Daspu
| Daspu | |
|---|---|
| Grife de moda | |
| Fundação | 16 de dezembro de 2005 |
| Fundador(es) | Gabriela Leite ONG Davida |
| Sede | Rio de Janeiro, RJ |
| Área(s) servida(s) | Brasil |
| Proprietário(s) | ONG Davida |
| Produtos | Roupas femininas, camisetas |
Daspu é uma grife brasileira de roupas femininas criada pela ONG Davida, voltada para prostitutas e para a promoção de seus direitos. Fundada em 16 de dezembro de 2005 na Praça Tiradentes, centro histórico do Rio de Janeiro, a marca surgiu como estratégia de financiamento das atividades da Davida e como forma de atrair atenção da mídia para a luta pelo reconhecimento legal da prostituição no Brasil.[1] A grife ganhou notoriedade nacional ao estabelecer uma polêmica com a Daslu, grife de luxo paulistana, e por seus desfiles que mesclam moda, política e ativismo social.
Antecedentes históricos
A trajetória da Daspu está intimamente ligada ao movimento de prostitutas no Brasil e à vida de sua fundadora, Gabriela Leite. Nascida em São Paulo em 1951, filha de uma dona de casa conservadora e de um crupiê, Gabriela cursou Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) no final da década de 1970.[2] Aos 22 anos, enquanto ainda estudava, iniciou-se na prostituição, trabalhando na Boca do Lixo, região central de São Paulo. Sua experiência pessoal a levou a se tornar uma das principais ativistas pelos direitos das profissionais do sexo no país.
Em 1987, Gabriela Leite organizou o Primeiro Encontro Nacional de Prostitutas, que teve como slogan "Fala, mulher da vida", marcando o início do movimento organizado de prostitutas no Brasil.[3] Naquele mesmo ano, fundou a Rede Brasileira de Prostitutas, organização que buscava articular nacionalmente a luta por direitos e políticas públicas para a categoria. Um ano depois, em 1988, criou o jornal Beijo da Rua, publicação pioneira feita por e para prostitutas, que circulou até o início dos anos 2000.
Em 1992, Gabriela fundou a ONG Davida no Rio de Janeiro, com o propósito de utilizar ações culturais para atrair a atenção da mídia e do mundo político para a questão da prostituição.[4] A organização buscava o reconhecimento legal da profissão e a adoção de políticas públicas que diminuíssem a vulnerabilidade das prostitutas, especialmente em relação à AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis. Gabriela teve papel central no combate à epidemia de HIV no Brasil, tendo participado do programa nacional de prevenção PREVINA no final da década de 1980.
Criação da Daspu
Apesar do trabalho desenvolvido pela Davida, a ONG enfrentava dificuldades financeiras para manter suas atividades. Foi nesse contexto que surgiu a ideia de criar uma grife de roupas específicas para o trabalho das prostitutas, que pudesse gerar recursos para a organização. O designer Sylvio de Oliveira, um dos apoiadores da Davida, participou ativamente dessa concepção.
A marca foi oficialmente lançada em 16 de dezembro de 2005, em evento realizado na Praça Tiradentes, tradicional reduto da prostituição carioca. A estrutura inicialmente simples deu lugar a uma organização empresarial mais complexa, prevendo coleções, desfiles e venda de diversos tipos de roupas. Firmou-se também a ideia de que a Daspu, sendo uma empresa de moda, deveria envolver atitude e ditar comportamento, como qualquer outra grife.
O nome e a polêmica com a Daslu
O nome Daspu foi sugerido por Sylvio de Oliveira como uma brincadeira para ironizar a Daslu, grife de luxo paulistana que, àquela altura, enfrentava problemas na justiça diante de acusações de contrabando e fraude contra sua proprietária Eliana Tranchesi.[5] Inicialmente, a sugestão não foi levada adiante pelos organizadores.
O nome somente se consolidou depois de ser publicado em 20 de novembro de 2005 na coluna de Elio Gaspari, no jornal O Globo. Nem Gabriela Leite, nem Flávio Lenz, assessor de imprensa da ONG, tiveram participação na publicação desta primeira notícia sobre a marca. A informação teria chegado a Gaspari através de alguém que ouviu e levou a sério uma conversa a respeito nas imediações da ONG, na Praça Tiradentes.
A repercussão se ampliou na mídia a partir do processo movido pela grife Daslu contra a Daspu. As simpatias da imprensa se apresentaram francamente a favor da Daspu, gerando publicidade espontânea para a marca nascente. Diante da repercussão negativa, a Daslu acabou por retirar o processo. O episódio transformou a Daspu em fenômeno midiático antes mesmo de ter produzido suas primeiras peças.
Coleções e produtos
Entre 2005 e 2009, a Daspu apresentou sete coleções. O produto de maior sucesso e mais emblemático da grife foram as camisetas, que traziam mensagens irônicas e bem-humoradas sobre cidadania, liberdade, sexualidade e prevenção de DST e AIDS. Frases como "Não me chame de vadia, não seja por demais", "Daspu, moda sem vergonha" e "Prostituição não é crime" tornaram-se conhecidas.
Os produtos da marca passaram a ser vendidos pela internet e em lojas físicas apelidadas de putiques, localizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo. A grife também desenvolveu peças de vestuário mais elaboradas, incluindo vestidos, saias e acessórios, sempre mantendo a proposta de unir moda e ativismo político.
Desfiles e reconhecimento
Em 2006, a Daspu teve seu pedido rejeitado para participar do Fashion Rio, principal semana de moda do Rio de Janeiro. Como resposta, a ONG Davida organizou um desfile paralelo no mesmo período, que contou com a participação de modelos profissionais pela primeira vez, ao lado das prostitutas. O evento, realizado na Rua Augusta em São Paulo, obteve uma presença de público maior do que o desfile oficial da semana de moda, gerando ampla cobertura da imprensa nacional e internacional.[6]
Naquele mesmo ano, a Daspu participou da Bienal de São Paulo e teve suas criações apresentadas no salão Prêt-à-Porter em Paris, obtendo reconhecimento internacional. A grife foi tema de reportagens em publicações como a revista Vogue e em veículos de comunicação de diversos países.
Os desfiles da Daspu se caracterizavam por mesclar moda, performance e manifestação política, transformando a passarela em espaço de debate sobre direitos das prostitutas, sexualidade e preconceito.
Outras ações culturais
Em 2007, a Daspu lançou o livro As Meninas da Daspu, que reunia depoimentos de prostitutas e reflexões sobre o universo da prostituição. A publicação fazia parte da estratégia de utilizar a cultura como ferramenta de conscientização e mudança social.
A grife também teve suas criações incorporadas à trama da telenovela Paraíso Tropical, da Rede Globo, exibida em 2007, ampliando ainda mais sua visibilidade no cenário nacional. Gabriela Leite publicou em 2009 sua autobiografia intitulada Filha, mãe, avó e puta: a história de uma mulher que decidiu ser prostituta profissional, obra que narra sua trajetória de vida e desvenda o universo da prostituição.
Interrupção das atividades
Em 2009, a Daspu cessou praticamente suas atividades comerciais regulares. A grife enfrentava dificuldades financeiras e logísticas para manter a produção e distribuição de suas peças. Durante os anos seguintes, a marca manteve presença simbólica, mas sem coleções ou desfiles regulares.
Morte de Gabriela Leite e retomada
Em 10 de outubro de 2013, Gabriela Leite faleceu aos 62 anos, vítima de câncer no pulmão.[7] Sua morte representou uma grande perda para o movimento de prostitutas no Brasil. Uma das principais conquistas que presenciou foi a inclusão, em 2002, da ocupação trabalhador do sexo na Classificação Brasileira das Ocupações (CBO), permitindo que prostitutas possam se registrar no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) como autônomas.
Em março de 2014, a grife retornou com uma nova coleção que homenageava Gabriela Leite. A coleção foi assinada pela artista plástica Paula Villa Nova, a partir de estampas e looks do acervo da marca. O reinício das atividades da Daspu aconteceu em desfile realizado em seu reduto histórico, a Praça Tiradentes, com a presença de prostitutas de vários estados e da atriz Alexia Dechamps, que havia interpretado Gabriela no teatro.
Continuidade contemporânea
Após a morte de Gabriela Leite, a ONG Davida e a grife Daspu passaram a ser dirigidas por Elaine Bortolanza, que deu continuidade ao legado deixado pela fundadora. Sob nova direção, a marca manteve sua proposta de unir moda e ativismo político.
Em dezembro de 2018, a Daspu realizou desfile em João Pessoa como parte do Segundo Encontro Nacional de Prostitutas, reunindo profissionais do sexo de 14 estados. O evento, com direção de Elaine Bortolanza, apresentou a coleção Zona de Promiscuidade, que discutia corpos sem gênero e a diversidade de identidades.[8]
Em maio de 2019, durante manifestação pró-governo na Avenida Paulista, a Daspu realizou um desfile-performance nas escadarias do Museu de Arte de São Paulo (MASP).[9] O evento foi precedido por uma oficina de costuras criativas realizada no museu durante o fim de semana, parte da programação temática Histórias das mulheres, histórias feministas. A performance, que aconteceu na área interna do museu por questões de segurança, reafirmou o caráter de resistência e luta por direitos da marca.
Em 2021, a grife participou da montagem da ópera María de Buenos Aires, de Astor Piazzolla, apresentada no Theatro Municipal de São Paulo. As criações da Daspu foram incorporadas ao figurino do espetáculo, marcando a presença da marca em produções culturais de grande porte.
Ao longo dos anos 2010 e 2020, a Daspu estabeleceu parcerias com outras marcas e artistas, incluindo colaborações com as grifes Ken-gá e Chico Rei, além de criar estampas exclusivas com a cartunista Laerte. A marca também teve presença no figurino do filme A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, vencedor do prêmio Un Certain Regard no Festival de Cannes em 2019.
Em novembro de 2025, em comemoração aos 20 anos de fundação, a Daspu realizou desfile especial em Salvador, mantendo viva sua proposta de moda com engajamento social.[10] No Carnaval de 2026, a Porto da Pedra, escola de samba de São Gonçalo, homenageou Gabriela Leite e a Daspu em seu enredo, levando a história da grife para a Marquês de Sapucaí.
Legado e impacto
A Daspu consolidou-se como um caso único na história da moda brasileira, ao unir criação artística, empreendedorismo social e ativismo político. A grife demonstrou que a moda pode ser utilizada como ferramenta de transformação social e de combate ao estigma que cerca a prostituição.
Ao longo de suas duas décadas de existência, a marca contribuiu para ampliar o debate público sobre direitos das prostitutas no Brasil, questionando preconceitos e defendendo a regulamentação da profissão. Seus desfiles, produtos e ações culturais influenciaram outras iniciativas que buscam unir moda e causas sociais. O deputado federal Jean Wyllys (PSOL) apresentou em 2012 o projeto de lei sobre regulamentação da prostituição, conhecido como Lei Gabriela Leite, que tramita na Câmara Federal.
A trajetória da Daspu é inseparável da luta de Gabriela Leite e do movimento organizado de prostitutas no Brasil, representando uma experiência de resistência criativa e afirmação de dignidade. O legado de Gabriela permanece vivo através da grife e de iniciativas como o Coletivo Feminista de Luta contra a Aids Gabriela Leite, criado em 2022 por mulheres ativistas de diferentes realidades.[11]
Ver também
Referências
- ↑ «Morre Gabriela Leite, fundadora da Daspu e defensora das prostitutas». Geledés. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ «Diversidades destaca Gabriela Leite e sua luta em defesa das prostitutas». Jornal da USP. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ «Gabriela Leite, prostituta que viveu e promoveu a liberdade». Revista Em Pauta. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ «Gabriela Leite (século XX)». Mulher 500 Anos Atrás dos Panos. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ «Daspu faz desfile no centro de SP». O Tempo. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ «De la acera a la pasarela». El País (em espanhol). Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ «Morre ex-prostituta Gabriela Leite, criadora da Daspu». Repórter Diário. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ «Encontro Nacional de Prostitutas em João Pessoa termina hoje com desfile da Daspu». Parlamento PB. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ «Daspu confronta pró-bolsonaros». Revista Select. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ «Daspu celebra 20 anos e perpetua legado de Gabriela Leite». Revista Select. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ «Conheça a história do Coletivo Feminista de Luta contra a Aids Gabriela Leite». Brasil de Fato. Consultado em 17 de janeiro de 2026