Dilexi te

Dilexi te (Eu te amei, de Ap 3:9[1]), sobre o Amor para com os pobres, é a primeira Exortação Apostólica do Papa Leão XIV, datada de 4 de outubro de 2025, festa de São Francisco de Assis, e publicada em 9 de outubro de 2025.[2]

O texto tem 121 pontos que brotam do Evangelho de Jesus Cristo que se tornou pobre desde sua entrada no mundo e que relança o Magistério da Igreja Católica sobre os pobres nos últimos cento e cinquenta anos.[2]

É um trabalho iniciado pelo Papa Francisco sobre o tema do serviço aos pobres, em cujo rosto encontramos "o sofrimento dos inocentes". O Papa denuncia a economia que mata, a falta de equidade, a violência contra as mulheres, a desnutrição, a emergência educacional. Ele faz seu o apelo de Francisco pelos migrantes e pede aos fiéis que façam ouvir "uma voz que denuncie", porque "as estruturas da injustiça devem ser destruídas com a força do bem".[2]

O documento foi divulgado pela Sala de Imprensa da Santa Sé em conferência de imprensa em 9 de outubro de 2025, apresentado pelo cardeal Michael Czerny, S.J., Prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, cardeal Konrad Krajewski, prefeito do Dicastério para o Serviço da Caridade, Frei Frédéric-Marie Le Méhauté, Provincial dos Frades Menores da França/Bélgica, doutor em teologia e Irmã Clémence, Irmãzinha de Jesus da Fraternidade das Três Fontes e publicado em árabe, francês, inglês, espanhol, alemão, italiano, polonês e português.[3]

A declaração de amor do Apocalipse remete para o mistério insondável que foi aprofundado pelo Papa Francisco na Encíclica Dilexit nos sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus. Nela, admirámos o modo como Jesus se identifica «com os últimos da sociedade» e como, através do seu amor doado até ao fim, mostra a dignidade de cada ser humano, sobretudo quando é «mais fraco, mísero e sofredor». Contemplar o amor de Cristo «ajuda-nos a prestar mais atenção ao sofrimento e às necessidades dos outros, e torna-nos suficientemente fortes para participar na sua obra de libertação, como instrumentos de difusão do seu amor». Por esta razão, em continuidade com a Encíclica Dilexit nos, o Papa Francisco, nos últimos meses da sua vida, estava a preparar uma Exortação Apostólica sobre o cuidado da Igreja pelos pobres e com os pobres, intitulada Dilexi te, imaginando Cristo a dirigir-se a cada um deles dizendo: Tens pouca força, pouco poder, mas «Eu te amei» (Ap 3, 9). Ao receber como herança este projeto, sinto-me feliz ao assumi-lo como meu – acrescentando algumas reflexões – e ao apresentá-lo no início do meu pontificado, partilhando o desejo do meu amado Predecessor de que todos os cristãos possam perceber a forte ligação existente entre o amor de Cristo e o seu chamamento a tornarmo-nos próximos dos pobres. Na verdade, também eu considero necessário insistir neste caminho de santificação, porque no «apelo a reconhecê-Lo nos pobres e atribulados, revela-se o próprio coração de Cristo, os seus sentimentos e as suas opções mais profundas, com os quais se procura configurar todo o santo».
 
Papa Leão XIV, Dilexi te.

Contexto

Com esta Exortação, o Pontífice segue assim os passos dos seus antecessores: Papa João XXIII com o apelo aos países ricos na Mater et Magistra para que não permaneçam indiferentes perante os países oprimidos pela fome e pela miséria; Papa Paulo VI, com a Populorum Progressio e o discurso na ONU “como advogado dos povos pobres”; Papa João Paulo II, que consolidou doutrinariamente “a relação preferencial da Igreja com os pobres”; Papa Bento XVI e a Caritas in Veritate, com sua leitura “mais marcadamente política” das crises do terceiro milênio. Por fim, Francisco, que fez do cuidado “pelos pobres” e “com os pobres” um dos pilares do seu pontificado.[2]

Foi o próprio Francisco que, nos meses que antecederam sua morte, iniciou o trabalho sobre a exortação apostólica. Assim como aconteceu com a Lumen Fidei, de Bento XVI, recolhida em 2013 pelo cardeal Jorge Mario Bergoglio, S.J., também desta vez é o sucessor que completa a obra, que representa uma continuação da Dilexit nos, a última encíclica do Papa argentino sobre o Coração de Jesus. Porque é forte a “ligação” entre o amor de Deus e o amor pelos pobres: através deles, Deus “ainda tem algo a nos dizer”, afirma o Papa Leão XIV. E ele retoma o tema da “opção preferencial” pelos pobres, expressão nascida na América Latina não para indicar “um exclusivismo ou uma discriminação em relação a outros grupos”, mas “a ação de Deus” que se move por compaixão pela fraqueza da humanidade.[2]

Estrutura

É composto de 5 capítulos:[4]

Capítulo 1: Algumas palavras indispensáveis

Leão XIV recorda que nenhum gesto de afeto é insignificante, sobretudo quando se dirige a quem está sofrendo. Na base dessa afirmação está a convicção de que o amor a Cristo não se pode separar do amor aos pobres. O texto sublinha como nos pobres, desprovidos de poder e de grandeza, o próprio Senhor continua a falar e a tornar-se presente.

Capítulo 2: Deus escolhe os pobres

É aqui desenvolvida a ideia de que a proximidade de Deus aos mais débeis não é uma opção secundária, mas um traço essencial da fé cristã. A Bíblia apresenta um Deus que escuta o clamor de quem sofre e que intervém em seu auxílio. Essa atitude alcança a sua plenitude em Jesus Cristo, que assumiu a pobreza humana desde o seu nascimento no presépio até à sua morte na cruz.

Capítulo 3: Uma Igreja para os pobres

Neste capítulo fica patente que o ideal de “uma Igreja pobre e para os pobres” não é um slogan recente, mas uma convicção alicerçada no Evangelho e vivida desde as origens do Cristianismo. O capítulo percorre expressões históricas muito diversas desse mesmo impulso.

Capítulo 4: Uma História que continua

O quarto capítulo apresenta a evolução da relação da Igreja com os pobres ao longo dos últimos 150 anos, situando este tema no âmbito da Doutrina Social da Igreja.

Capítulo 5: Um permanente desafio

O último capítulo apresenta a atenção aos pobres como um traço constante da história cristã e um apelo que atravessa épocas, comunidades e crentes. Sustenta-se que o amor aos pobres não é uma tarefa assistencial entre outras, mas um critério que garante a fidelidade ao Evangelho e orienta toda a renovação eclesial.

Referências

  1. «Eis que farei que alguns da sinagoga de Satanás, que dizem ser judeus, e não o são, mas mentem, eis que farei que venham prostrar-se aos teus pés e conheçam que eu te amei.» (Apocalipse 3:9)
  2. a b c d e Salvatore Cernuzio (9 de outubro de 2025). «"Dilexi te", Leão XIV: não se pode separar a fé do amor pelos pobres». Vatican News. Consultado em 9 de outubro de 2025 
  3. «Conferenza Stampa di presentazione dell'Esortazione Apostolica "Dilexi te" del Santo Padre Leone XIV sull'amore verso i poveri, 09.10.2025» (em italiano). Sala de Imprensa da Santa Sé 
  4. Esortazione Apostolica “Dilexi te” del Santo Padre Leone XIV sull’amore verso i poveri, 09.10.2025

Ligações externas