Campanha do Deserto

Campanha do Deserto
Data1878 – 1885
LocalPampa e Patagônia
DesfechoVitória argentina
Mudanças territoriaisA Argentina anexa a maior parte da Patagônia.
Beligerantes
Argentina República da Argentina
Aliados Mapuche e Tehuelche
Mapuche
Tehuelche
Entre outros
Comandantes
Argentina Julio Argentino Roca
Argentina Nicolás Levalle
Argentina Eduardo Racedo
Argentina Napoleón Uriburu
Argentina Hilario Lagos
Argentina Conrado Villegas
Argentina Rufino Ortega
Argentina Lorenzo Vintter
Argentina Liborio Bernal
Manuel Namuncurá Rendição (militar)
Sayhueque
Inacayal

A Conquista do Deserto ou Campanha do Deserto foi uma campanha militar levado a cabo pelo governo da República Argentina, sob as ordens do general e futuro presidente Julio Argentino Roca, contra os povos mapuche, tehuelche e ranquel, com o objetivo de obter o domínio territorial do Pampa e Patagônia oriental, até então sob controle indígena, denominado Wall Mapu.[1]

No sentido histórico mais amplo, o termo inclui também as Campanhas prévias à Conquista do Deserto, ou seja, ao conjunto de campanhas militares levadas a cabo pelos colonizadores espanhóis e os governos provinciais argentinos contra estes mesmos povos, antes da grande campanha de 1879.[1]

A atuação indígena no sul durante o século XIX

Agência indígena no sul da Argentina no século XIX

A agência indígena no sul da Argentina durante o século XIX refere-se à capacidade de ação política, militar, econômica e diplomática exercida pelos povos indígenas no contexto da expansão territorial do Estado argentino e do processo de consolidação nacional. Longe de atuarem somente como vítimas passivas da violência estatal, diferentes grupos indígenas desempenharam papéis ativos nas disputas políticas, nas negociações com autoridades criollas e nas estratégias de resistência e adaptação diante do avanço da fronteira.[1][2]

Após a independência argentina, o território ao sul da chamada “fronteira interna” — especialmente as regiões do Pampa e da Patagônia — era ocupado por povos indígenas como os mapuches, tehuelches e huilliches. Esses espaços eram habitados por populações diversas, muitas delas influenciadas pelo processo de araucanização, que introduziu novas formas de organização política, militar e econômica. Durante grande parte do século XIX, a presença indígena constituiu um elemento central nos debates sobre soberania, civilização e construção do Estado-nação.[1][2]

Os povos indígenas do sul da Argentina desenvolveram estruturas políticas complexas, frequentemente organizadas em confederações lideradas por caciques de grande prestígio. Essas lideranças exerciam autoridade sobre amplos territórios e populações numerosas, articulando alianças internas e externas. Caciques como Juan Calfulcurá, Manuel Namuncurá, Juan Catriel, Valentín Saygüeque, Feliciano Purrán atuaram como interlocutores políticos reconhecidos por governos provinciais e nacionais, negociando tratados de cessar-fogo e acordos comerciais.[1][2][3][4]

Essas confederações possuíam sistemas próprios de hierarquia militar, administração e diplomacia, o que lhes permitiu intervir de forma estratégica nas disputas entre diferentes facções criollas, especialmente durante os conflitos entre Buenos Aires e a Confederação Argentina.[5][4]

Esses povos tiveram agência nas negociações com o poder do Estado emergente da Argentina. Ao longo das décadas de 1850 e 1860, líderes indígenas firmaram tratados de paz, alianças militares e acordos comerciais, avaliando propostas concorrentes conforme seus interesses territoriais e econômicos. Em alguns casos, os indígenas apoiaram governos ou caudilhos provinciais em troca do reconhecimento da posse de terras, da liberdade de comércio e da manutenção de suas estruturas sociais.[6]

Essas relações eram marcadas por pragmatismo político e constante reavaliação, uma vez que os projetos do Estado argentino tendiam progressivamente à eliminação da autonomia indígena.[1][4]

A atuação indígena também foi central no plano econômico. Os malones — incursões armadas destinadas à captura de gado — integravam um sistema de circulação de mercadorias que conectava o interior argentino, o Chile e os territórios indígenas. Essa prática sustentava a economia de diversos grupos e reforçava seu poder militar e político. Havia frequentemente a captura de mulheres brancas que eram submetidas a inserção no grupo indígena.[4][5][6]

No campo militar, os indígenas desenvolveram estratégias eficazes de guerra móvel, reconhecimento territorial e uso do ambiente natural, o que dificultou por décadas o controle estatal sobre as regiões do sul. A resistência armada indígena contribuiu para a instabilidade das fronteiras e obrigou o Estado a investir na profissionalização do Exército e em novas tecnologias militares.[5]

Declínio da autonomia indígena e Campanha do Deserto

A partir da década de 1870, com o fortalecimento do Estado nacional e a consolidação de um discurso que associava civilização ao progresso europeu, a política indígena passou de uma lógica de negociação para uma ofensiva militar sistemática. A chamada Campanha do Deserto, liderada por Julio Argentino Roca, resultou no massacre, aprisionamento e deslocamento forçado de populações indígenas, bem como na perda definitiva de sua autonomia territorial. A revista Revue des Deux Mondes auxiliou como uma mediadora cultural, difundindo na Europa uma imagem da Argentina alinhada aos valores do liberalismo e da civilização europeia. Os indígenas são retratados como “selvagens anacrônicos”, cuja eliminação ou submissão seria necessária ao progresso nacional.[3]

Apesar da derrota militar, a agência indígena permanece evidente na resistência prolongada, nas tentativas de adaptação às novas condições impostas pelo Estado e na centralidade que essas populações tiveram na definição das políticas territoriais e militares argentinas do século XIX.[3][4]

Referências

  1. a b c d e f Maria Heloisa Lenz (2006). «O papel de La Conquista del Desierto na construção do Estado argentino, no século XIX». Ensaios FEE - Revista Estudos de Planejamento (Governo do Rio Grande do Sul). Consultado em 23 de fevereiro de 2024 
  2. a b c Passetti, Gabriel (2005). «De "Civilização E Barbárie"às "Campanhas Do Deserto". Relações Políticas E Guerras Entre Indígenas E Criollos No Sul Da Argentina (1852-1885)». Diálogos - Revista do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História (3): 223–227. ISSN 1415-9945. Consultado em 19 de dezembro de 2025 
  3. a b c Soares, Gabriela Pellegrino (5 de abril de 2015). «Perspectivas de um correspondente sobre a Campanha do Deserto: A Revue des Deux Mondes e a missão cultural francesa na Argentina oitocentista». Revista de fontes (3): 81–88. ISSN 2359-2648. doi:10.34024/fontes.2015.v2.9172. Consultado em 1 de dezembro de 2025 
  4. a b c d e Pompeu, Ana Carollina Gutierrez (17 de dezembro de 2020). «TERRITORIALIZAÇÃO DO ESPAÇO PAMPEANO-PATAGÔNICO NA ARGENTINA (1870 - 1880): DA CAMPANHA DO DESERTO À LEI DE TERRITÓRIOS NACIONAIS.». Boletim Gaúcho de Geografia (1). ISSN 2357-9447. Consultado em 1 de dezembro de 2025 
  5. a b c Pompeu, Ana Carollina Gutierrez (21 de dezembro de 2024). «Questão de índios" e "questão de fronteiras": relatos epistolares de Miguel Malarin a Julio Roca sobre a Campanha do Deserto». Revista Extraprensa (2): 118–138. ISSN 2236-3467. doi:10.11606/extraprensa2024.230475. Consultado em 1 de dezembro de 2025 
  6. a b Pompeu, Ana Carollina Gutierrez (21 de dezembro de 2024). «Questão de índios" e "questão de fronteiras": relatos epistolares de Miguel Malarin a Julio Roca sobre a Campanha do Deserto». Revista Extraprensa (2): 118–138. ISSN 2236-3467. doi:10.11606/extraprensa2024.230475. Consultado em 29 de novembro de 2025 

Ligações externas