Culto ao urso

Culto ao urso é uma prática religiosa de veneração a ursos. Este tipo de culto animista é encontrado em muitas religiões étnicas do norte da Eurásia, por exemplo dos povos Sámi,[1] Ainu, Nivkh, Bascos, Germânicos, Eslavos, Finlandeses e Países Bálticos. Existe igualmente uma série de divindades da Gália Celta e da Grã-Bretanha associadas ao urso. Diversos povos dos Bálcãs Orientais tais como os Dácios, Trácios e Getas, veneravam os ursos e celebravam inclusive o festival anual da dança do urso. O urso é representado em muitos totens nas culturas da América do Norte, em esculturas principalmente.[2]
Culto Paleolítico
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A existência dum antigo culto ao urso entre os Neandertais na Eurásia Ocidental no Paleolítico Médio tem sido objecto de conjeturas devido a descobertas arqueológicas controversas.[2] Alguns indícios observados em ossos de urso descobertos em vários sítios arqueológicos na Eurásia ocidental, sugerem que os Neandertais podem ter reverenciado o urso das cavernas (Ursus spelaeus). Não foi apenas a presença destes esqueletos, mas sim o seu peculiar posicionamento que intrigou os arqueólogos.[2] Durantes as escavações, arqueólogos no local determinaram que os ossos estavam dispostos de tal forma que só poderia ter resultado da intervenção de hominídeos, e não de processos naturais de deposição dos restos mortais dos animais.[2]
Emil Bächler, um dos defensores da hipótese do culto ao urso, encontrou restos mortais de ursos na Suíça e na Gruta de Morn (Mornova zijalka) na Eslovénia. Juntamente com a descoberta de Bächler, foram encontrados crânios de urso por André Leroi-Gourhan dispostos num círculo perfeito em Saône-et-Loire.[2] A descoberta de padrões como os encontrados por Leroi-Gourhan[3] sugere que estes esqueletos de urso foram intencionalmente dispostos desta forma, um ato que só pode ser atribuído aos neandertais devido à datação do sítio arqueológico, e deste modo interpretado como um ritual fúnebre.[2]
Embora estas descobertas tenham sido consideradas indicativas dum antigo culto do urso, outras interpretações dos restos mortais levaram à conclusão que a presença de ossos de urso nestes contextos é um fenómeno natural. Ina Wunn, com base nas informações que os arqueólogos têm sobre os hominídeos primitivos, afirma que se os neandertais venerassem ursos, haveria evidência disso nas suas povoações e acampamentos.[2]
No entanto, a maioria dos esqueletos de ursos foi encontrada em grutas ou cavernas naturais.[2] Muitos arqueólogos teorizam que, tal como a maioria das espécies de ursos hiberna nas grutas durante o Inverno, a presença de restos mortais de ursos não é invulgar neste contexto.[2]
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Os ursos que viveram no interior destas grutas pereceram de causas naturais, como doenças ou fome.[2] Wunn argumenta ainda, que a posição destes restos mortais se deve à deposição natural dos elementos como vento, aragem, mudanças de temperatura, formação de sedimentos, ou presença de fluxos de água.[2] Portanto, a variedade de restos mortais de urso em grutas não resultou de atividades humanas.[2] Certos arqueólogos no entanto, tal como Emil Bächler, são da opinião que a evidência da existência dum culto ursino milenar reside precisamente nos espécimes encontrados em grutas.[4]
Ancestral ursino
Em um artigo na Enzyklopädie des Märchens (Enciclopédia de Contos de Fadas), o folclorista norte-americano Donald J. Ward, observou que uma história sobre um urso a acasalar com uma mulher humana e a produzir um herdeiro masculino funciona como um mito ancestral para os povos do hemisfério norte, isto é, da América do Norte, Japão, China, Sibéria e da Europa.[5]
Mitologia Grega
O urso acompanha a divindade lunar Ártemis e nas suas aparições esta é a forma que a deusa assume. As raparigas dançavam como "ursas" em sua honra e não podiam casar antes de passarem por esta cerimónia. Ela tem um duplo significado; pode ser tanto o sacrificador como o sacrificado.[6][7]
Mitologia Ibérica

No mundo dos diversos povos Ibéricos, os animais sagrados faziam parte da sua religião, quer como deuses, símbolos, ligações com o mundo mortal e os seus espíritos, quer com o mundo divino. Entre eles, o urso é representado, como se comprova pela epigrafia onde Arconi ou Arco aparece como teónimo correspondente à deusa Celta Artio (Dea Artio galo-romana) cujo culto se estende à Germânia Superior e ao território dos Helvécios.[8] Em Portugal e na Galiza, existem vários locais com nomes relacionados ao urso, nomeadamente Ossa, Murça, Serra d'Ossa. Lendas muito antigas relacionadas com a reverência aos ursos, mitos de lobisomens fêmeas, meias-ursas, ursos e abelhas em antigos rituais xamânicos. Monumentos pré-Romanos que evocam agora uma realidade muito distante, uma vez que os ursos na Península Ibérica estão seriamente ameaçados, restando apenas populações muito pequenas em regiões montanhosas remotas.[9][10]
Ainu
O povo Ainu, que vive em ilhas no extremo norte do arquipélago japonês, fala o seu idioma nativo, a língua Ainu. Para os Ainu, o termo kamuy significa urso e/ou Deus. Muitos outros animais são considerados divinos na cultura Ainu, mas o urso é o deus supremo.[11] Para os Ainu, quando os deuses visitam o mundo humano, vestem pêlo e garras e assumem a aparência física dum animal. Normalmente, porém, quando o termo “kamuy” é utilizado, significa essencialmente um urso.[11] O povo Ainu alimentava-se do urso, como uma dádiva divina na forma de Ursídeos, pois acreditava que o disfarce (a carne e o pelo) de qualquer Deus era um presente para o lar que o deus-animal escolhesse visitar.[12][13]
Os Ainu acreditavam que os deuses na Terra, o mundo dos homens, apareciam sob a forma de animais. Os deuses tinham a capacidade de assumir a forma humana, mas apenas no seu lar, a terra dos deuses, que fica fora do mundo dos homens.[11] Para devolver um deus à sua terra, o povo sacrificava e comia o animal, enviando o espírito do deus para longe com civilidade. O ritual era chamado Omante e geralmente envolvia um veado ou um urso adulto. [12]
Omante ocorria quando o povo sacrificava um urso adulto, mas quando capturavam uma cria de urso, realizavam um ritual diferente, chamado Iomante, na língua Ainu, ou Kumamatsuri em japonês. Kumamatsuri significa "festival do urso" e Iomante significa "despedida".[14] O evento de Kumamatsuri começou com a captura de uma cria de urso. Como se fosse uma criança dada pelos deuses, a cria era alimentada com comida humana num tabuleiro de madeira esculpida e era melhor tratada do que as crianças Ainu, pois estas consideravam-no um deus.[15] Se a cria fosse demasiado nova e não tivesse dentes para mastigar adequadamente, uma mãe que amamentava deixava-o mamar no seu próprio peito.[15] Quando a cria atingia os 2–3 anos de idade, era levada para o altar e depois sacrificada. Geralmente, o Kumamatsuri tinha lugar em pleno Inverno, quando a carne do urso estava no seu melhor devido à gordura adicionada.[15] Os aldeões disparavam flechas comuns e cerimoniais, faziam oferendas, dançavam e derramavam vinho sobre o cadáver da cria.[15] As palavras de despedida ao deus-urso eram então recitadas. O festival durava três dias e três noites, para que o deus urso regressasse devidamente ao seu lar.
Referências
- ↑ "Kál'lá" Bledsoe, B. «The Significance of the Bear Ritual Among the Sámi and Other Northern Cultures». The University of Texas at Austin (em inglês). Consultado em 31 de julho de 2025
- ↑ a b c d e f g h i j k l Wunn, I. (2000). «Beginning of Religion. Numen, 47, 417-453.» (em inglês). Consultado em 30 de julho de 2025
- ↑ Tünaydin, P. (2013). «Pawing through the History of Bear Dancing in Europe» (em inglês). Frühneuzeit-Info:Research Institute for Early Modern Studies (IEFN) Vienna. Consultado em 31 de julho de 2025
- ↑ Romandini, M.; Terlato, G.; Nannini, N.; Tagliacozzo, A.; Benazzi, S.; Peresano, M. (fevereiro de 2018). «Bears and humans, a Neanderthal tale. Reconstructing uncommon behaviors from zooarchaeological evidence in southern Europe». Journal of Archaeological Science (90), Elsevier (em inglês). Consultado em 31 de julho de 2025
- ↑ Brednich Rolf W; Bausinger Hermann; Brückner Wolfgang; Röhrich, Lutz; Roth, Klaus; Schenda, Rudolf (1977). «Bärensohn-Enzyklopädie des Märchens.Handwörterbuch zur historischen und vergleichenden Erzählforschung.». DeGruyter (em alemão). ISBN 978-3-11-006781-1
- ↑ Predefinição:Cite Encyclopedia Britannica
- ↑ Chevalier & Gheerbrant 1986, p. 789-791.
- ↑ Chevalier & Gheerbrant 1986, p. 791.
- ↑ «Brufe and the Bear». substack. Consultado em 4 de agosto 2025
- ↑ «Topónimos terminados em 'ufe' e 'ulfe'». Toponímia Lusitana. Consultado em 4 de agosto de 2025
- ↑ a b c Kindaichi & Yoshida 1949, p. 345.
- ↑ a b Kindaichi & Yoshida 1949, p. 348.
- ↑ Trekhsviatskyi, Anatolii (2007). «No Limite Extremo do Oikoumene Chinês: Relações Mútuas da População Indígena de Sacalina com as Dinastias Yuan e Ming». Journal of Asian History. 41 2 ed. pp. 131–155. JSTOR 41933457
- ↑ Kindaichi & Yoshida 1949, pp. 348-349.
- ↑ a b c d Kindaichi & Yoshida 1949, p. 349.
Bibliografia
- Chevalier, Jean; Gheerbrant, Alain (1986). Dicionário de Símbolos (em inglês). Barcelona: Herder. pp. 789–791. ISBN 84-254-1514-4
- Kindaichi, Kyōsuke; Yoshida, Minori (inverno de 1949). «The Concepts behind the Ainu Bear Festival (Kumamatsuri)». University of New Mexico. Southwestern Journal of Anthropology. 5 (4): 345–350. JSTOR 3628594. doi:10.1086/soutjanth.5.4.3628594