era necessário levar em conta também as práticas administrativas, os mecanismos jurídicos, as técnicas de vigilância, as arquiteturas e os procedimentos institucionais. O conceito de dispositivo surge precisamente para dar conta dessa articulação entre diferentes níveis da realidade social.

O termo aparece de maneira aplicada em obras como Vigiar e Punir e História da Sexualidade, nas quais Foucault descreve como determinadas formações históricas se organizam em torno de redes complexas de saberes e poderes.

Características gerais

Os dispositivos possuem algumas características recorrentes. A primeira delas é sua historicidade. Um dispositivo não é uma estrutura universal ou permanente, mas uma formação contingente que emerge em determinado contexto histórico para responder a problemas específicos. Quando as condições que o produziram se transformam, o dispositivo também pode se modificar ou ser substituído por outros.

Outra característica importante é sua função estratégica. Para Foucault, todo dispositivo surge como resposta a uma urgência. Ele organiza práticas e discursos com o objetivo de intervir sobre determinado campo da realidade, regulando comportamentos e produzindo efeitos de governo. O dispositivo, portanto, está sempre ligado a relações de poder.

Além disso, os dispositivos apresentam grande plasticidade. Eles não são blocos homogêneos, mas redes móveis e instáveis, atravessadas por tensões e conflitos. Diferentes atores sociais disputam seus significados e suas formas de funcionamento, o que faz com que os dispositivos estejam em constante processo de transformação.

Dimensões do dispositivo

O filósofo Gilles Deleuze, em seu ensaio O que é um dispositivo?,[8] propôs uma interpretação influente da noção foucaultiana. Segundo ele, os dispositivos podem ser compreendidos como composições multilineares formadas por diferentes tipos de linhas, cada uma correspondendo a uma dimensão específica.

Linhas de visibilidade

As linhas de visibilidade dizem respeito ao que pode ser visto e reconhecido em determinado momento histórico. Cada dispositivo organiza um regime próprio de visibilidade, que ilumina certos objetos e fenômenos enquanto mantém outros na invisibilidade. A visibilidade não é apenas física, mas social e epistemológica: trata-se das condições que permitem que algo seja percebido como relevante ou existente.

Linhas de enunciação

As linhas de enunciação referem-se ao que pode ser dito. Elas delimitam os discursos legítimos, os saberes reconhecidos e as formas aceitáveis de falar sobre determinado tema. Por meio dessas linhas, o dispositivo define quem pode falar, a partir de que lugares e com quais efeitos de verdade.

Visibilidade e enunciação constituem a dimensão do saber dentro do dispositivo, organizando os objetos de conhecimento e os regimes de verdade.

Linhas de força

As linhas de força correspondem à dimensão do poder. Elas atravessam todo o dispositivo, conectando práticas e discursos e orientando estratégias de ação. Para Foucault, o poder não é apenas repressivo, mas produtivo: ele produz saberes, comportamentos, instituições e formas de subjetividade.

O dispositivo funciona, portanto, como uma tecnologia de governo das condutas, articulando diferentes mecanismos para orientar ações individuais e coletivas.

Linhas de subjetivação

A quarta dimensão diz respeito aos processos de subjetivação. Os dispositivos não produzem apenas normas e verdades, mas também sujeitos. Por meio de práticas educativas, médicas, jurídicas e administrativas, eles moldam maneiras de pensar, sentir e agir.

Essas linhas, entretanto, não são totalmente determinadas. Elas também abrem espaço para resistências e deslocamentos. Os sujeitos podem reinterpretar, tensionar e transformar os dispositivos nos quais estão inseridos.

Delineamento de Agamben

O filósofo político italiano Giorgio Agamben traça a trajetória do termo até a oikonomia de Aristóteles (a gestão eficaz da casa) e a tentativa dos primeiros Padres da Igreja de salvar o conceito da Trindade da alegação do politeísmo, como a triplicidade de Deus é sua oikonomia.[9]

Agamben define o aparato/dispositivo como:

"Expandindo ainda mais a já grande classe de aparatos foucaultianos, chamarei de aparato literalmente qualquer coisa que tenha de alguma forma a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar ou assegurar os gestos, comportamentos, opiniões ou discursos de seres vivos. Não apenas, portanto, prisões, manicômios, panópticos, escolas, confessionários, fábricas, disciplinas, medidas judiciais e assim por diante (cuja conexão com o poder é em certo sentido evidente), mas também a caneta, a escrita, a literatura, a filosofia, a agricultura, os cigarros, a navegação, os computadores, os telefones celulares e - por que não - a própria linguagem, que talvez seja o mais antigo dos aparatos - aquele em que há milhares e milhares de anos um primata inadvertidamente se deixou capturar, provavelmente sem perceber as consequências de que ele estava prestes a enfrentar."[10]

O estudioso italiano Matteo Pasquinelli critica a genealogia de Agamben com estas palavras

“O dispositivo remonta, teórica e filologicamente, à definição de normatividade social que Foucault toma de O normal e o patológico de Canguilhem (1966) e ao uso do termo dispositif pelo próprio Canguilhem no ensaio "Máquina e organismo" (1952). Ambas as linhagens procedem da noção de normatividade orgânica que Canguilhem adota do neurologista judeu alemão Kurt Goldstein, ou seja, de uma tradição de Lebensphilosophie que parece ser incompatível com a tese teológica de Agamben.” [11]

Uso metodológico

Como ferramenta analítica, o conceito de dispositivo possibilita realizar uma cartografia das relações entre saber, poder e subjetivação. Em vez de buscar explicações baseadas em causas únicas ou essências, a análise dos dispositivos privilegia a descrição das redes de práticas e discursos que tornam possíveis determinados fenômenos.

Esse enfoque exige observar documentos, instituições, técnicas, espaços, normas e formas de comportamento como partes de um mesmo conjunto. O objetivo é compreender como esses elementos se conectam e produzem efeitos sociais concretos.

Exemplos de dispositivos

Entre os exemplos mais estudados a partir da perspectiva foucaultiana destacam-se:

  • o dispositivo da sexualidade, analisado por Foucault em História da Sexualidade;
  • o dispositivo prisional, descrito em Vigiar e Punir;

Veja também

Referências

  1. Siqueira, Vinicius (22 de dezembro de 2021). «O dispositivo em Michel Foucault». Colunas Tortas. Consultado em 9 de agosto de 2022 
  2. "The Confession of the Flesh" (1977) interview. In Power/Knowledge Selected Interviews and Other Writings (ed Colin Gordon), 1980: pp. 194–228.
  3. "What is the dispositive?" Foucault Blog, April 1, 2007.
  4. FOUCAULT, MICHEL (2021). Microfísica do Poder. São Paulo: Paz & Terra. ISBN 978-6555480078 
  5. "das Zusammenspiel diskursiver Praxen (= Sprechen und Denken auf der Grundlage von Wissen), nichtdiskursiver Praxen (= Handeln auf der Grundlage von Wissen) und „Sichtbarkeiten“ bzw. „Vergegenständlichungen“ (von Wissen durch Handeln/Tätigkeit) .... Dispositive kann man sich insofern auch als eine Art „Gesamtkunstwerke“ vorstellen, die – vielfältig miteinander verzahnt und verwoben – ein gesamtgesellschaftliches Dispositiv ausmachen.", Siegfried Jäger: Theoretische und methodische Aspekte einer Kritischen Diskurs- und Dispositivanalyse
  6. What is a dispositive? Foucault's historical mappings of the networks of social reality" https://www.academia.edu/9838825/What_is_a_dispositive_Foucault_s_historical_mappings_of_the_networks_of_social_reality
  7. Foucault's dispositive: The perspicacity of dispositive analytics in organizational Research": 21 Organization: http://org.sagepub.com/content/early/2014/09/16/1350508414549885.full.pdf+html
  8. Deleuze, Gilles (2015). O mistério de Ariana. Lisboa: Nova Vega,. ISBN 978-9897500251 
  9. gio
  10. Giorgio Agamben, "What is an Apparatus?" in What is an Apparatus? And Other Essays. Stanford: Stanford University Press, 2009: p. 14.
  11. Matteo Pasquinelli, "What an Apparatus is Not: On the Archeology of the Norm in Foucault, Canguilhem, and Goldstein". Parrhesia 22, 2015, 79-89. PDF

[1]

Leitura adicional

  1. FOUCAULT, MICHEL (2021). Microfísica do Poder. São Paulo: Paz & Terra. ISBN 978-6555480078