Cuazulo

Bandeira de Cuazulo (1985-1994).
Mapa do bantustão de Cuazulo (fragmentos em vermelho)

Cuazulo ou Cuazulu[1] (KwaZulu) foi um bantustão criado pelo governo sul-africano antes das eleições democráticas de 1994 (durante o regime do apartheid) para ali agrupar os sul-africanos falantes da língua zulu, na antiga província do Natal, actual província de Cuazulo-Natal.

Histórico

Este bantustão tem as suas raizes na Zululândia, uma "reserva" para povos zulus estabelecida pelos britânicos na colónia do Natal no século XIX. Cabe destacar que tal "reserva" estava, na verdade, sob área tradicional dos povos zulus, que haviam sido subjugados pela colonização britânica, e espoliados de suas terras. Mais tarde, o governo do Partido Nacional organizou territórios separados para os brancos, negros e mestiços ou de outra "raça". No final de 1962, o governo sul-africano anunciou publicamente que, sob a direção do Ministério da Administração e Desenvolvimento Bantu, haviam sido estabelecidas "autoridades regionais" em Natal e Zululândia para áreas com alta densidade populacional de povos bantos. Para a área que mais tarde se tornaria o bantustão de Cuazulo, havia dez dessas autoridades regionais.

O bantustão foi criado como uma aglutinação dessas autoridades regionais em 9 de junho de 1970 sob o nome de Zululândia, com Nongoma como sua capital.[2] Em 1 de abril de 1972, o bantustão adota o nome Cuazulo e adquire autonomia.[2] Em 1 de fevereiro de 1977 a capital foi então transferida para Ulundi.[2]

Cuazulo teve como chefe de governo de 1972 até sua abolição em 1994 o chefe tribal e líder do Partido da Liberdade Inkatha Mangosuthu Buthelezi, que implementou os poderes limitados de autogoverno decididos pelo governo sul-africano como parte do apartheid,[3] mas rejeitou a independência nominal que outros quatro bantustões aceitaram, reclamando da natureza fragmentada do território e a falta de interesse do governo do apartheid de consolidar um território viável e contíguo para Cuazulo, diante da forte resistência dos brancos.[4] O último líder branco da era do apartheid, Frederik Willem de Klerk, comentou mais tarde em uma entrevista que acreditava que Buthelezi teria aceitado a independência se seu bantustão tivesse recebido o porto de Richards Bay, uma proposta que fracassou devido à resistência da população branca à ideia.[4] No aspecto político, além do governo sob Buthelezi, em tese o chefe de Estado do bantustão em toda sua existência foi Goodwill Zwelithini kaBhekuzulu.[3]

O território deste bantustão era relativamente grande (ocupando cerca de metade da então província de Natal), mas formado por um grande número de entidades separadas, incluindo uma na costa, encostada à fronteira com Moçambique.[4]

Em março de 1996, dois anos após a transição da África do Sul para o governo majoritário e multiétnico, e portanto da dissolução do bantustão de Cuazulo, foi realizado o "julgamento do Estado contra Peter Msane e Outros", devido à acusação contra treze generais brancos aposentados, incluindo Magnus Malan (que serviu como ministro da Defesa no auge do estado de emergência em meados da década de 1980) e sete zulus, partidários do Partido Inkatha de Buthelezi, de cumplicidade em um massacre de treze pessoas, dez anos antes, em uma aldeia rural no bantustão de Cuazulo, conhecida como KwaMakhutha. O julgamento foi uma tentativa do novo governo de Nelson Mandela de levar à justiça aqueles que estavam no topo das forças de segurança do apartheid. Eles foram acusados de incitar propositalmente a violência entre os negros, armando e treinando uma facção como força paramilitar, na tentativa de dividir para governar.[5]

Referências

  1. de Campos, Armando (1996). Africa do Sul, potência regional. Lisboa: Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. p. 73 
  2. a b c Nancy L. Clark; William H. Worger (2016). South Africa : the rise and fall of apartheid Terceira ed. Abingdon, Oxfordshire, Inglaterra: Routledge. ISBN 978-1-138-12444-8 
  3. a b «"Traditional" Dictatorship: One Party State in KwaZulu Homeland Threatens Transition to Democracy». Human Rights Watch. 1993. Consultado em 27 de outubro de 2024 
  4. a b c South African Democracy Education Trust (2004). The Road to Democracy in South Africa: 1970-1980. [S.l.]: Unisa Press. p. 821. ISBN 978-1-86888-406-3 
  5. Bill Berkeley (2001). The Graves are Not Yet Full. [S.l.]: Basic Books. ISBN 9780465006410