Desastre de Kaprun

O Desastre de Kaprun ocorreu em 11 de novembro de 2000, em um túnel ferroviário de Kaprun, na Áustria, quando o trem que transportava esquiadores e turistas sofreu um curto-circuito em um dos ventiladores, que lançou faíscas sobre o óleo inflamável, resultando na morte de 155 das 162 pessoas a bordo.[1]

Sobre o trem

O funicular Gletscherbahn Kaprun 2 foi inaugurado em 1974 e ligava Kaprun a Kitzsteinhorn, tendo sido modernizado em 1993. Possuía uma bitola incomum de 946 mm e um comprimento total de 3.900 metros, dos quais 3.300 metros estavam dentro de um túnel.

O trem operava em uma inclinação de 30 graus, deslocando-se a 25 km/h. Dois trens circulavam simultaneamente em uma única via, com uma seção intermediária que permitia a passagem de um pelo outro. O túnel terminava no centro principal de recepção, o Alpincenter, onde um guincho motorizado acionava os trens.

O sistema era elétrico de baixa tensão, com tanques hidráulicos de 160 litros a bordo, utilizados para acionar os freios e as portas, e contava com um condutor em cada composição. Cada trem possuía quatro compartimentos de passageiros, com capacidade total para 180 pessoas, além de uma cabine de condução em cada extremidade — o condutor trocava de posição conforme o trem subia ou descia.[1]

Tragédia

Em 11 de novembro de 2000, pouco depois das 9h da manhã, 161 passageiros e um condutor embarcaram no trem funicular com destino às pistas de esqui. O trem parou inesperadamente a cerca de 600 metros (aproximadamente 2.000 pés) dentro do túnel.

Alguns minutos depois, o condutor relatou um incêndio ao centro de controle, mas falhou ao tentar abrir as portas, que eram acionadas hidraulicamente. Em seguida, perdeu contato com o centro de controle, pois o fogo queimou um cabo de alimentação de 16 kV que passava ao lado da via, causando um apagão em toda a estação de esqui.[1]

Os passageiros tentaram quebrar as janelas de acrílico, resistentes a estilhaços. Doze pessoas, localizadas na parte traseira do trem, conseguiram arrombar uma janela com um bastão de esqui e, orientadas por um dos fugitivos, que havia sido bombeiro voluntário, escaparam descendo o túnel, passando por baixo da fumaça e através das chamas.

Muitos dos ocupantes presos perderam a consciência devido à inalação de fumaça tóxica. Eventualmente, o condutor conseguiu destravar as portas, permitindo que fossem abertas manualmente. Os passageiros que ainda estavam conscientes tentaram fugir pelo túnel, afastando-se do fogo.

No entanto, o túnel agia como um alto-forno, sugando oxigênio pela parte inferior e impulsionando fumaça venenosa, calor e chamas para cima. O condutor e todos os passageiros que tentaram subir o túnel morreram asfixiados e queimados.

O condutor e o único passageiro do segundo trem, que descia o mesmo túnel, acima do trem em chamas, também morreram por inalação de fumaça. A fumaça subiu até o Alpincenter, localizado 2.500 metros acima.

Dois trabalhadores em fuga no Alpincenter alertaram os funcionários e clientes e escaparam por uma saída de emergência. Contudo, deixaram as portas abertas, o que ampliou o efeito chaminé. Todos, exceto quatro pessoas, conseguiram escapar do centro, que rapidamente se encheu de fumaça.

Os bombeiros chegaram ao local e conseguiram reanimar uma das quatro vítimas; as outras três morreram asfixiadas.

Investigações

O inquérito oficial determinou que a causa do desastre foi a falha, o superaquecimento e a ignição de um aquecedor com ventilador instalado nos compartimentos do condutor, o qual não havia sido projetado para uso em veículos em movimento.

Uma falha de projeto levou ao superaquecimento da unidade, fazendo com que o suporte do elemento de aquecimento se quebrasse. O elemento aquecido ficou preso contra o invólucro, provocando o início do fogo. Um vazamento lento de fluido hidráulico inflamável acabou sendo incendiado, o que derreteu as tubulações de fluido e alimentou ainda mais as chamas.

A perda de pressão hidráulica acionou automaticamente os freios, que permaneciam abertos apenas sob pressão, e também desativou as portas operadas pelo mesmo sistema hidráulico.[1]

Verificou-se que falhas estruturais nos trens funiculares, especialmente a ausência de mecanismos de segurança adequados, contribuíram significativamente para a tragédia. Os extintores de incêndio de cada unidade estavam guardados em compartimentos lacrados, fora do alcance dos passageiros. Além disso, não havia detectores de fumaça nem sinal de celular dentro dos túneis, o que impediu qualquer comunicação dos passageiros com o condutor.

O especialista em funiculares, professor Josef Nejez, observou que os projetistas acreditavam ser impossível um incêndio em uma cabine de funicular, já que nunca havia ocorrido um incidente semelhante antes.

O trem, por sua vez, cumpria os códigos de segurança vigentes à época, os quais, no entanto, não contemplavam os sistemas adicionados durante a modernização de 1993. A instalação de componentes elétricos a bordo, o uso de sistemas de frenagem hidráulica e de aquecedores com ventilador de uso doméstico aumentaram consideravelmente a probabilidade de incêndio.[1]

Referências

  1. a b c d e «DER SPIEGEL - SPIEGEL ONLINE - Nachrichten». web.archive.org. 12 de dezembro de 2009. Consultado em 14 de novembro de 2024