Culpa coletiva alemã

"Essas atrocidades: culpa sua!" – um cartaz mostrando os campos de concentração à população alemã. O texto acusa os alemães como um todo de não terem feito nada enquanto as atrocidades eram cometidas.[1]

A culpa coletiva alemã (em alemão: Kollektivschuld) refere-se à noção controversa de uma responsabilidade coletiva e compartilhada atribuída ao povo alemão como um todo pela perpetração do Holocausto e outras atrocidades cometidas pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial.[2][3]

Defensores

O psicanalista suíço Carl Jung escreveu um influente ensaio em 1945 sobre esse conceito como um fenômeno psicológico, no qual afirmou que o povo alemão sentia uma culpa coletiva (Kollektivschuld) pelas atrocidades cometidas por seus compatriotas, introduzindo assim o termo no discurso intelectual alemão. Jung afirmou que a culpa coletiva era "um fato para os psicólogos, e uma das tarefas mais importantes da terapia será levar os alemães a reconhecer essa culpa".[4]

Após a guerra, as forças de ocupação aliadas na Alemanha, promoveram a vergonha e a culpa com uma campanha publicitária, que incluía cartazes retratando campos de concentração nazistas com slogans como "Essas atrocidades: a culpa é sua!" (Diese Schandtaten: Eure Schuld!).[5]

O teólogo Martin Niemöller e outros membros do clero reconheceram a culpa compartilhada na "Declaração de Culpa de Stuttgart" (Stuttgarter Schuldbekenntnis) de 1945. O filósofo e psicólogo Karl Jaspers ministrou palestras para estudantes em 1946, que foram publicadas sob o título "A Questão da Culpa Alemã".[6] Nesta obra, Jaspers descreve como "o reconhecimento da culpa nacional foi uma condição necessária para o renascimento moral e político da Alemanha".[7] Além disso, Jaspers acreditava que ninguém poderia escapar dessa culpa coletiva e que assumir a responsabilidade por ela poderia permitir que o povo alemão transformasse sua sociedade, levando-a de um estado de colapso para uma democracia mais desenvolvida e moralmente responsável. Ele acreditava que aqueles que cometiam crimes de guerra eram moralmente culpados, e aqueles que os toleravam sem resistência eram politicamente culpados, o que levava à culpa coletiva de todos.

A culpa coletiva alemã pelos eventos do Holocausto é uma ideia há muito debatida por políticos e pensadores alemães renomados. Além dos já mencionados, o escritor e filósofo alemão Bernhard Schlink descreve como, por vezes, sente que ser alemão é um fardo enorme, devido ao passado do país. Segundo Schlink, "a razão pela qual a crise europeia é tão angustiante para a Alemanha é que o país conseguiu se distanciar de si mesmo ao se lançar de cabeça no projeto europeu". Schlink também acredita que "o peso da nacionalidade moldou muito a forma como os alemães se veem e veem suas responsabilidades na Europa", e descreve como os alemães se enxergam como atlantistas ou europeus, em vez de simplesmente como alemães. Schlink observa que essa culpa existente se torna mais fraca de geração para geração.[8] Thomas Mann também defendeu a culpa coletiva:

Aqueles cujo mundo se tornou cinzento há muito tempo, quando perceberam as montanhas de ódio que se erguiam sobre a Alemanha; aqueles que, há muito tempo, em noites insones, imaginaram quão terrível seria a vingança contra a Alemanha pelos atos desumanos dos nazistas, não podem deixar de ver com tristeza tudo o que está sendo feito aos alemães pelos russos, poloneses ou tchecos como nada mais do que uma reação mecânica e inevitável aos crimes que o povo cometeu como nação, na qual, infelizmente, a justiça individual, ou a culpa ou inocência do indivíduo, não podem desempenhar nenhum papel.[9]

Opositores

Björn Höcke, líder da filial da Turíngia do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha, chamou o memorial do Holocausto em Berlim de "monumento da vergonha",[10] e pediu uma "mudança radical na política de memória".[11] Os comentários de Höcke foram unanimemente condenados pela mídia e por políticos de todo o espectro político. A Fundação Memorial de Buchenwald acusou Höcke de difamar a memória pública dos judeus assassinados na Europa;[12] Charlotte Knobloch o acusou de "agitação völkisch intolerável", afirmando que o AfD está envenenando a cultura política da Alemanha com "teorias e discursos extremistas de direita, racistas e antissemitas".[13][14][15] Em resposta aos seus comentários, o "Centro para a Beleza Política" (Zentrum für Politische Schönheit), um grupo ativista, ergueu uma réplica do memorial do Holocausto de Berlim em frente à casa de Höcke.[16]

Em janeiro de 2025, num evento de campanha organizado pelo partido político Alternativa para a Alemanha (AfD), Elon Musk afirmou que "Há um foco excessivo na culpa do passado e precisamos superar isso".[17][18][19] Os comentários de Musk foram amplamente condenados.[19][20]

Referências

  1. Beattie, Andrew H. (2019). Allied Internment Camps in Occupied Germany: Extrajudicial Detention in the Name of Denazification, 1945–1950 (em inglês). [S.l.]: Cambridge University Press. p. 13. ISBN 978-1-108-48763-4 
  2. Rensmann, Lars (6 de setembro de 2004). «10 - Collective Guilt, National Identity, and Political Processes in Contemporary Germany». In: Nyla R. Branscombe; Bertjan Doosje. Collective Guilt: International Perspectives. Col: Studies in emotion and social interaction. (em inglês). [S.l.]: Cambridge University Press. pp. 169–190. ISBN 978-0-521-52083-6. OCLC 783204942. doi:10.1017/CBO9781139106931.012. O Holocausto contra os judeus da Europa é reconhecido internacionalmente como um genocídio moderno que mudou o mundo. Tornou-se um paradigma moral universal nas sociedades democráticas e continua a ter um impacto significativo na política mundial e no direito internacional. Sua lembrança fornece um pano de fundo ético para a tomada de decisões democráticas e sua institucionalização nos dias de hoje. Na Alemanha, a memória e o legado desse passado têm implicações especiais. O fardo da culpa, tão lamentado, tem sido influente na sociedade alemã pós-Holocausto; a culpa nacional da Alemanha afetou profundamente tanto a memória coletiva quanto a identidade nacional desde o fim da guerra. (...) A Alemanha, portanto, oferece um campo central para analisar o impacto da culpa coletiva. 
  3. Muskat, Jörg (20 de agosto de 2015). Kollektivschuld am Holocaust. Warum das deutsche Volk eine moralische Gesamthaftung an den NS-Verbrechen trifft [Culpa coletiva no Holocausto: Por que o povo alemão tem uma responsabilidade moral coletiva pelos crimes nazistas] (em alemão). [S.l.]: GRIN Verlag. 1 páginas. ISBN 978-3-668-03308-5. OCLC 929998010. Existe um sentimento coletivo de culpa na Alemanha pelo Holocausto. 
  4. Jeffrey K. Olick; Andrew J. Perrin (2010), Guilt and Defense, ISBN 978-0-674-03603-1 (em inglês), Harvard University Press, pp. 24–25 
  5. Jeffrey K. Olick (setembro de 2003), «The Guilt of Nations?», Ethics & International Affairs (em inglês), 17 (2): 109–117, doi:10.1111/j.1747-7093.2003.tb00443.x 
  6. Tracy Isaacs, Richard Vernon (2011), Accountability for Collective Wrongdoing, ISBN 978-0-521-17611-8 (em inglês), Cambridge University Press, pp. 196–199 
  7. «The Question of German Guilt | book by Jaspers». Encyclopedia Britannica (em inglês). Consultado em 5 de maio de 2020 
  8. Connolly, Kate (16 de setembro de 2012). «Bernhard Schlink: being German is a huge burden». The Guardian (em inglês). ISSN 0261-3077. Consultado em 5 de maio de 2020 
  9. Suppan, Arnold (2019). Hitler–Beneš–Tito: National Conflicts, World Wars, Genocides, Expulsions, and Divided Remembrance in East-Central and Southeastern Europe, 1848–2018 (em inglês). Viena: Austrian Academy of Sciences Press. pp. 739–740. ISBN 978-3-7001-8410-2. JSTOR j.ctvvh867x. doi:10.2307/j.ctvvh867x 
  10. Taub, Amanda; Fisher, Max (18 de janeiro de 2017). «Germany's Extreme Right Challenges Guilt Over Nazi Past». The New York Times (em inglês). Consultado em 11 de dezembro de 2024 
  11. Troianovski, Anton (2 de março de 2017). «The German Right Believes It's Time to Discard the Country's Historical Guilt». The Wall Street Journal (em inglês). Consultado em 11 de dezembro de 2024 
  12. «Höcke bei Gedenktag in Buchenwald unerwünscht». Münchner Merkur (em alemão). 26 de janeiro de 2017 
  13. «Charlotte Knobloch wirft AfD-Politiker 'völkische Hetze' vor». Heilbronner Stimme (em alemão). 18 de janeiro de 2017 
  14. «Höcke soll auf die Knie gehen. Ist das Kunst?». Welt Online (em alemão). 22 de novembro de 2017 
  15. «Gedenktag für die Opfer des Holocaust: Höcke in Buchenwald unerwünscht». Die Tageszeitung (em alemão). 26 de janeiro de 2017 
  16. Frank, Arno (22 de novembro de 2017). «Aktion des Zentrums für politische Schönheit: Ein Holocaust-Mahnmal – bei Björn Höcke vor der Haustür». Spiegel Online (em alemão). Consultado em 2 de dezembro de 2017 
  17. Contreras, Russell (26 de janeiro de 2025). «Musk tells far-right Germany AfD party "there's too much focus on past guilt"». Axios (em inglês). Consultado em 10 de fevereiro de 2025. Cópia arquivada em 7 de fevereiro de 2025 
  18. Osborne, Samuel (26 de janeiro de 2025). «Musk urges German far-right supporters to move beyond 'past guilt' in surprise AfD campaign appearance» (em inglês). Sky News. Consultado em 10 de fevereiro de 2025 
  19. a b Tanno, Sophie (27 de janeiro de 2025). «Musk's comments that Germany should 'move beyond' Nazi guilt are dangerous, says Holocaust memorial chair» (em inglês). CNN. Consultado em 10 de fevereiro de 2025. Cópia arquivada em 9 de fevereiro de 2025 
  20. «Elon Musk faces criticism for encouraging Germans to move beyond 'past guilt'». NPR (em inglês). 27 de janeiro de 2025. Consultado em 24 de setembro de 2025 

Ver também