Crise separatista de Comores

Crise separatista de Comores inicia em 1997 quando as ilhas de Anjouan e Mohéli declaram a independência da República Federal Islâmica das Comores, formada pelas referidas ilhas além da Grande Comore, a maior das ilhas.[1] As tropas da ilha de Grande Comore intervêm em Anjouan para tentar impedir sua secessão, mas falham. O conflito continua até 2001 quando, após os Acordos de Fomboni, os comorenses aprovam uma nova constituição que manterá as três ilhas como um país, mas concederá a cada uma maior autonomia.

Histórico

Em 21 de julho de 1997, os apoiantes da Organização para a Independência de Anjouan (OPIA) tomaram posse dos escritórios do governador, então ausente, e criaram um diretório político presidido por Abdallah Ibrahim, que declarou a ilha como "pertencente aos anjouanenses" e como "oficialmente anexada à República Francesa desde 14 de julho de 1997"; nesse dia, duas pessoas foram mortas e vários gendarmes ficaram feridos durante uma manifestação separatista a favor da integração com a França em Mutsamudu.[2]

A primeira declaração de independência ocorre em Anjouan em 3 de agosto de 1997, Mohéli a segue em 11 de agosto de 1997. Em Mohéli, Said Mohamed Saifou se torna presidente e Soidri Ahmed primeiro-ministro. Em Anjouan, Abdallah Ibrahim é escolhido presidente[3] com Said Abeid Abdérémane sendo coordenador nacional. Esta tentativa de secessão leva a um embargo liderado pela Organização da Unidade Africana (OUA). No processo, as duas ilhas também exigem a sua união política com a França, com a bandeira tricolor francesa sendo hasteada e La Marseillaise sendo cantada.[4]

A França, através de Jacques Chirac, não leva em consideração esta reivindicação.[4] Uma explicação é que a França não queria arrefecer suas relações com as Comores ou com a Organização da Unidade Africana.

O poder central procura então recuperar a sua autoridade pela força em 4 de setembro de 1997[5] , mas falha, militar e politicamente.[6] Enquanto, sob os auspícios da OUA, Moheli novamente aceita a autoridade de Moroni, Anjouan ainda se recusa. Quando o presidente da República Federal Islâmica das Comores, Mohamed Taki Abdoulkarim, morre em 6 de novembro de 1998, a federação permanece num vácuo constitucional impróprio para qualquer reconciliação.

Anjouan acaba aceitando, sob a coação, negociar em Antananarivo, a capital de Madagascar, mas os líderes de Anjouan recusam os acordos em 23 de abril de 1999.[7] Abdallah Ibrahim, renuncia transferindo o poder para Abeid, o coordenador nacional.

O coronel Azali Assoumani executa um golpe de Estado em abril de 1999 e toma o poder numa ação amplamente criticada pela comunidade internacional. Particularmente sob os auspícios da União Africana e do presidente sul-africano Thabo Mbeki, renova-se o diálogo com o independentista Mohamed Bacar. O coronel Azali tentou em vão aplicar os acordos de Antananarivo, mas as autoridades de Anjouan ainda se recusam. Os habitantes de Anjouan também rejeitam massivamente a unidade em uma consulta organizada em 23 de janeiro de 2000, preferindo um Estado independente, e os rebeldes continuam a controlar a ilha. [8] A União Africana, que se opunha a quaisquer modificações de fronteira, promulga como sanção um embargo sobre combustíveis, alimentos, comunicações marítimas e aéreas, bem como sobre telecomunicações a partir de 21 de março de 2000 e por um período indefinido. O embargo torna a vida muito difícil para os habitantes de Anjouan que então emigram em grande número para Mayotte.[9] Em 24 de agosto de 2000, o coronel Azali e o tenente-coronel Saïd Abeid Abdéramane, como líder de Anjouan, apresentam os princípios de um novo acordo, a "Declaração de Fomboni". Este acordo não satisfaz a União Africana[9], que se opõe ao desaparecimento do antigo estado e mantêm as sanções contra Anjouan.

Em 9 de agosto de 2001, Abeid é destituído por um golpe da gendarmeria em favor de Mohamed Bacar. Este último, iniciaria então um longo processo político de reconciliação com Azali Assoumani, para criar uma nova entidade, a União das Comores, onde as ilhas desfrutariam de uma maior autonomia. Bacar escapou de vários golpes de Estado, incluindo um liderado por Abeid.[10]

Em 2002, Mohéli ratificou o tratado da nova constituição da União das Comores, que cede maior autonomia às ilhas. A situação permaneceria bloqueada, especialmente porque o poder em Anjouan não era estável.

Ver também

Referências

  1. OCTAVI MARTI (13 de agosto de 1997). «Las Comoras descartan "de momento" una acción militar contra los secesionistas». El País 
  2. «Anjouan, une île des Comores, est tentée par un retour à la France» (em francês). Le Monde. 23 de julho de 1997. Cópia arquivada em 19 de outubro de 2025 
  3. JEAN HELENE (8 de agosto de 1997). «Los llamamientos a la independencia se suceden sin pausa en las islas Comoras». El País 
  4. a b MARTA AVANCINI (31 de agosto de 1997). «Ilha africana quer voltar a ser francesa». Folha de S.Paulo 
  5. «Intervention militaire à Anjouan». humanité.fr 
  6. «El Gobierno de Comoras admite su derrota frente a los separatistas». El País. 7 de setembro de 1997 
  7. «Comores». ANGOP - Agência Angola Press. 8 de Setembro de 2000 
  8. «Country Guide: COMOROS». (washingtonpost.com) 
  9. a b Point de vue de la Coordination démocratique des Comores, Témoignage em 20 de setembro de 2005
  10. «IRIN Briefing on separatist crisis». thenewhumanitarian.org. 7 de novembro de 2001. Cópia arquivada em 19 de outubro de 2025 

Ligações externas