Dario de Bittencourt

Dario de Bittencourt (Porto Alegre, 7 de fevereiro de 1901 - Porto Alegre, 15 de novembro de 1974), foi professor de Direito na Universidade do Rio Grande do Sul e entre os anos de 1920 e de 1930 ocupou o cargo de diretor do jornal porto-alegrense O Exemplo.

Biografia

Família Bittencourt

Nasceu em Porto Alegre, ex-bairro Glória e atualmente bairro Medianeira, no dia 07 de fevereiro de 1901. Filho de Aurélio Viríssimo de Bittencourt Júnior e de Maria da Glória Quilião de Bittencourt. Teve como avós paternos Cel. Aurélio Viríssimo de Bittencourt e Joana Joaquina de Bittencourt; e maternos - o Major Jerônimo Quilião de Figueiredo, veterano da guerra contra o Paraguai, chefe político republicano de Pedras Brancas, então distrito da capital do Estado, e  Leocadia Bastos Quilião.[1]

Pouco tempo após o nascimento de Dario, seus pais decidiram se divorciar. Sua guarda ficou com seu pai, Aurélio Júnior, em virtude do pátrio poder. Seu pai se comprometeu a pagar uma pensão mensal à Maria de Glória, mãe de seu filho, para que ela pudesse se manter financeiramente. Com a separação dos pais e sua guarda pertencendo ao pai, Dario revela nunca mais ter tido contato com a mãe. [2]

Em 30 de julho de 1910, seu pai Aurélio Viríssimo Júnior veio a falecer. Sua tutela então passou ao seu avô, Aurélio Veríssimo de Bittencourt.

Vida acadêmica

Sua alfabetização e início da vida escolar iniciou em casa com o pai e a tia-avó materna Maria José de Bastos, também chamada de “Tia Zezé”. Frequentou a escola mista de sua tia paterna, a professora Adelina Lydia de Bittencourt Machado, a que chamou de “Tia Chinoca”, entre 1909 e 1910. Com o falecimento de seu pai e sua tutela pertencendo ao seu avô foi matriculado, em 1911, no internato Ginásio de Nossa Senhora da Conceição, comandada por padres jesuítas, localizado na cidade de São Leopoldo. Nos anos que permaneceu na instituição obteve algumas premiações em reconhecimento ao seu ótimo desempenho, como a medalha de prata e consequentemente o segundo lugar nos exames finais do 2º e 3º cursos, em 1911 e 1912, respectivamente.[1]

Em 12 de dezembro de 1912, o Ginásio Nossa Senhora da Conceição foi fechado e Dario seguiu seus estudos no Ginásio Anchieta, localizado na cidade de Porto Alegre. Nesse período, juntamente com seus amigos, criaram o jornal ÉCO e Dario, com o pseudônimo de “Jux”, escreveu um dos seus primeiros contos manuscritos. O pequeno jornal que era escrito a mão e circulava de forma clandestina na escola teve uma breve vida até ter sua circulação trancada por Décio Olinto [1]. Após a conclusão do colegial frequentou o curso preparatório do Irmão Weibert, além de acesso a professores particulares. Ingressou na Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre em 1920. Bacharelou-se em 1924 e não seguindo os passos de seu pai e avô decidiu por não seguir uma carreira via o funcionalismo público. Após se diplomar em Direito inclinou-se para a Advocacia militante e alguns anos depois se tornou professor da instituição onde se formou.

Redes de sociabilidades e O Exemplo

Dario de Bittencourt envolveu-se em diversos espaços sociais que fortaleciam e envolviam a população negra porto-alegrense. Integrou o quadro social da Sociedade Beneficente Floresta Aurora, fundada em 1872. Também participou do Conselho Superior da Liga Nacional de Futebol Porto-Alegrense, fundada em 1919, para congregar times formados com jogadores negros, foi sócio da Sociedade Satélite Porto Alegrense, que hoje é conhecida como Satélite Prontidão e fez parte do Grêmio Náutico Marcílio Dias, único clube de remo voltado para os negros que se tem notícia na capital.

Tornou-se o principal responsável pela última fase do jornal O Exemplo, se tornando o diretor por toda a década de 1920, assumindo também o compromisso de ser um salvaguarda das coleções do jornal que foram sendo produzidas ao longo dos anos anteriores.

Também figurou como revisor, repórter e redator de A Federação e foi secretário de redação da Revista do Sul e da revista A Verdade. Depois de formado, seguiu por mais dois anos na folha republicana e tornou-se secretário de redação da Gazeta do Foro, fundado pelo seu pai.

Após seu falecimento, a coleção do jornal O Exemplo passou ao seu amigo e também colaborador do jornal Antônio Lourenço, indicado ainda em vida por Dario de Bittencourt. Com o falecimento de Lourenço por algum tempo as informações sobre o paradeiro desta coleção ficaram desconhecidas. A coleção foi localizada pelo poeta Oliveira Silveira e a partir de então passou a ficar sob sua tutela [3]

[4] Para Oliveira Silveira (1941-2009), entre os que se destacavam no grupo de trabalho da fase do primeiro periódico negro sul-rio-grandense “os Bittencourt ". Dario de Bittencourt foi o último diretor de O Exemplo. Segundo informações, essa família e a de Calisto, foram determinantes na sustentação de um dos mais longevos periódicos da imprensa negra brasileira (1892-1930).

A título de ilustração, o patriarca da família não era natural de Porto Alegre, chegou até ela com cerca de dez anos de idade. Aurélio Viríssimo de Bittencourt (1849-1919) migrou de Jaguarão (fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai) para a capital na companhia do pai (trabalhava da marinha) para dar continuidade aos estudos. Antes disso, Aurélio manteve contato com a mãe, Maria Júlia da Silva (descrita como parda e liberta), por meio de cartas. [4]

O nome do pai de Aurélio Viríssimo de Bittencourt (importante jornalista e líder abolicionista) era Hipólito Simas de Bittencourt (ou Hypólito Simas de Bittencourt, na grafia da época). Aqui estão alguns detalhes adicionais que confirmam a identidade dele conforme sua descrição:[5]

  • Contexto Familiar: Aurélio nasceu em 1º de outubro de 1849, em Jaguarão (RS), fruto de uma relação entre Hipólito e Maria Júlia da Silva, uma mulher parda que foi escravizada e posteriormente liberta. Trajetória: Embora Aurélio tenha sido batizado inicialmente como "exposto" (filhos de pais não declarados), registros históricos e biográficos (como os de Paulo Roberto Staudt Moreira) confirmam a paternidade de Hipólito, que inclusive deixou bens para a mãe de Aurélio em Jaguarão antes de o filho se mudar para Porto Alegre para viver com uma tia paterna. "Hipólito Simas de Bittencourt (ou Hypólito Simas de Bittencourt) foi um oficial da Armada Imperial (Marinha), tendo alcançado a patente de Capitão-Tenente. De origem luso-açoriana, ele estabeleceu-se em Jaguarão, no Rio Grande do Sul, onde manteve relações sociais e familiares que deram origem a figuras proeminentes da história brasileira, como seu filho, o jornalista abolicionista Aurélio Viríssimo de Bittencourt." MOREIRA, Paulo Roberto Staudt. Os pretos e pardos de "boas famílias": ascensão social e resistência no Rio Grande do Sul (século XIX). Porto Alegre: Letra & Vida, 2011.

Em relação ao periódico, Aurélio, Secretário de Estado da Presidência do Estado, foi o principal apoiador material e intelectual, em parceria com Calisto, barbeiro, abriu as portas de seu salão localizado na rua dos Andradas, principal rua do centro da capital, para as reuniões que deram origem ao projeto e abrigou o escritório ao longo da primeira fase (1892-1897). Espiridião Calisto foi considerado por Fernando Henrique Cardoso como o ‘maior lutador negro dos fins do século passado e início deste em Porto Alegre’. O próprio jornalista avaliza, ao longe de sua história”[6]

GARCIA, Fábio. Ildefonso Juvenal da Silva: um memorialista negro no Sul do Brasil. Florianópolis: Editora da UFSC, 2019. Coleção Memória e Patrimônio.[7]

Dario aparece na obra de Fábio Garcia como parte da constelação de intelectuais negros do Sul que formavam um circuito de produção cultural, jornalística e política entre Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba e outras cidades.[5]

Garcia (2019) situa Dario como:

  • diretor do jornal O Exemplo
  • advogado, professor e escritor
  • figura central da intelectualidade negra porto-alegrense
  • articulador de debates sobre cidadania, moral, educação e identidade racial

Nesse ponto, Dario aparece como paralelo e interlocutor histórico de Ildefonso Juvenal, ainda que não tenham atuado juntos diretamente. Ambos pertencem ao mesmo universo de:[5]

  • homens negros letrados
  • que usaram a escrita como instrumento político
  • e que construíram arquivos pessoais para legitimar suas trajetórias.

Garcia destaca que muitos intelectuais negros do período:[5]

  • preservavam documentos
  • escreviam versões de si mesmos
  • construíam genealogias
  • organizavam arquivos familiares

O “inventário de si” de Dario é citado como caso exemplar desse fenômeno.[5]

Ele é mencionado como alguém que:

  • guardou cartas, recortes, certificados
  • escreveu sobre sua própria vida
  • reconstruiu a trajetória do pai e do avô
  • buscou afirmar respeitabilidade e pertencimento ao mundo letrado.

A obra de Garcia foi construída com apoio de famílias, arquivos privados e descendentes de intelectuais negros. Nesse contexto, Dênia de Bittencourt aparece como:[5]

  • guardiã de memória
  • referência familiar
  • fonte para reconstrução da trajetória dos Bittencourt

A presença de Dênia reforça a ideia de que a memória negra no Sul é preservada intergeracionalmente, e que arquivos familiares são fundamentais para reconstruir histórias apagadas.[5]

Referências

  1. a b c BITTENCOURT, Dario de. Curriculum Vitae: documentário (1901-1957). Porto Alegre: Ética Impressora, 1958
  2. PERUSSATTO, Melina. Arautos da liberdade: educação, trabalho e cidadania no pós-abolição a partir do jornal O Exemplo de Porto Alegre (c. 1892 - c. 1911). Tese de Doutorado. UFRGS. Porto Alegre: 2018.p.148
  3. ZUBARAN, Maria Angélica. O Acervo do Jornal O Exemplo (1892-1930): patrimônio cultural afro-brasileiro. Revista Memória em Rede, v. 7, n. 12, p. 03-18, 2015.
  4. a b «Oliveira Silveira». Wikipédia, a enciclopédia livre. 23 de dezembro de 2024. Consultado em 7 de fevereiro de 2026 
  5. a b c d e f g GARCIA, FABIO (2023). Ildefonso Juvenal da Silva: um memorialista negro no Sul do Brasil. Florianópolis: Editora Cruz e Souza. p. 15. 35 páginas. ISBN 9786585042093 
  6. Wikipédia, Ensiclopedia (2025). «O Exemplo». Wikipedia. Consultado em 7 de fevereiro de 2026 
  7. GARCIA, Fábio (2023). Ildefonso Juvenal da Silva: um memorialista negro no Sul do Brasil. Florianópolis: Editora Cruz e Souza. p. 15. 35 páginas. ISBN 9786585042093