Crise militar no Brasil em 1977
Em 12 de outubro de 1977, uma crise militar foi desencadeada pela demissão do então ministro do Exército, general Silvio Frota,[nota 1] pelo presidente Ernesto Geisel. A exoneração ocorreu na manhã daquele dia, quando Geisel convocou o ministro para uma breve reunião e comunicou sua decisão de demiti-lo.
Silvio Frota, enquanto ministro do Exército, apresentava-se como um militar de linha-dura e era fortemente contrário à proposta de abertura "lenta e gradual" do governo Geisel. Ele planejava candidatar-se à Presidência em 1979, divergindo de Geisel em questões delicadas da época, como a decisão de afastar o comandante do 2º Exército, Ednardo D’Ávila Mello, em 1976, após a morte de Manoel Fiel Filho nas dependências do DOI-CODI.
Antecedentes

Frota pertencia à linha-dura do Exército Brasileiro, representando o grupo de militares contrários à abertura política.[1] Essa posição gerou animosidade entre ele e o próprio presidente Geisel, já que as opiniões do ministro contrariavam frontalmente as do chefe do Executivo, sobretudo em questões como o afastamento de Ednardo D'Ávila Melo, aliado de Frota, do comando do II Exército, após a morte do operário Manuel Fiel Filho em 17 de janeiro de 1976.[2] A tensão entre ambos persistiu, e no ano seguinte Frota, com a intenção de concorrer à presidência contra a vontade de Geisel, iniciou movimentações para consolidar sua candidatura, com aliados visitando Brasília para buscar apoio ao ministro.
Silvio Frota, general do Exército Brasileiro, foi promovido em julho de 1972 e assumiu o I Exército no mesmo mês. Após a posse do presidente Ernesto Geisel, em 15 de março de 1974, foi nomeado chefe do Estado-Maior do Exército, cargo que ocupou até maio daquele ano, quando passou a comandar o Ministério do Exército, em decorrência do falecimento do titular da pasta, o general Vicente de Paulo Dale Coutinho.
Membro da linha-dura do Exército, Frota opunha-se à abertura política "lenta e gradual" proposta por Geisel, gerando tensões com o presidente. Suas divergências incluíam a sucessão presidencial, tema que Geisel pretendia discutir apenas a partir de janeiro de 1978, já tendo preferência pelo general João Figueiredo. Apesar disso, o deputado Carlos Alberto de Oliveira, da ARENA, ameaçou lançar a candidatura de Frota à Presidência no Congresso Nacional, mas foi impedido de última hora.
As tensões entre Frota e Geisel intensificaram-se em 23 de agosto de 1977, quando o presidente pediu para ler o discurso preparado por Frota para a comemoração do Dia do Soldado. A inusitada solicitação aumentou o atrito entre ambos.[3]
Em 8 de setembro de 1977, Frota envolveu-se em outra polêmica ao ameaçar o jornalista Lourenço Diaféria, da Folha de S.Paulo. Diaféria havia elogiado, em sua coluna, o heroísmo do 2° sargento Sílvio Delmar Hollenbach, que saltou em um fosso com ariranhas no Jardim Zoológico de Brasília para salvar uma criança, ao mesmo tempo que fazia críticas o patrono do Exército, Duque de Caxias.[4]
Demissão e articulação de golpe
No dia 12 de outubro de 1977, o presidente Ernesto Geisel comunicou ao ministro Silvio Frota que desejava vê-lo ainda naquela manhã, em Brasília. Mais tarde, naquele mesmo dia, os dois se reuniram no gabinete presidencial para uma rápida conversa, iniciada por Geisel:[2][5]
“Frota, nós não estamos mais nos entendendo. A sua administração no ministério não está seguindo o que combinamos. Além disso, você é candidato à presidência e está em campanha. Eu não acho isso certo. Por isso preciso que você peça demissão.”
Frota rebateu:
“Eu não peço demissão.”
Ao que o presidente respondeu:
“Bem, então vou demiti-lo. O cargo de ministro é meu, e não deposito mais em você a confiança necessária para mantê-lo. Se você não vai pedir demissão, vou exonerá-lo.”

Após deixar o Palácio do Planalto, Frota tentou articular uma reação para afrontar a decisão do presidente da República, buscando apoio entre generais e redigindo um manifesto de oito páginas que pretendia enviar a todas as unidades do Exército, o que acabou não sendo feito.[2] Geisel, no entanto, já havia se antecipado, previamente informando alguns generais de sua decisão, como Gustavo Moraes Rego Reis, da 11ª Brigada de Infantaria Blindada em Campinas, que por sua vez repassou a informação ao comandante do II Exército, em São Paulo. Dois dias antes, Geisel também havia conversado com o comandante do I Exército, José Pinto de Araújo Rabello, que reagiu dizendo: “Já devia ter tirado.”[5]
No mesmo dia, foi publicada no Diário Oficial da União a exoneração de Sílvio Frota, assim como a indicação do seu sucessor, Fernando Belfort Bethlem, ex-comandante do III Exército.
Consequências
Após a demissão, Frota se retirou da vida política, sentindo-se ideologicamente contrariado. Voltou a aparecer na mídia somente após a edição da Lei da Anistia, quando criticou o governo e divulgou uma lista de supostos comunistas no funcionalismo público. Depois disso, permaneceu afastado até sua morte, em 1996.
Os militares mais radicais, simpatizantes de Frota, foram isolados e a tentativa de reação, (tentativa de golpe)[6][7][8] foi completamente desarticulada. No ano seguinte, o presidente Ernesto Geisel revogou o Ato Institucional nº 5 (AI-5), decretado durante o governo do general Costa e Silva, da linha-dura. Em seguida, Geisel transferiu a faixa presidencial ao seu sucessor, o general João Baptista Figueiredo.
Notas
- ↑ Em grafia antiga: Sylvio Couto Coelho da Frota
Ver também
Referências
- ↑ «Demissão de toda a cúpula das Forças Armadas é inédita». www2.senado.leg.br. Consultado em 10 de junho de 2025
- ↑ a b c «Crise com demissão de general e ameaça de levante em 1977 foi marco da ditadura militar». Folha de S.Paulo. 30 de março de 2021. Consultado em 10 de junho de 2025
- ↑ Brasil, CPDOC-Centro de Pesquisa e Documentação História Contemporânea do. «SILVIO COUTO COELHO DA FROTA». CPDOC - Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil. Consultado em 10 de junho de 2025
- ↑ «Pacato, Lourenço Diaféria publicou crônica que gerou crise com militares». Folha de S.Paulo. 28 de janeiro de 2021. Consultado em 10 de junho de 2025
- ↑ a b Gaspari, Elio (19 de fevereiro de 2014). A ditadura envergonhada: As ilusões armadas. [S.l.]: Editora Intrinseca. p. 28. Consultado em 10 de junho de 2025
- ↑ «Memorial da Democracia - Geisel enquadra rivais no Exército». Memorial da Democracia. Consultado em 10 de junho de 2025
- ↑ Paraíba, Jornal da (30 de junho de 2020). «Como se demite um ministro. Quem ensinou foi o general Geisel | Jornal da Paraíba». Jornal da Paraíba • O Portal de Notícias da Paraíba. Consultado em 10 de junho de 2025
- ↑ «A linha-dura da ditadura brasileira quase deu outro golpe em 1977». Mega Curioso. Consultado em 10 de junho de 2025

