Consoante pré-nasalizada
Consoantes pré-nasalizadas, como o [mb], são sequências fonéticas de uma consoante nasal e uma obstruinte (geralmente oclusiva) que se comportam fonologicamente como consoantes simples, isto é, como uma única consoante.
A principal razão para considerá-las consoantes simples, em vez de uma sequência de duas consoantes (como seria no inglês finger ou member), reside em seu comportamento dentro do sistema fonológico da língua que as possuem. Línguas com consoantes pré-nasalizadas podem ser encontradas sobretudo nas línguas indígenas da América do Sul, da África subsaariana e da Oceania.
Devido à dificuldade adicional na articulação e no tempo, fricativas e sonorantes pré-nasalizadas não são tão comuns quanto oclusivas ou africadas pré-nasalizadas, e a presença das primeiras implica as últimas.[1] Apenas três línguas (cingalês, fula, selayarês) foram relatadas como tendo contraste entre consoantes pré-nasalizadas (NC) e seus grupos consonantais correspondentes (NC).[2][3]
Distribuição geográfica
África
As línguas bantu, localizadas na África subsaariana, são famosas por suas oclusivas pré-nasalizadas (o "nt" na própria palavra "bantu" é um exemplo). O político ganês Kwame Nkrumah tinha uma oclusiva pré-nasalizada em seu nome, assim como a capital do Chade, N'Djamena (as oclusivas pré-nasalizadas africanas são frequentemente escritas com apóstrofos na transcrição do alfabeto latino, embora isso às vezes possa indicar consoantes nasais silábicas). O som [ŋ͡mg͡b] também pode ser encontrado em aproximadamente 90 línguas na África.[4]
Leste Asiático
Nas línguas Min do sul, como o Teochew, também são encontradas oclusivas pré-nasalizadas.[5][6][7]
Consoantes pré-nasalizadas são amplamente utilizadas nas línguas loloish da família lolo-birmanesa, como o yi e o naxi. A tabela a seguir ilustra as consoantes pré-nasalizadas no yi do norte.
| Caracteres Yi | Pinyin oficial | IPA | Significado |
|---|---|---|---|
| ꂃ | nbo | [ᵐbo˧] | saia |
| ꅝ | ndo | [ⁿdo˧] | bebida |
| ꈾ | mge | [ᵑɡɤ˧] | trigo sarraceno |
| ꌅ | nzy | [ⁿd͡zz̩˧] | controlar |
| ꎧ | nry | [ⁿɖ͡ʐʐ̩˧] | vinho, licor |
| ꐳ | nji | [ⁿd͡ʑʑ̩˧] | rápido |
Europa
Em grego e tsakoniano, as sequências ortográficas μπ, ντ γκ e γγ são frequentemente pronunciadas como oclusivas sonoras pré-nasalizadas [ᵐb], [ⁿd], e [ᵑɡ], respectivamente, especialmente na fala formal e entre falantes mais velhos. Entre falantes atenienses mais jovens, a pré-nasalização frequentemente desaparece e, na fala rápida, a oclusiva sonora pode ser substituída por uma fricativa.[8][9]
América do Sul
A língua tupi, falada no Brasil, apresentava tais consoantes. A palavra para cobra, por exemplo, era mboi, o que gerou nomes como Boituva, Boiguaçu, Boicininga etc no português brasileiro.[10]
A língua guarani também tem um conjunto de oclusivas pré-nasalizadas que se alternam alofonicamente com contínuas nasais simples; elas aparecem dentro ou no início de uma palavra, à esquerda de uma vogal tônica que seja oral.
Sul da Ásia
As línguas indo-arianas cingalês e dhivehi têm oclusivas pré-nasalizadas. A escrita cingalesa tem versões pré-nasalizadas de /g/, / ʥ /, /ɖ/, /d̪/ e /b/. O cingalês é uma das três únicas línguas relatadas como tendo contraste entre consoantes pré-nasalizadas e seus grupos consonantais correspondentes (como [mb], por exemplo, em vez de [mb]), junto com a língua fula e a língua selayarese, embora a natureza desse contraste seja debatida.[2][3] Por exemplo,
O malaio do Sri Lanka mantém contato com o cingalês há muito tempo e também desenvolveu oclusivas pré-nasalizadas. Os espectrogramas mostram a palavra gambar com uma oclusiva pré-nasalizada e a palavra sambal com uma sequência de oclusiva nasal+sonora, ainda não pré-nasalizada. A diferença no comprimento da parte [m] é claramente visível. A nasal na palavra pré-nasalizada é muito mais curta do que a nasal na outra palavra. Isso reforça a ideia de que as consoantes pré-nasalizadas devem ser tratadas como um único segmento.
Essa informação fonética é complementada por evidências fonológicas: a primeira vogal em gaambar é alongada, o que só acontece em sílabas abertas no malaio do Sri Lanka (sílabas que não terminam em consoante). A silabificação de gambar deve ser, portanto, ga.mbar, e a silabificação de sambal, sam.bal.
Transcrição
Quando não ambíguas, as consoantes pré-nasalizadas podem ser transcritas simplesmente como ⟨mb⟩, por exemplo. No Alfabeto fonético internacional, uma barra de ligação pode ser usada para especificar que esses são segmentos únicos, como em ⟨m͜b⟩. Outra prática comum de transcrição é grafar da seguinte forma: ⟨ᵐb⟩, com um sobrescrito indicando o som nasal. Uma antiga convenção do alfabeto fonético era marcar a nasal como 'curta' até que os sinais curtos e não silábicos divergissem, como em ⟨m̆b⟩.
Referências
- ↑ Silverman (1995):65
- ↑ a b Feinstein, Mark (1979). «Prenasalization and Syllable Structure». Linguistic Inquiry. 10 (2): 245–278. JSTOR 4178108. Consultado em 31 de janeiro de 2024
- ↑ a b Riehl, Anastasia. «NC type combination patterns». The Phonology and Phonetics of Nasal Obstruent Sequences (PDF) (PhD)
- ↑ «PHOIBLE 2.0 - Consonant ŋmɡb». phoible.org. Consultado em 28 de maio de 2022
- ↑ Norman, Jerry (janeiro 1974). «The Initials of Proto-Min». The Chinese University of Hong Kong Press. Journal of Chinese Linguistics. 2 (1): 27–36
- ↑ Norman, Jerry (maio 1973). «Tonal Development in Min». The Chinese University of Hong Kong Press. Journal of Chinese Linguistics. 1 (2): 222–238
- ↑ Dai, Ligang (abril 2005). 閩語的歷史層次及其演變. [S.l.]: China Social Sciences Press
- ↑ Arvaniti, Amalia (1999). «Illustrations of the IPA: Modern Greek» (PDF). Journal of the International Phonetic Association. 29 (2): 167–172. doi:10.1017/s0025100300006538. Cópia arquivada (PDF) em 3 de março de 2016
- ↑ Arvaniti, Amalia (2007). «Greek Phonetics: The State of the Art» (PDF). Journal of Greek Linguistics. 8: 97–208. CiteSeerX 10.1.1.692.1365
. doi:10.1075/jgl.8.08arv. Cópia arquivada (PDF) em 11 de dezembro de 2013
- ↑ NAVARRO, Eduardo de Almeida (2005). Método moderno de tupi antigo: a língua do Brasil dos primeiros séculos 3ª ed. São Paulo: Global Editora. 464 páginas. ISBN 9788526010581