Unificação de títulos de futebol no Brasil

Time do Esporte Clube Bahia na Taça Brasil de 1959. Em 2010, após a unificação, passou a ser o primeiro campeão do Campeonato Brasileiro, situação que perdurou até 2023, quando a CBF unificou o Torneio dos Campeões de 1937, vencido pelo Atlético-MG.

A unificação de títulos de futebol no Brasil refere-se a um movimento de reparação histórica esportiva. Sob a defesa da preservação da memória futebolística, busca-se o reconhecimento oficial de que campeonatos extintos integram a história de campeonatos atuais, tendo como consequência prática a incorporação da lista de campeões. Com base em estudo do historiador Odir Cunha, a CBF aprovou a Resolução da Presidência nº 03, de 2010, que unificou a Taça Brasil, o Torneio Roberto Gomes Pedrosa e a Taça de Prata ao Campeonato Brasileiro.[1] Estes torneios nacionais organizados pela antecessora CBD, entre 1959 e 1970, passaram a ser considerados edições do Brasileirão, em igualdade com os títulos a partir de 1971.[1]

Logo após o entendimento de 2010, diferentes clubes passaram a reivindicar o mesmo para outros títulos, afirmando que a decisão abriu um precedente para seus pedidos.[2][3] Em 2023, o Atlético Mineiro, campeão de 1971, foi declarado campeão brasileiro de 1937, em razão do Torneio dos Campeões da FBF, voltando a ter o posto de primeiro campeão.[4]

História

Contexto

Os primeiros campeonatos de futebol no Brasil foram realizados a nível local, o que impulsionou a existência de torneios estaduais e rivalidades locais.[5] O primeiro torneio oficial a nível interestadual foi o Torneio Rio-São Paulo, em 1933. Antes da nacionalização do futebol de clubes, um campeonato nacional de futebol era disputado entre selecionados estaduais, o Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais, inaugurado em 1922. Foi disputado 29 vezes até 1966, e teve uma edição isolada em 1987.[6]

Unificações do Campeonato Brasileiro

Time do Palmeiras na Taça de Prata de 1969

O reconhecimento foi baseado em um dossiê do historiador Odir Cunha.[7] A principal alegação para a unificação dos títulos seria de que os campeões dos torneios realizados entre o período de 1959 e 1971 eram considerados pela imprensa brasileira da época como campeões nacionais naquele período.

Equipe do Botafogo campeã de 1968 da Taça Brasil, também reconhecida como Campeonato Brasileiro

Em 20 de dezembro de 2010, o presidente da CBF Ricardo Teixeira assinou a Resolução da Presidência nº 03 de 2010 (RDP nº 03/2010), na qual oficializa a unificação dos torneios entre 1959 e 2010, e reconhece os títulos da Taça Brasil e Torneio Roberto Gomes Pedrosa/Taça de Prata como Campeonato Brasileiro.[1]

Em março de 2022, o Atlético Mineiro entregou um dossiê de 60 páginas para que o Torneio dos Campeões de 1937, organizado pela Federação Brasileira de Football, fosse reconhecido como a primeira edição do Campeonato Brasileiro.[8] Em agosto de 2023, a CBF acatou o pedido de unificação com base no dossiê apresentado pelo clube, e o presidente Ednaldo Rodrigues assinou a homologação do pedido.[4][9]

Unificações de Campeonatos Estaduais

Em 23 de setembro de 2021, a atual Federação Paulista de Futebol (FPF) reconheceu o Albion e o Juventus, os vencedores dos torneios organizados pela extinta Federação Paulista de Football em 1933 e 1934, respectivamente, como campeões paulistas, ao lado do vencedor dos campeonatos da Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA) de 1933 e 1934, o Palmeiras.[10][11]

Em 21 de dezembro de 2023, o título do Campeonato de 1937 da Federação Metropolitana de Desportos, vencido pelo São Cristóvão de Futebol e Regatas, foi reconhecido pela FERJ oficialmente como uma edição do Campeonato Carioca.[12]

Movimentos atuais

Campeonato Brasileiro da Primeira Divisão

Campeonato Brasileiro de Clubes Campeões de 1920

Equipe do Club Athletico Paulistano, campeão do Campeonato Brasileiro de Clubes Campeões de 1920.

Em pleno amadorismo, surgiu uma das primeiras experiências de se organizar um campeonato a nível Interestadual, pela CBD (atual CBF), em 1920. Ela precisava montar uma Seleção Brasileira para o Campeonato Sul-Americano no Chile. Segundo reportagem da Placar (1976), a competição se chamava "Campeonato Brasileiro de Clubes Campeões".[nota 1][13][14] Atualmente, referenciado pela imprensa como Copa dos Campeões ou Torneio dos Campeões.[15][16]

O jornal O Paiz, de 1° de abril de 1920, publicou uma nota da CBD sobre "o campeão do Brasil": "Os jogos interestaduaes que estão se realizando por iniciativa da Confederação Brazileira não constituem de forma alguma o Campeonato do Brazil".[17] Foram chamados os campeões estaduais de 1919 de São Paulo, Rio de Janeiro, então Distrito Federal, e Rio Grande do Sul: Fluminense, Paulistano e Brasil de Pelotas

Em 2022, o portal Superesportes entrou em contato com o Club Athletico Paulistano, que negou que o clube social almeje o reconhecimento do Campeonato Brasileiro de Clubes Campeões de 1920 como Campeonato Brasileiro.[18] Em 2023, disse em nota que "o tema está em avaliação pelo clube".[19]

Torneio Rio-São Paulo (1933-1934 / 1940 / 1950-1966)

Taça do Torneio Rio-São Paulo de 1933, vencido pelo Palmeiras.

Em 2010, após a unificação dos títulos pré-1971, a Portuguesa anunciou que reivindicaria a equiparação do Torneio Rio–São Paulo ao Campeonato Brasileiro, sob o argumento de que a competição deu origem ao Torneio Roberto Gomes Pedrosa, anteriormente unificado como título nacional.[20] A possibilidade foi descartada por Odir Cunha, autor do dossiê unificador da Taça Brasil e Roberto Gomes Pedrosa: “a reivindicação da Portuguesa, assim como a de qualquer vencedor do Rio–São Paulo, não tem qualquer chance de ser aprovada pela CBF”.[21] O jornal espanhol El Mundo Deportivo de 14 de junho de 1951 chama o Torneio Rio-São Paulo de “campeonato brasileiro oficioso”, afirmando que os dois estados possuíam os melhores times do Brasil.[22]

Torneio Quadrangular de Belo Horizonte de 1948

No dia 7 de janeiro de 2026, o presidente do Conselho Administrativo do América Mineiro, Márcio Vidal, anunciou que iria pedir o reconhecimento do Torneio Quadrangular de Belo Horizonte de 1948 como Campeonato Brasileiro.[23] O torneio, jogado entre maio e junho, incluiu o Vasco da Gama, campeão carioca de 1947 e do Campeonato Sul-Americano de Campeões de 1948 (findado em 17 de março), o Atlético-MG, campeão mineiro de 1947, e o São Paulo, campeão paulista de 1946; o América foi o anfitrião e patrocinador.[24] Em 2026, durante coletiva, o presidente Márcio Vidal afirmou: "Temos um título da Série A não reconhecido, ainda. É uma luta que eu ainda vou ter pela frente, que é o título de 1948".[24]

Torneio dos Campeões do Norte–Nordeste (1951-1952) e Copa dos Campeões do Norte de 1966

Matéria sobre o título do Torneio dos Campeões do Norte–Nordeste do Náutico no ano de 1952.

Em 2025, o Náutico anunciou que solicitaria à CBF o reconhecimento do Torneio dos Campeões do Norte–Nordeste de 1952 e da Copa dos Campeões do Norte de 1966 como títulos equivalentes ao Campeonato Brasileiro da Série A, segundo afirmou Marcelo Vinícius, diretor jurídico do clube.[25][26] Em seu site oficial, o clube passou a listar ambas as conquistas como equivalentes ao campeonato nacional, denominando o título de 1966 como Pequena Taça Brasil.[26][27][28]

Copa Minas de 1967

Em 2023, após a unificação do Torneio dos Campeões de 1937, o Bangu afirmou, em nota à imprensa, que “está em contato com seu departamento jurídico para analisar o pedido de reconhecimento do título brasileiro de 1967”, referente à Copa Minas.[19] O torneio, organizado pela Federação Mineira, contou com a presença de Atlético-MG, Bangu, Cruzeiro e Palmeiras; com exceção do Galo, os demais eram campeões estaduais de 1966, e o Cruzeiro vencera a Taça Brasil. Em seu site oficial, o clube carioca lista a conquista como um título nacional, sob a denominação Copa dos Campeões.[29]

Torneio Hexagonal Norte-Nordeste de 1967 e Torneio Norte-Nordeste (1968-1970)

Taça do Torneio Norte–Nordeste de 1969, vencido pelo Ceará.

Em 2025, Ceará, Fortaleza e Sport, com o apoio da FPF e FCF,[30] entraram com o pedido de reconhecimento dos Torneios Norte/Nordeste de 1968, 1969 e 1970 como Campeonatos Brasileiros.[31] A competição, disputada por equipes das regiões Norte e Nordeste do Brasil, ocorreu paralelamente ao Torneio Roberto Gomes Pedrosa, torneio entre clubes das regiões Sul e Sudeste posteriormente unificado ao Campeonato Brasileiro.[31] Em menos de um mês após o pedido, o Santa Cruz, junto com a FPF, anunciou buscar tal reconhecimento ao Torneio Hexagonal Norte-Nordeste de 1967.[32]

Torneio Centro-Sul de 1968 e Torneio dos Campeões de 1969

Desde 2010, o Grêmio Esportivo Maringá tenta reconhecer o Torneio dos Campeões da CBD de 1969 como Campeonato Brasileiro.[33] Em 2025, o presidente da Federação Paranaense de Futebol, Hélio Cury Filho, reforçou o pedido ao presidente da CBF, Samir Xaud, para que o Grêmio seja reconhecido como campeão brasileiro.[34] Além do título de 1969, Hélio também incluiu, no pedido, o Torneio Centro-Sul de 1968, competição disputada paralelamente ao Torneio Roberto Gomes Pedrosa e ao Torneio Norte-Nordeste, que igualmente concedia vaga ao Torneio dos Campeões.[34]

Torneio do Povo (1971-1973)

Taça do Torneio do Povo de 1972, vencido pelo Flamengo.

O Coritiba pretendeu a unificação do Torneio do Povo, competição jogada de 1971 a 1973 e vencida pelo Coxa na última edição, que contou com 6 times de 6 estados e 3 regiões diferentes, todos campeões ou futuros campeões brasileiros. A organização se deu pelos próprios clubes. Conforme o então vice-presidente Vilson Ribeiro de Andrade, em 2010: "Isso é um processo que temos na CBF de muito tempo. A Confederação ainda não reconheceu e veio de outras administrações do clube".[35]

Torneio dos Campeões de 1982

No dia 10 de maio de 2021, o America, representado por Edu Coimbra, Sidney Santana, Léo Almada e Marco Antônio Teixeira, entregou a CBF uma solicitação para que o Torneio dos Campeões da CBF de 1982 seja reconhecido como Campeonato Brasileiro.[36][37] Em 2023, Romário reforçou durante a sua posse como presidente do America que iria lutar pelo reconhecimento do título.[38] A competição visava reunir os campeões e vice-campeões das principais competições nacionais da CBD ou CBF, desde a Taça Brasil, além do Torneio Rio-São Paulo. O America participou pelo número de participações nestes torneios, sendo campeão invicto após dez jogos.

Campeonato Brasileiro da Segunda Divisão

Torneio de Integração Nacional

Em 1971, o Atlético-GO ganhou o Torneio de Integração Nacional. Organizado pela Federação Goiana com o apoio da CBD, foi uma alternativa aos estados não representados na primeira edição do Campeonato Nacional de Clubes. Em 2021, cinquentenário da conquista, o portal GE afirmou que o Dragão iria pedir "junto à CBF o reconhecimento do título como o equivalente a uma Série B do Brasileirão".[39] Segundo publicação do site do clube (2021), "Enquanto o Atlético Mineiro ganhava o título nº 1, o Atlético Goianiense ganhava o título nº 2. O Dragão ganhava um título equivalente ao que reconhecemos como a Série B do Campeonato Brasileiro de hoje em dia".[40] Cite-se que no ano também foi realizada a primeira edição da Série B.

Primeira fase da Copa Brasil de 1979

No dia 12 de novembro de 2025, o Maranhão formalizou o pedido à CBF para ser reconhecido como campeão de 1979.[41] A alegação é que o clube teve a maior pontuação da primeira fase do torneio, juntamente com o Internacional e o Grêmio Maringá.

Segunda fase do Campeonato Brasileiro de 1981 - Taça de Prata

O Náutico declara-se campeão da Série B de 1981. A segunda fase da Taça de Prata consistia em quatro grupos de três times, e o primeiro colocado de cada ganhava acesso à primeira divisão do mesmo ano. O time pernambucano foi um dos quatro primeiros. Os segundos colocados disputaram o título e acesso à elite do ano seguinte.[27] Esse formato também foi adotado nas edições de 1980, 1982 e 1983.[42][43][44]

Torneio Paralelo de 1986

O Torneio Paralelo foi disputado em 1986, com a intenção de determinar quem disputaria a segunda fase do Campeonato Brasileiro de 1986. Oficialmente, o torneio fazia parte do primeira divisão daquele ano, porém, as estatísticas não são contabilizadas pela CBF.[45] Treze, Criciúma, Inter de Limeira e Central de Caruaru ficaram em primeiro lugar dos seus respectivos grupos, porém, não era previsto no regulamento uma decisão entre eles para definir o campeão.[45]

Em 2019, a presidente da Federação Paraibana, Michelle Ramalho, e o presidente do Treze, Walter Júnior, reiteraram a vontade de apresentar o caso ao então presidente da CBF, Rogério Caboclo.[45] Durante a gestão de Samir Xaud, o presidente da Federação Catarinense, Rubens Angelotti, sugeriu que a disputa fosse decidida no campo, em sistema de semifinal e final.[46] Em setembro de 2025, o setor jurídico da CBF deu parecer favorável para reconhecer o título como equivalente a Segunda Divisão, e considerar os quatro clubes como campeões da segunda divisão daquele ano.[47][48]

Copa do Nordeste

Torneio José Américo de Almeida Filho

O Vitória, junto com a Liga do Nordeste, apresentou alguns pedidos para que o Torneio José Américo de Almeida Filho fosse reconhecido como edição da Copa do Nordeste.[49] A competição entre times do Nordeste (com exceção do Volta Redonda, na segunda edição), organizada pela Federação Paraibana,[50] foi vencida pelo CRB em 1975 (seis participantes) e pelo time baiano em 1976 (doze participantes).[51] A mais recente tentativa se deu em 2021.[52]

Outros torneios

Em 2021, o Náutico pediu a unificação de títulos regionais do século XX como Copa do Nordeste, mesmo os que tiveram presença de times do Norte. Dois destes, o Torneio dos Campeões do Norte-Nordeste (1952) e a Copa dos Campeões do Norte (1966), seriam depois pleiteados pelo Timbu como edições do Brasileirão. A com mais edições, porém, é a Taça Norte, troféu anexo à Taça Brasil, correspondendo à zona Norte-Nordeste do certame nacional, disputada dez vezes, com três títulos do próprio Náutico. Se o Vitória pediu a unificação do Torneio José Américo de Almeida Filho de 1976, o rival Bahia frisou quatro títulos anteriores a 1994 (primeira edição da Copa do Nordeste propriamente dita), sendo três da Taça Norte e a Taça dos Campeões do Nordeste de 1948. Santa Cruz, Sport, Fortaleza, Ceará, América-RN, Ypiranga-BA e CRB também seriam beneficiados, sendo que a maioria destes igualmente levantam bandeiras de unificação.[53][54][52]

Campeonatos Estaduais

Campeonato Alagoano

Em agosto de 2020, o Clube de Regatas Brasil anunciou a intenção de solicitar à Federação Alagoana de Futebol o reconhecimento de uma competição realizada em 1920 como edição do Campeonato Alagoano.[55] A proposta, fundamentada em pesquisa do historiador Walter Luís, visa equiparar o torneio — na época organizado por uma liga local e não pela federação estadual — aos estaduais oficiais.[55]

Campeonato Carioca

Entre os dias 5 e 8 de junho de 2023, ocorreu no Tijuca Tênis Clube o primeiro fórum de debates do Exthyntos Social Clube, um projeto desenvolvido por Kleber Monteiro, com a intenção de manter viva a história de times extintos da cidade do Rio de Janeiro.[56] Durante o evento, foi reiterado o pedido dos envolvidos para que os títulos de 1925 e 1932 da Liga Metropolitana de Despostos Terrestres, vencidos por Engenho de Dentro, Modesto, SC América, Santa Cruz, Oriente e Boa Vista pudessem ser considerados como campeões do Campeonato Carioca.[57] Na ocasião, o deputado federal Tarcísio Motta afirmou que entraria com uma moção para reconhecimento oficial dos títulos.[57] Em dezembro do mesmo ano, o pedido ganhou força após o reconhecimento do título do São Cristóvão de 1937.[58]

Críticas

Faixa em protesto à Ricardo Teixeira.

A unificação dos títulos trouxe diferentes críticas ao processo. Desafetos de Ricardo Teixeira acusaram ele de utilizar da unificação para desviar atenção de acusações de corrupção.[59] Já torcedores de equipes rivais cunharam o termo "campeão por fax", em uma provocação ao reconhecimento.[60] Uma das principais críticas à unificação é que a mesma teria beneficiado clubes como Palmeiras e Santos, que após a unificação passaram a ser considerados os maiores campeões do torneio.[61]

O jornalista Paulo Vinícius Coelho colocou-se como crítico da unificação, afirmando que "a luta não é pela história. É clubística", e classificou de "pífios" argumentos como 'o futebol não nasceu em 1971', citando que o futebol chegou ao Brasil em 1894, que o Paulistão de 1902 foi a primeira competição e que a Taça Brasil de 1907, entre as seleções Paulista e Carioca, também foi entendida na época como um Campeonato Brasileiro.[6] Outro opositor é Mauro Cezar Pereira, principalmente quanto a Taça Brasil, a que considera como "embrião da Copa do Brasil".[62] Sobre a unificação do título atleticano de 1937, Renato Maurício Prado foi taxativamente contra, relembrando o movimento de 2010: "Conseguiram transformar uma Liga Barbante em título brasileiro, mas isso tudo começa lá atrás com a unificação dos títulos da Taça Brasil, Roberto Gomes Pedrosa (...), que tinham seu valor, sem dúvida, mas não eram campeonatos brasileiros".[63]

Relativização do termo Campeonato Nacional

Botafogo e Santos antes de jogo pelo Torneio Rio-São Paulo de 1963.

Uma das críticas ao processo de unificação é sobre o que está sendo definido como Campeonato Nacional. Parte dos torneios unificados, ou em processo de unificação, foram torneios curtos, com poucos times e regionalizados, o que abriria pressuposto para que torneios como o Torneio Rio-São Paulo e a Taça dos Campeões Estaduais Rio–São Paulo, torneios interestaduais com ênfase nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, pudessem ser considerados torneios nacionais, visto que, no período inicial do futebol brasileiro, parte das principais competições eram centradas no eixo Sul-Sudeste.[64] Odir Cunha reiterou no seu dossiê que não é necessário campeonatos longos para o reconhecimento, respeitando as condições econômicas do período, citando como exemplo os títulos italianos do Genoa Cricket and Football Club.[64]

Por se tratar de um país com proporções continentais, os custos de viagens interestaduais eram elevados no período, e por essa razão, muitos torneios foram regionalizados, e sua classificação com torneio nacional pode eventualmente precisar de uma análise individualizada. Por exemplo, em 23 de dezembro de 2010, o presidente da Portuguesa, Manuel da Lupa reiterou a vontade de solicitar o reconhecimento dos títulos do Torneio Rio-São Paulo, porém Cunha afirmou não ver possibilidade de reconhecimento do pedido.[20] Em 1967, o torneio incluiu times de outros estados, e recebeu o nome de Torneio Roberto Gomes Pedrosa, que foi posteriormente unificado como Campeonato Brasileiro.[65]

Já em relação aos times que disputaram o Torneio Norte-Nordeste de Futebol, a alegação dos clubes é de que a competição não se tratava de um torneio regional, mas sim de um projeto de nacionalização do futebol brasileiro promovido pela Confederação Brasileira de Desportos, e por essa razão, deveria ser considerado como Campeonato Brasileiro.[31]

Campeonato Brasileiro de 1987

Ilustração do Troféu Copa União, oferecido pela revista Placar ao campeão do Módulo Verde, vencido pelo Flamengo, em 1987.

A unificação de títulos do Campeonato Brasileiro intensificou a disputa pelo título de 1987 entre o Flamengo e o Sport. Em 21 de fevereiro de 2011, a CBF reconheceu o Flamengo como campeão brasileiro de 1987, utilizando-se como base a RDP 03/2010.[66] No dia 14 de junho de 2011, a CBF acata uma decisão da 10ª Vara da Justiça Federal, e voltou a reconhecer apenas o Sport como campeão brasileiro daquele ano.

Com a decisão, o Flamengo recorreu, e no dia 4 de março de 2016, o Supremo Tribunal Federal não aceitou a divisão do título, e reconheceu o Sport como único campeão de 1987.[67] Após recurso do Flamengo em relação ao posicionamento ocorreu em 18 de abril de 2017, que manteve a decisão anterior.[68][69]

Em 5 de dezembro de 2017, o STF ratificou a decisão anterior.[70] Em 16 de março de 2018, a decisão foi homologada em última instância, e, portanto, não há mais a possibilidade de recurso da decisão.[71][72] Atualmente, a CBF expressa o Flamengo como campeão da Copa União de 1987, diferenciando-a dos títulos brasileiros; ou seja, como um título nacional à parte.[8]

Brasileirão Assaí 50 anos

Em 2021, a CBF lançou a marca "Brasileirão Assaí 50 anos". Segundo a instituição, "O Brasileirão Assaí 50 anos marca o tempo de existência do Campeonato Brasileiro com este nome, ou seja, desde 1971".[nota 2] A entidade ressaltou, porém, que os títulos anteriores são reconhecidos como edições do Brasileiro.[73][74]

Ver também

Notas e referências

Notas

  1. A CBD nunca rotulou oficialmente as suas competições de clubes com a nomenclatura "Campeonato Brasileiro". Com a criação da CBF, a nova entidade passou a rotular assim a principal disputa de clubes do país no final da década de 1980.
  2. Em 1971, o nome oficial era Campeonato Nacional de Clubes, conforme batizado pela CBD.

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