Classe S (cultura)

Classe S[1] (クラスS, Kurasu Esu), ou S kankei,[2] abreviado tanto como S quanto Esu (エス), é um termo wasei-eigo japonês do início do século XX utilizado para referir a amizade romântica entre garotas.[3] O termo também é utilizado para designar um gênero ficção feminina (少女小説, shōjo shōsetsu) que conta histórias sobre o mesmo tema, geralmente focado em relacionamentos entre senpai e kōhai onde uma garota é a veterana em relação à outra.[4] O "S" é uma abreviação que pode significar "sister" (irmã), "shōjo" (少女; lit. "jovem garota"), "sex" (sexo),[4] "schön" (alemão: belo), e "escape".[3]
Embora a Classe S possa ser amplamente descrita como uma forma de amor entre garotas,[5] ela é diferente de um relacionamento romântico ou ficção romântica, por ser usada especificamente para descrever relacionamentos platônicos baseados em fortes laços emocionais e amizade muito próxima, em vez de sexo ou atração sexual.[6]
História
Origens
Os romances ocidentais Mulherzinhas e A Little Princess foram traduzidos para o japonês em 1906 e 1910, respectivamente, para educar as garotas a se tornarem "boas esposas, mães sábias". Essas obras também ajudaram a introduzir os conceitos de laotong, irmandade, sentimentalismo e romance para o público feminino jovem no Japão, com Jo de Mulherzinhas em particular se tornando um exemplo proeminente de uma personagem moleca.[7]
A Classe S também foi influenciada pela Takarazuka Revue,[4] uma trupe de teatro exclusivamente feminina fundada em 1914.[7] A revista apresentava atrizes interpretando papéis masculinos chamados otokoyaku (男役; lit. "papel masculino") que faziam romances com personagens femininas.[8] Nessa época, o termo dōseiai (同性愛, "amor entre pessoas do mesmo sexo") foi cunhado para descrever relacionamentos butch e femme, bem como relacionamentos entre duas femmes, com as femmes sendo chamadas de ome.[9] Foi sugerido na mídia popular da época das otokoyaku da Takarazuka fez com que mulheres em relacionamentos da Classe S se tornassem homossexuais e persistissem em relacionamentos homossexuais muito depois do aceitável.[4] Jennifer Robertson argumenta que "muitas mulheres são atraídas pelas otokoyaku da Takarazuka porque ela representa uma mulher exemplar que pode negociar com sucesso ambos os gêneros e seus papéis e domínios correspondentes".[10]
A rápida criação de escolas femininas durante este período também é considerada como tendo contribuído para a Classe S: em 1913, havia 213 escolas desse tipo.[7]
Declínio e renascimento
Em 1936, a literatura da Classe S foi proibida pelo governo japonês.[11] A proibição foi suspensa após a Segunda Guerra Mundial, junto a restrições à representação de romance entre homens e mulheres em revistas femininas. Isto, combinado com o encerramento de escolas femininas em favor de escolas mistas e a integração do movimento do amor livre, levou a Classe S ao declínio como gênero literário e como fenômeno social.[12][2]
A literatura da Classe S experimentou um renascimento de popularidade no final da década de 1990. A série de light novels yuri de 1998 Maria-sama ga Miteru é creditada por reviver o gênero Classe S e é considerada um equivalente moderno de Hana Monogatari de Nobuko Yoshiya.[13]
Influência e legado
Como fenômeno social
Um artigo de 1911 no Fujin Kōron afirmou que entre sete e oito mulheres em cada dez haviam vivido relacionamentos do tipo Classe S.[11]
Os relacionamentos da Classe S eram normalmente considerados como não sendo uma expressão genuína de atração pelo mesmo sexo.[7] Enquanto essas relações permaneceram confinadas à adolescência, foram consideradas normais, até mesmo como relações espirituais.[3] Esta atitude mais tarde informaria as perspectivas contemporâneas sobre o lesbianismo no Japão: uma tolerância em relação à intimidade não sexual entre garotas e a crença generalizada de que a homossexualidade feminina é uma "fase".[14]
Como gênero literário
A Classe S teve um impacto significativo na tradição literária japonesa de retratar a amizade entre garotas, bem como no desenvolvimento da literatura lésbica japonesa e do gênero yuri de anime e mangá.[14][6]
Figuras notáveis
Nobuko Yoshiya, uma romancista lésbica japonesa ativa no movimento feminista Seitō, é considerada uma pioneira da literatura da Classe S.[15]
Ver também
Referências
- ↑ Kawano Ribeiro, Jéssica Akemi; Topan Feldman, Alba Krishna (2023). «YELLOW ROSE (1923): A CLASSE S NO JAPÃO IMPERIAL (1868–1945)». Revista Ártemis: Estudos de Gênero, Feminismo e Sexualidades. 35 (1)
- ↑ a b Shamoon, Deborah (1 de janeiro de 2009). «The Second Coming of Shôjo». Heso Magazine. Consultado em 22 de maio de 2009. Cópia arquivada em 24 de setembro de 2014
- ↑ a b c Robertson 1998, p. 68, citando:
- Hattori, Kakō; Uehara, Michikō (1925). Atarashii Kotoba no Jibiki [Dictionary of New Words] (em japonês). Tokyo: Jitsugyō no Nihonsha. pp. 83–84
- Kabashima, Tadao; Hida, Yoshifumi; Yonekawa, Akihiko (1984). Meiji Taishō Shingo Zokugo Jiten [Dictionary of New Words and Colloquialisms in the Meiji and Taishō Periods] (em japonês). Tokyo: Tōkyōdō Shuppan. p. 41. OCLC 14078498
- ↑ a b c d Robertson, Jennifer (agosto de 1992). «The Politics of Androgyny in Japan: Sexuality and Subversion in the Theater and Beyond» (PDF) 3 ed. American Ethnologist. 19 (3). 427 páginas. JSTOR 645194. doi:10.1525/ae.1992.19.3.02a00010. hdl:2027.42/136411
. Consultado em 1 de setembro de 2019. Cópia arquivada (PDF) em 20 de junho de 2020
- ↑ «Proto-Yuri Novel: Otome no Minato (乙女の港) – Part 1, Introduction and Synopsis». Okazu. 2 de março de 2014. Consultado em 15 de janeiro de 2019. Cópia arquivada em 17 de dezembro de 2018
- ↑ a b «Why Is It Always Catholic Schoolgirls in Yuri». Okazu. 18 de dezembro de 2018. Consultado em 15 de janeiro de 2019. Cópia arquivada em 15 de janeiro de 2019
- ↑ a b c d Dollase, Hiromi (2003). «Early Twentieth Century Japanese Girls' Magazine Stories: Examining Shōjo Voice in Hanamonogatari (Flower Tales)». The Journal of Popular Culture. 36 (4): 724–755. OCLC 1754751. doi:10.1111/1540-5931.00043
- ↑ Randall, Bill (15 de maio de 2003). «Three by Moto Hagio». The Comics Journal (252). Consultado em 23 de janeiro de 2008. Arquivado do original em 25 de abril de 2011
- ↑ Robertson, Jennifer (1999). «Dying to tell: Sexuality and suicide in Imperial Japan». Signs. 25 (1): 1–35. PMID 22315729. doi:10.1086/495412
- ↑ Robertson 1998, p. 82.
- ↑ a b McHarry, Mark (novembro de 2003). «Yaoi: Redrawing Male Love». The Guide. Cópia arquivada em 17 de abril de 2008
- ↑ Fujimoto, Yukari (1998). 私の居場所はどこにあるの? (em japonês). Japão: 学陽書房. ISBN 978-4-313-87011-6
- ↑ «Esu toiu kankei». Bishōjo gaippai! Wakamono ga hamaru Marimite world no himitsu (em japonês). Excite. Consultado em 5 de março de 2008. Arquivado do original em 21 de fevereiro de 2008
- ↑ a b «Women-loving Women in Modern Japan». Okazu. 22 de setembro de 2014. Consultado em 15 de janeiro de 2019. Cópia arquivada em 6 de dezembro de 2011
- ↑ Suzuki, Michiko (agosto de 2006). «Writing Same-Sex Love: Sexology and Literary Representation in Yoshiya Nobuko's Early Fiction». The Journal of Asian Studies. 65 (3): 575. doi:10.1017/S0021911806001148
Bibliografia
- Robertson, Jennifer (1998). Takarazuka: Sexual Politics and Popular Culture in Modern Japan (em inglês). Berkeley, Califórnia: University of California Press. ISBN 0-520-21150-2
- Subramian, Erin (29 de março de 2011). «Women-loving Women in Modern Japan» (em inglês). Yuricon. Consultado em 22 de setembro de 2014