Design feminista

O design feminista é um movimento e uma maneira de pensar e criar objetos, espaços e serviços levando em conta as experiências diversas das pessoas, especialmente mulheres e outros grupos que costumam não ser levados em consideração nas decisões tomadas nas diversas etapas de um projeto. Ele pode, portanto, ser aplicado em várias áreas, como no design gráfico, na moda, em produtos em geral, na tecnologia e até no planejamento das cidades. A proposta deste movimento é tornar o design mais justo, inclusivo e sensível às diferenças sociais e culturais.[1][2][3]

História

Questões relacionadas ao design já eram levantadas por mulheres designers de diversos setores desde o século XIX. Um exemplo disto foi a luta de pessoas como Amelia Bloomer, que defendia que roupas deveriam ser mais confortáveis e práticas para as mulheres, o que rompia com os padrões rígidos de vestuário que eram impostos pela sociedade. Já naquela época, surgiram propostas para criar cidades com base nas necessidades femininas, desafiando o modelo urbano tradicional.[3][4]

No século XX, o design feminista passou a incorporar temas como o "faça você mesmo" (DIY), a estética cotidiana, os projetos feitos em parceria com a comunidade local e as ações sustentáveis como ideias para práticas projetuais. Autoras como Cheryl Buckley argumentam como o design foi historicamente moldado por valores essencialmente masculinos, o que consequentemente exclui o trabalho e as experiências das mulheres. Em um artigo que publicou, Buckley questiona por que tantas mulheres foram apagadas da história do design, mesmo tendo participado ativamente dele.[4] Outro exemplo que ilustra o debate é um livro publicado por Joan Rothschild, no qual propõe uma nova forma de pensar o design a partir da vida cotidiana, do cuidado e da experiência das mulheres, valorizando o ambiente doméstico e outros espaços antes considerados "menores" pela sociedade.[3]

Objetivos

Tudo o que é projetado dentro de uma sociedade, desde móveis, embalagens, aplicativos até cidades, foi projetado por alguém e, muitas vezes, as decisões tomadas durante as etapas de um projeto são realizadas por um grupo limitado de pessoas, em sua grande maioria homens, o que faz com que as necessidades de outras pessoas não sejam consideradas no processo.[4][5] O design feminista propõe mudar esse cenário a partir das diferentes vivências e formas de estar no mundo, que não se limitam apenas ao gênero, como também incluem raça, classe, deficiência e orientação sexual. A escritora Chimamanda Ngozi Adichie defende que o feminismo é também uma forma de entender como o design pode ser uma ferramenta importante nessa transformação.[6]

Bandeira do movimento Nem Presa Nem Morta
Bandeira do movimento Nem Presa Nem Morta

O design através do feminismo

Algumas ideias centrais são: ouvir as pessoas que vão usar o produto ou serviço; incluir mulheres e outros grupos durante a tomada de decisões em projetos; evitar estereótipos; respeitar a diversidade de corpos e modos de vida e considerá-los na elaboração de um produto ou serviço, por exemplo; e colocar o bem-estar das pessoas como prioridade no processo de criação.[7][8]

A proposta do design feminista é que estas ideias sejam aplicadas em projetos feitos de forma participativa, na qual as pessoas envolvidas são convidadas a colaborar com o projeto desde o início. A pesquisadora Shaowen Bardzell, por exemplo, propõe que o design feminista deve ser basear-se em valores como o pluralismo, a participação e o cuidado com o impacto social e ambiental dos projetos. Em outro exemplo, Sasha Costanza-Chock, em seu livro entitulado Design Justice, apresenta métodos para tornar projetos mais inclusivos, com foco nas comunidades mais diretamente afetadas por eles. Em vez de pensar apenas em inovação, o design feminista propõe ouvir e aprender com quem de fato irá consumir o resultado final e conviver com as soluções apresentadas pelos projetos no dia-a-dia, em especial com quem convive com as dificuldades em lidar com os produtos e serviços já existentes.[8]

Exemplos e experiências

Cidades e design feminista

Na época da construção de muitas cidades, estas foram pensadas para atender ao estilo de vida masculino, uma vez que os homens circulavam mais pelos espaços públicos e as mulheres tendiam a ficar em casa. Diante disto, as designers feministas propõem reformas nas cidades para torná-las mais acolhedoras, seguras e funcionais para todos e que valorizem a participação das pessoas que vivem nesses espaços nas decisões sobre como suas cidades deveriam ser.[3][4]

O bordado brasileiro

No Brasil, práticas como o bordado, antes vistas como trabalhos domésticos sem valor, vêm sendo ressignificadas pela população através da introdução da ótica feminista no design, uma vez que já há pesquisas que mostram que essas técnicas manuais podem se tornar formas de fomentar e valorizar a autonomia das mulheres.[9] Atualmente, redes de colaboração entre designers feministas têm surgido, que buscam enfrentar a desigualdade de gênero em universidades e empresas deste setor. Essas redes fortalecem o apoio mútuo, a troca de experiências e novas formas de criar projetos acrescentando em suas bases novos valores, como o acolhimento e a promoção da justiça social.[10]

Referências

  1. ELEUTÉRIO, Rafaella; VAN AMSTEL, Frederick. Arcos Design. Rio de janeiro, v. 16, n. 1, Janeiro 2023. pp. 373-399. ISSN: 1984-5596. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/arcosdesign. Acesso em: 4 de Agosto de 2025.
  2. Buckley, Cheryl (1986). "Made in patriarchy: Toward a feminist analysis of women and design". Design Issues. 3 (2): 3–14. doi:10.2307/1511480. JSTOR 1511480. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/1511480?origin=crossref. Acesso: 4 de agosto de 2025.
  3. a b c d ROTHSCHILD, Joan (1999). Design and Feminism: Re Visioning Spaces, Places, and Everyday Things. [S.l.]: Rutgers University Press 
  4. a b c d LOCATELLI, G.; FREIRE, K. Cidades por e para mulheres: uma perspectiva de design feminista. Revista Técnico‑Científica da UNIVILLE, 2024. Disponivel em: https://periodicos.univille.br/PL/article/download/2569/1910. Acesso em: 12/08/2025
  5. HAMILTON, Grace. "DESIGN IS NOT NEUTRAL: A FEMINIST APPROACH TO DESIGN PEDAGOGY". Abril de 2023. Disponível em: https://curate.nd.edu/articles/thesis/Design_Is_Not_Neutral_A_Feminist_Approach_to_Design_Pedagogy/24869328?file=43759962. Acesso em: 12 de agosto de 2025.
  6. ADICHIE, Chimamanda Ngozi (2014). We Should All Be Feminists (PDF). [S.l.]: Anchor Books. ISBN 9781101911761 
  7. ZACAR, C. R. H. et al. Contribuições dos feminismos para a metodologia do design. In: Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design, 14., 2020, Curitiba. Anais. Curitiba: UFPR, 2020. Disponível em: https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/projetica/article/download/46910/48210. Acesso em: 12 de agosto de 2025.
  8. a b JAIN, A.; et al. (2020). Design Justice: Community Led Practices to Build the Worlds We Need. [S.l.]: MIT Press. ISBN 9780262043458 
  9. DE ÁVILA, Roberta; MAYNARDES, Ana Claudia. Bordados e a autonomia das mulheres: uma análise de design feminista. Arcos Design. v. 16, n. 1, Janeiro 2023, pp. 353-374. Rio de Janeiro. ISSN: 1984-5596. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/arcosdesign. Acesso em: 12 de agosto de 2025.
  10. ELEUTÉRIO, Rafaella Peres; VAN AMSTEL, Frederickl Marinus Constant. Questões de cuidado na formação de uma coalizão de design feminista. Arcos Design, Rio de Janeiro, v. 16, n. 1, p. 375–401, 2023. DOI: 10.12957/arcosdesign.2023.71093. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/arcosdesign/article/view/71093. Acesso em: 12 ago. 2025.