Cosmograma congo

Cosmograma congo

O cosmograma congo (também chamado de yowa ou cruz dikenga, em kikongo: dikenga dia Kongo ou tendwa kia nza-n' Kongo) é um símbolo central na religião bakongo que representa o mundo físico (Ku Nseke), o mundo espiritual (Ku Mpémba), a linha Kalûnga que divide esses dois mundos, o rio sagrado que forma um círculo unindo-os, os quatro momentos do sol e os quatro elementos.[1][2][3]

História

Fontes etno-históricas e evidências de cultura material mostram que o cosmograma congo já existia como uma tradição simbólica antiga na cultura Bakongo antes do contato europeu em 1482, e continuou a ser utilizado na África Central até o início do século XX.[1] Em sua forma mais elaborada, esse símbolo servia como uma representação emblemática do povo congo e sintetizava uma ampla gama de ideias e mensagens metafóricas que compunham seu sentido de identidade dentro do cosmos.[4]

O cosmograma congo foi trazido para as Américas pelos povos congo escravizados no tráfico transatlântico de escravos.[5] Achados arqueológicos nos Estados Unidos indicam que o símbolo foi reverenciado por negros americanos, que desenhavam o cosmograma congo nas paredes de porões de igrejas e o gravavam em cerâmicas.[6]

Elementos do cosmograma

Kalûnga e os dois mundos

Os Bakongo acreditam que, no princípio, havia apenas um vazio circular de nada, chamado mbûngi.[7] Nzambi Mpungu criou uma centelha de fogo, ou Kalûnga, que cresceu até preencher o mbûngi. Quando se tornou grande demais, Kalûnga se transformou numa grande força de energia que espalhou elementos quentes pelo espaço, formando o universo com o sol, as estrelas, os planetas, etc.[7] Por isso, Kalûnga é visto como a origem da vida e uma força de movimento. Nzambi Mpungu também é chamado Kalûnga, o deus da mudança.[8]

Após a criação, a natureza de Kalûnga mudou quando Nzambi separou o mundo físico, ou Ku Nseke, do mundo espiritual (ancestral), ou Ku Mpémba, pela linha de kalûnga.[7] Essa linha tornou-se um rio que transporta as pessoas entre os dois mundos no nascimento e na morte, e mbûngi se tornou o sol que gira. Na morte, ou pôr do sol, o processo se repete e a pessoa renasce. Em kikongo, a palavra Kalûnga significa "limiar entre os mundos".[9] Assim, a linha Kalûnga atua como uma barreira entre os dois mundos e guia todos os Bakongo, ou muntu, pelos quatro estágios da vida.[8]

A linha Kalûnga e o círculo mbûngi formam parte do cosmograma congo, também chamado Yowa ou cruz Dikenga.[7] Um Simbi (pl. bisimbi) é um espírito das águas que habita rios e pedras, acreditando-se que guiam os bakulu, ou ancestrais, pela linha Kalûnga para o mundo espiritual após a morte. Eles também estão presentes durante os batismos de cristãos afro-americanos, segundo a tradição hudu.[10][11]

Os quatro momentos do sol

Segundo Molefi Kete Asante,

"Outra característica importante da cosmologia Bakongo é o sol e seus movimentos. O nascer, o auge, o pôr e a ausência do sol fornecem o padrão essencial para a cultura religiosa Bakongo. Esses 'quatro momentos do sol' correspondem aos quatro estágios da vida: concepção, nascimento, maturidade e morte. Para os Bakongo, tudo transita por esses estágios: planetas, plantas, animais, pessoas, sociedades e até ideias. Esse ciclo vital é representado por um círculo com uma cruz dentro. No cosmograma ou dikenga, o ponto de encontro das duas linhas da cruz é o ponto mais poderoso e onde a pessoa se situa."[7]

Esse processo se repete e os Bakongo renascem. Juntos, Kalûnga e o círculo mbûngi formam a cruz Yowa ou Dikenga. Os quatro cantos da cruz correspondem ao tempo musoni, kala, tukula e luvemba. Eles se relacionam aos quatro momentos do sol, aos quatro estágios da vida e aos quatro elementos.[8]

Cosmograma Kongo alternativo

Mfinda

A natureza também é essencial na religião Kongo. Enquanto os espíritos simbi tornaram-se mais associados à água, ou kalûnga, eles também eram conhecidos por habitar a floresta, ou mfinda (finda na tradição hudu). O Reino do Congo usava o termo chibila, que designava bosques sagrados, onde esses espíritos da floresta eram venerados. O Reino de Loango os chamava de bakisi banthandu, ou espíritos do mato.[12] O Reino de Ndongo preferia o nome xibila (pl. bibila).[13]

Os povos Kongo também acreditavam que alguns ancestrais habitavam a floresta após a morte e mantinham sua presença espiritual na vida dos descendentes. Acreditava-se que esses ancestrais haviam morrido, viajado para Mpémba e renascido como bisimbi. Assim, o Grande Mfinda existia como um ponto de encontro entre o mundo físico e o espiritual. Os vivos o viam como fonte de alimento físico pela caça e alimento espiritual pelo contato com os ancestrais. Um especialista em religião Kongo, Busenki Fu-Kiau, descreveu alguns cosmogramas pré-coloniais com mfinda como uma ponte entre os dois mundos.[12]

Ver também

Referências

  1. a b Thompson, Robert Farris; Cornet, Joseph (1981). The four moments of the sun : Kongo art in two worlds. Washington, D.C.: National Gallery of Art, Washington. ISBN 0-89468-003-X 
  2. MacGaffey, Wyatt; John M. Janzen (1974). An Anthology of Kongo Religion: Primary Texts From Lower Zaire (University of Kansas Publications In Anthropology. No. 5). [S.l.]: University of Kansas. ASIN B0006CI6EO 
  3. Fu-Kiau, Kimbwandènde Kia Bunseki (2001). Tying the spiritual knot : African cosmology of the Bântu-Kôngo : principles of life & living 2nd ed. Brooklyn, N.Y.: Athelia Henrietta Press. ISBN 1-890157-28-7 
  4. Fennell, Christopher. «Multivalent Symbols of an Enclosing Hand». African Diaspora Archaeology Network. Chris Fennell of the Department of African American Studies, Center for African Studies, and the Department of Anthropology at the University of Illinois. Consultado em 3 de junho de 2013 
  5. W. Jeffrey Bolster (1997). Black jacks: African American seamen in the age of sail. [S.l.]: Harvard University Press. p. 63. ISBN 0-674-07627-3. Consultado em 26 de junho de 2009 
  6. Gundaker, Grey (2011). «The Kongo Cosmogram in Historical Archaeology and the Moral Compass of Dave the Potter»Subscrição paga é requerida. Historical Archaeology. 45 (2): 176–183. ISSN 0440-9213. JSTOR 23070096. doi:10.1007/BF03376840 
  7. a b c d e Asante, Molefi Kete; Mazama, Ama (2009). Encyclopedia of African Religion 1st ed. [S.l.]: SAGE Publications. pp. 120–124. ISBN 978-1412936361 
  8. a b c Luyaluka, Kiatezua Lubanzadio (2017). «The Spiral as the Basic Semiotic of the Kongo Religion, the Bukongo»Subscrição paga é requerida. Journal of Black Studies. 48 (1): 91–112. ISSN 0021-9347. JSTOR 26174215. doi:10.1177/0021934716678984 
  9. Gaskins, Nettrice R. (2 de janeiro de 2016). «The African Cosmogram Matrix in Contemporary Art and Culture»Subscrição paga é requerida. Black Theology. 14 (1): 28–42. ISSN 1476-9948. doi:10.1080/14769948.2015.1131502 
  10. Anderson, Jeffrey E. (2008). Hoodoo, Voodoo, and Conjure: A Handbook. Westport, Connecticut: Greenwood Press. p. 114. ISBN 9780313342226 
  11. Manigault-Bryant, LeRhonda S. (2014). Talking to the Dead: Religion, Music, and Lived Memory among Gullah/Geechee Women. Durham: Duke University Press. ISBN 9780822376705 
  12. a b Brown, Ras Michael (2012). African-Atlantic Cultures and the South Carolina Lowcountry 1st ed. New York, NY: Cambridge University Press. pp. 26, 27, 90–102, 106–110, 119–121, 123. ISBN 978-1-107-66882-9 
  13. Dennett, Richard Edward (1906). At the Back of the Black Man's Mind; Or Notes on the Kingly Office in West Africa. [S.l.]: Forgotten Books. pp. 114–118. ISBN 9781605060118