Criptósporo

Os criptósporos são esporos microscópicos fossilizados produzidos por embriófitas (as plantas terrestres). Aparecem pela primeira vez nos registros fósseis no meio do Ordoviciano, representando as evidências mais antigas conhecidas da colonização do ambiente terrestre por plantas. Uma categoria semelhante, embora mais ampla, é a dos miósporos, termo geralmente usado para esporos com menos de 200 micrômetros (μm). Tanto os criptósporos quanto os miósporos são tipos de palinomorfos, isto é, partículas microscópicas de origem orgânica preservadas em rochas sedimentares.[1]

Os criptósporos, que ocorrem em formações permanentes de tétrades, díades ou mônades hiladas (às vezes envoltos por camadas adicionais de parede celular), dominaram os conjuntos fósseis por cerca de 60 milhões de anos, surgindo por volta de 470 milhões de anos atrás, durante o Ordoviciano. Eles passaram por uma rápida diversificação durante o que a pesquisadora Jane Gray (1993) chamou de época eoembriófita, mas sofreram uma queda brusca em diversidade e abundância por volta de 410 milhões de anos atrás, no fim do estágio Lochkoviano (início do Devoniano). Apenas algumas formas conseguiram persistir até o período Emsiano.[2]

Em contraste, as mônades triletas começaram a se diversificar por volta de 430 milhões de anos atrás, no final do Siluriano, e acabaram se tornando o grupo dominante nos conjuntos de esporos dispersos. Enquanto as mônades triletas estão geralmente associadas às plantas vasculares, os criptósporos não têm análogos modernos próximos (exceto talvez em alguns musgos hepáticos), o que torna a identificação das plantas que os originaram um dos grandes mistérios não resolvidos da botânica evolutiva.[3]

Evidências de que os criptósporos derivam de plantas terrestres

Ocorrência

Os criptósporos são encontrados, em geral, em rochas não marinhas, e sua abundância diminui à medida que se afasta da costa. Isso indica que os criptósporos encontrados em ambientes marinhos foram transportados pelo vento a partir do continente, e não se originaram no próprio ambiente marinho.[2]

Ultrassestrutura da parede

As paredes dos criptósporos são formadas por múltiplas lamelas (camadas muito finas). As hepáticas, considerados as plantas terrestres mais primitivas conhecidas, apresentam morfologia de parede de esporo semelhante, o que sugere uma possível relação evolutiva.[2]

Composição química

Alguns criptósporos são compostos por esporopolenina, uma substância altamente resistente, e possuem a mesma composição química que os esporos triletos encontrados no mesmo local.[4]

Outras informações

Recentemente, foram encontrados em Omã fósseis de esporângios vegetais contendo criptósporos com lamelas concêntricas em suas paredes, estrutura semelhante à observada nos hepáticos. Os criptósporos mais antigos conhecidos provêm de camadas do Ordoviciano Médio (estágio Dapingiano), na Argentina[5] . Já os esporos encontrados no Folhelho Lindegård (do final do Katiano ao início do Hirnantiano) representam o registro mais antigo de esporos de plantas terrestres da Suécia e, possivelmente, também do paleocontinente Báltica. Isso sugere que as plantas terrestres já haviam migrado para a região da Báltica pelo menos até o final do Ordoviciano.[6]

Essa descoberta reforça a hipótese anterior de que a migração das plantas terrestres do norte de Gondwana para a Báltica durante o final do Ordoviciano foi facilitada pelo deslocamento para o norte do microcontinente Avalônia. Essa interpretação é apoiada pela ocorrência conjunta de acritarcas retrabalhados (microfósseis orgânicos) do Ordoviciano Inferior a Médio, o que possivelmente indica uma origem avaloniana dentro de um sistema de bacia de antepaís.[7]

Ver também

Referências

  1. Steemans, P (2000). «Miospore evolution from the Ordovician to the Silurian». Review of Palaeobotany and Palynology (em inglês). 113 (1–3): 189–196. Bibcode:2000RPaPa.113..189S. PMID 11164219. doi:10.1016/S0034-6667(00)00059-2 
  2. a b c Wellman, CH; Steemans, P. (2013). «Palaeophytogeography of Ordovician–Silurian land plants». Geological Society, London, Memoirs. 38. [S.l.: s.n.] pp. 461–476 
  3. Edwards, Dianne; Morris, Jennifer L.; Axe, Lindsey; Duckett, Jeffrey G.; Pressel, Silvia; Kenrick, Paul (2022). «Piecing together the eophytes – a new group of ancient plants containing cryptospores». New Phytologist (em inglês). 233 (3): 1440–1455. ISSN 1469-8137. doi:10.1111/nph.17703Acessível livremente 
  4. Steemans, P.; Lepot, K.; Marshall, C.P.; Le Hérissé, A. and Javaux, E.J. (2010). «FTIR characterisation of the chemical composition of Silurian miospores (cryptospores and trilete spores) from Gotland, Sweden» (PDF). Review of Palaeobotany and Palynology. 162 (4): 577–590. Bibcode:2010RPaPa.162..577S. doi:10.1016/j.revpalbo.2010.07.006 
  5. Rubinstein, C.V.; Gerrienne, P.; de la Puente, G.S.; Astini, R.A.; Steemans, P. (2010). «Early Middle Ordovician evidence for land plants in Argentina (eastern Gondwana)». New Phytologist. 188 (2): 365–369. PMID 20731783. doi:10.1111/j.1469-8137.2010.03433.xAcessível livremente. hdl:11336/55341Acessível livremente 
  6. Badawy, A.S.; Mehlqvist, K.; Vajda, V.; Ahlberg, P. and Calner, M. (2014). «Late Ordovician (Katian) spores in Sweden: oldest land plant remains from Baltica». GFF. 136 (1): 16–21. Bibcode:2014GFF...136...16B. doi:10.1080/11035897.2014.899266 
  7. Steemans, P.; Wellman, C.H. and Gerrienne, P. (2010). «Paleogeographic and paleoclimatic considerations based on Ordovician to Lochkovian vegetation». Geological Society, London, Special Publications. 339 (1): 49–58. Bibcode:2010GSLSP.339...49S. doi:10.1144/SP339.5