Concoide de Nicomedes

[a] (azul); [b] (verde); [c] (vermelho).
A concóide de Nicomedes é uma curva plana concebida pelo matemático grego Nicomedes, que viveu aproximadamente na mesma época que Arquimedes, no século II a.C. O nome “concóide”, proveniente da palavra grega antiga “κογχοειδής”, refere-se ao facto de a forma da curva lembrar o perfil de uma concha.[1] É um tipo de concóide cujos raios vetores, traçados a partir de um ponto fixo, intercetam uma reta (denominada “base”) a uma distância constante.[2]
Dada uma reta base paralela ao eixo polar, situada a uma distância da origem, e uma distância fixa que se situa sobre cada raio vetor a partir do ponto onde este cruza a reta base (tanto para trás como para a frente), a equação em coordenadas polares da concóide de Nicomedes é:
que, em coordenadas cartesianas, assume a forma:
A relação entre os parâmetros e determina o aspeto dos dois ramos da curva.[3]
Construção

Fixa-se um ponto (chamado polo) e uma linha reta distante de . Considera-se agora uma segunda reta genérica que passa por e que interceta a reta em . Nesta reta, de ambos os lados em relação a , marcam-se dois segmentos , cada um com comprimento . O lugar geométrico dos pontos e , obtidos ao rodar a reta que passa por , denomina-se concóide de Nicomedes. A parte da curva mais afastada de (ou seja, ) denomina-se ramo externo; e a outra parte recebe o nome de ramo interno.
É imediato verificar que, para um sistema de coordenadas polares, a equação da concóide assume a forma:
Fazendo coincidir o ponto com a origem de um sistema de eixos cartesianos , tomando uma reta base paralela ao eixo a uma distância da origem, e uma distância a aplicar sobre os raios vetores, a equação cartesiana da curva é:
Por outro lado, as equações paramétricas assumem a forma:[4]
Construção de tangentes e normais

René Descartes, na sua obra “La Géométrie” (A Geometria)[5], explica um método que permite desenhar a normal e, consequentemente, a tangente da concóide de Nicomedes.
Expõe-se aqui brevemente o método:
- Pretende-se traçar a normal de uma concóide de Nicomedes com polo e módulo num ponto .
- A reta diretriz desta concóide chamar-se-á , onde é tal que e são perpendiculares a .
- Desenhar o segmento de modo que seja a interseção entre as retas e .
- Marcar o ponto de maneira a que pertença a e .
- Marcar o ponto na reta perpendicular a que passa por , de modo que .
- A reta é, então, a normal à curva em .
Trissecção de um ângulo

A curva pode ser utilizada para resolver o problema da trissecção do ângulo. Seja um ângulo arbitrário. A partir de um ponto qualquer do lado , traça-se a perpendicular ao lado , e considera-se a concóide construída sobre a reta em relação ao polo com constante .
A reta paralela a traçada a partir de encontra o ramo externo da concóide em . Unindo a , tem-se então que:
O inconveniente deste procedimento é que obrigaria a traçar uma concóide à medida para cada ângulo que se deseja trissectar, embora baste utilizar o método neusis para ajustar uma régua com duas marcas (situadas ao dobro da distância ) entre as retas e , a qual deve também passar pela origem. Isto não acontece com outras trissectrizes (como, por exemplo, a trissectriz de Maclaurin), que permitem trissectar qualquer ângulo com a mesma curva.
- Demonstração

Sejam o ponto de interseção de com , e o ponto médio de . Pela definição de concóide , tem-se que:
e, portanto:
Por outro lado, é um ângulo reto; logo , sendo a mediana relativa à hipotenusa do triângulo retângulo , mede metade da própria hipotenusa, ou seja:
Daqui deduz-se que os triângulos , e são isósceles e, portanto:
Mas porque são ângulos alternos internos e, portanto, , ou ainda:
como fica demonstrado.
Duplicação do cubo

A construção gráfica que permite determinar o valor de , necessário para resolver o problema da duplicação do cubo, pode ser gerada através do seguinte procedimento:[6]
- Parte-se da medida dada da aresta do cubo a duplicar, denominada .
- Constrói-se o retângulo , cuja base mede e cuja altura mede .
- Determina-se , o ponto médio de , pelo qual se traça uma reta vertical.
- Traça-se a circunferência com centro em e raio , que interseta no ponto e corta a reta vertical que passa por , abaixo de , no ponto .
- Traça-se a reta , paralela a e que passa por .
- Agora, constrói-se o ramo externo de uma concóide de Nicomedes com o ponto como polo, a reta como reta base e a distância .
- Determina-se o ponto como a interseção da concóide com a reta . A reta corta a reta no ponto .
Finalmente, verifica-se que a distância é .

De acordo com a imagem à direita, seja e, para simplificar, suponha-se que e .
Construir o retângulo segundo os dados fornecidos (para a duplicação do cubo, ); dividindo ao meio, obtém-se o ponto médio , que se une a ; em seguida, prolonga-se até encontrar o prolongamento de em .
A partir de , ponto médio de , traçar a perpendicular a e, com centro em e raio igual a (metade de ), cortar com um arco de circunferência a referida perpendicular no ponto , do lado de oposto ao retângulo . Unir a e, a partir de , traçar a reta paralela a . A concóide tem como polo, como reta base e uma distância igual a .
A concóide assim descrita encontra a reta num ponto , e as duas retas e determinam no segmento um comprimento .
Sendo o ponto de encontro da reta com a reta , mostra-se que os dois segmentos e são as duas médias proporcionais procuradas. Com efeito, definindo e , em consequência das construções realizadas, tem-se que:
E, portanto, ao unir a :
Mas, dos triângulos semelhantes e , deduz-se que . Observando que e que , e substituindo na proporção anterior, tem-se que:
A partir daqui, elevando ao quadrado, obtém-se:
E, eliminando os denominadores:
Ao operar e simplificar o resultado, chega-se a:
Ou seja:
A partir do qual:
E, sendo diferente de zero (uma vez que e são medidas de segmentos), resulta necessariamente que:
Isto é:
Da semelhança dos triângulos e , tem-se que e, portanto:
O que permite escrever:
Elevando ao cubo:
Mas , portanto:
Simplificando, obtém-se:
Então:
A terceira e a primeira igualdades, divididas membro a membro, dão:
Por sua vez, a divisão do segundo pelo primeiro membro dá:
Finalmente, resulta:
Em particular, se e , corresponde à aresta do cubo de volume duplo (relativamente ao cubo de aresta ). De facto, de (1) e (2) segue-se:
E, portanto:
Substituindo os valores de e :
Extraindo a raiz cúbica:
E, se :
- .
Ver também
Referências
- ↑ Antonio Nevot Luna (2007). Dibujo técnico y matemáticas: una consideración interdisciplinar (em espanhol). [S.l.]: Ministerio de Educación. p. 184. 368 páginas. ISBN 9788436945416. Consultado em 7 de janeiro de 2026
- ↑ Real Academia Española. «Concoide». Diccionario de la lengua española 23.ª ed.
- ↑ Weisstein, Eric W. «Concoide de Nicomedes». MathWorld (em inglês)
- ↑ Robert FERRÉOL; Jacques MANDONNET (2017). «CONCHOID OF NICOMEDES». mathcurve (em inglês). Consultado em 7 de janeiro de 2026
- ↑ René Descartes (1824). «La Géométrie». In: Victor Cousin. Œuvres de Descartes. Tome V. Paris: F. G. Levrault. pp. 311–428
- ↑ Juana Contreras; Claudio del Pino. «El problema de la Duplicación del Cubo» (PDF). Revista del Instituto de Matemática y Física (em espanhol). Universidad de Talca: Instituto de Matemática y Física