Daus




O Daus (do alemão), ou duque[1][nota 1], é a carta de jogar com o valor mais alto nos jogos de cartas alemães. O nome pode ter derivado dos jogos de dados, nos quais a face do dado com dois pontos também é chamada Daus em alemão.[2]
Ao contrário do ás, com o qual pode ser confundido, o Daus representa o número 2, razão pela qual duas figuras de corações, sinos, etc. são mostradas na carta. Em muitas regiões é equiparado ao ás e, incorretamente, também designado como tal. No sul da Alemanha foi historicamente chamado de porca (Sau) e ainda hoje o é,[2] devido à representação de um javali nas cartas de Daus dos baralhos antigos — um costume que sobreviveu no Daus de Sinos.
Ei der Daus! (também: Was der Daus!) é uma expressão semelhante a “Que diabo!” em português ou “What the deuce!” em inglês, usada para exprimir espanto, perplexidade ou mesmo irritação. É comum, embora incorretamente, assumir-se que se trata de uma expressão proveniente do jargão dos jogadores de cartas.[3]
Em alguns jogos fora da Alemanha, o Daus pode ter uma classificação superior ao ás, como em Big Two, Tiến lên e President. Estes jogos partilham um ancestral comum, o jogo chinês Zheng Shangyou. Este sistema de hierarquia pode ter sido influenciado pela numerologia chinesa, em que o número dois é considerado auspicioso.
Comparação entre naipes alemães e franceses
| Baralhos alemães | Daus | ||||
|---|---|---|---|---|---|
| Baralhos franceses | Ás (alemão: Ass, francês: as) |
Origem e história
A palavra Daus, usada para descrever os dois pontos numa face de dado, é atestada desde o século XII.[4] Provém da palavra dûs do alto-alemão tardio, posteriormente do médio-alto-alemão, a qual foi tomada por empréstimo do francês do Norte daus. Esta corresponde ao francês moderno deux (“dois”), que por sua vez deriva do latim duos e duo. Com a introdução das cartas na área de língua alemã, no final do século XIV, o termo foi também transferido para a carta com o valor 2. Esta carta veio a tornar-se a carta de maior valor no baralho de naipes alemães, equivalente ao ás no baralho de naipes franceses. Dummett (1980) considera que isso já ocorria na década de 1470, porque o ás — originalmente a carta mais baixa de cada naipe — já tinha desaparecido dos baralhos de naipes alemães nessa altura, e que, subsequentemente, sob influência de jogos estrangeiros, surgiu a necessidade de promover outra carta em seu lugar.[5]
Na carta alemã com o 2, o Daus, aparece frequentemente a imagem de um porco (verraco) ou de uma porca. Enquanto Friedrich Kluge se mostra incerto sobre a forma como a carta passou a ser chamada Daus,[6] Marianne Rumpf é categórica: «A palavra "Daus" é um termo tomado do jogo de dados.»[7] Contudo, ao contrário dos jogos de dados, em que o 2 era um lançamento baixo e pouco valorizado, a carta Daus desempenhava um papel especial como carta de vazada, pois podia mesmo vencer o Rei. O autor do início do Novo Alto-Alemão, Johann Fischart, refere-se a isso assim: «Eu já descartei o Ás, a Porca e o Daus de Sinos, Paus, Copas, respectivamente; mas agora conservo a Porca de Bolotas que agora reina.»[8] O nome Schwein ("porco"/"porca") era também usado para o Daus, como se lê na Reimchronik über Herzog Ulrich von Württemberg ("Crónica rimada sobre o duque Ulrico de Württemberg"), a qual revela ainda que o Daus, à semelhança do ás no jogo moderno do Skat, valia 11 pontos: «O Rei devia bater todas as cartas. Excepto a Porca. Esta quer então valer 11.»[9]
Evidências precoces da representação de um javali na carta remontam ao século XV, das quais sobreviveram Daus de sinos e de bolotas onde figura um javali selvagem. Baralhos com um porco ou porca na carta, juntamente com o 2 de sinos, conservaram-se desde o ano de 1525 no Museu Nacional Suíço em Zurique e num baralho datado de 1573 do artista vienense Hans Forster. Existe também um baralho de um fabricante de Frankfurt datado de 1573 em que o porco aparece num 2 de copas.[7] A ligação entre o Daus e a porca é evidenciada por Johann Leonhard Frisch no seu dicionário alemão-latim de 1741: «Porca no jogo de cartas, a partir da figura de uma porca que é pintada no Daus de Bolotas, de onde também as outras cartas Daus são chamadas Porcas.»[10]
Como o javali acabou por surgir na carta é desconhecido. Hellmut Rosenfeld supõe que a imagem poderá derivar da porca-prémio que desempenhava um papel em festivais de tiro locais (Schützenfest), e que estava ligada à «última gavela» da colheita.[11] A designação Sau pode ter sido uma corrupção fonética da palavra Daus, e a representação do javali nas cartas ter sido simplesmente uma ilustração pictórica desse desenvolvimento etimológico.
Segundo Marianne Rumpf, o nome provém de um dialecto de Baden em que o som "S" pronuncia-se como "Sch" e se usa a palavra Dausch para uma fêmea de porco ou porca.[12]
[Com um pouco de imaginação] pode… imaginar-se que os jogadores, na excitação do jogo ao jogar a carta de triunfo… enfatizavam em voz alta o triunfo dizendo o nome da carta.[7]
Os Irmãos Grimm afirmam no seu dicionário,[13] que a palavra Tausch ("troca") era usada para as quatro cartas. Talvez a palavra Dausch tenha inspirado os artistas das cartas a ilustrar o espaço livre sob os símbolos coloridos com uma porca.[7]
A linguagem dos jogadores de cartas poderá também ter dado origem à expressão Däuser (também Deuser) para 'moedas', atestada desde o século XIX, porque num jogo jogado por dinheiro os ases valem numerário. Semelhante é o ditado Däuser bauen Häuser ("os Daus constroem casas"), usado desde 1850, porque com uma vazada contendo vários ases obtêm-se rapidamente os pontos necessários para vencer.[14]
Notas
- ↑ Segundo o Dicionário Priberam, o termo duque é usado para designar tanto as cartas de jogar como as peças de dominó e as faces dos dados que exibem dois pontos.
Referências
- ↑ «Duque (acepção 3)». Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Consultado em 7 de outubro de 2025
- ↑ a b Games played with German suited cards em www.pagat.com. Consultado em 26 de maio de 2018.
- ↑ Lutz Röhrich: Lexikon der sprichwörtlichen Redensarten, 5 volumes, Freiburg i. Br. 1991; verbete Daus no vol. 1, p. 309.
- ↑ Belege für die Verwendung in mittelhochdeutscher Sprache im Wörterbuch der Grimms
- ↑ Dummett (1980), pp. 24–25.
- ↑ Friedrich Kluge: Etymologisches Wörterbuch der deutschen Sprache, revised by Elmar Seebold, 23rd edn. Berlin, New York, 1995; Lemmata "Daus1" and "Daus2", p. 164
- ↑ a b c d Marianne Rumpf: Zur Entwicklung der Spielkartenfarben in der Schweiz, in Deutschland und in Frankreich. In: "Schweizerisches Archiv für Volkskunde" 72, 1976, pp. 1–32, doi:10.5169/seals-117151.
- ↑ Johann Fischart: Die wunderlichst vnerhörtest Legend vnd Beschreibung des … Hütleins …, 1591, in: Das Kloster, ed. by J. Scheible, Vol.10, 2: Fischarts kleinere Schriften, Stuttgart und Leipzig 1848, p.920; here quoted by Marianne Rumpf, p. 14
- ↑ Reimchronik über Herzog Ulrich von Württemberg und seiner nächsten Nachfolger, ed. by Eduard Frh. von Seckendorf, Stuttgart, 1863, p. 72; here quoted by Marianne Rumpf, p. 13
- ↑ Johann Leonhard Frisch: Teutsch-lateinisches Wörterbuch, Berlin, 1741, Vol. 2, p. 151; here quoted by Marianne Rumpf, p. 12
- ↑ Hellmut Rosenfeld: Münchner Spielkarten um 1500, Bielefeld, 1958, p. 11; paraphrased by Marianne Rumpf, p. 13
- ↑ Daus: Dausch in the Dictionary of the Brothers Grimm.
- ↑ Tausch in the Dictionary of the Brothers Grimm
- ↑ Heinz Küpper: Wörterbuch der deutschen Umgangssprache. 1st edition, 6th reprint, Stuttgart, Munich, Dusseldorf, Leipzig, 1997, keyword "Daus", p. 160