Clarice Herzog

Clarice Ribeiro Chaves Herzog (São Paulo, 1941) é uma socióloga e ativista brasileira, reconhecida por sua atuação em defesa dos direitos humanos e da democracia no Brasil. Tornou-se uma das principais vozes na busca por justiça no caso do assassinato de seu marido, o jornalista Vladimir Herzog, morto em 1975 pela Ditadura Militar Brasileira.[1][2]

Biografia

Clarice Ribeiro Chaves formou-se em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) na década de 1960. Durante o período universitário, conheceu Vladimir Herzog, então estudante de Filosofia, com quem se casou em fevereiro de 1964, pouco antes do golpe militar que depôs o presidente João Goulart. Após o casamento, o casal mudou-se para Londres, onde nasceram seus dois filhos, Ivo Herzog e André Herzog. Durante o período em que viveu no Reino Unido, Clarice participou de um programa no Center of Information do Foreign and Commonwealth Office (FCO). O casal retornou ao Brasil em 1968, quando Clarice iniciou carreira na área de pesquisa e publicidade.[3]

Assassinato de Vladimir Herzog

Em 25 de outubro de 1975, Vladimir Herzog, então diretor de jornalismo da TV Cultura, apresentou-se voluntariamente ao DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo, para prestar depoimento. Horas depois, foi encontrado morto nas dependências do órgão. O regime militar declarou oficialmente que Herzog havia cometido suicídio, versão posteriormente refutada por diversas investigações e testemunhos.[4]

Clarice Herzog foi uma das primeiras a contestar publicamente a versão oficial, declarando que seu marido havia sido assassinado sob tortura. O enterro de Vladimir, realizado no Cemitério Israelita do Butantã, tornou-se um ato simbólico de resistência: contrariando a tradição judaica que reserva áreas específicas para suicidas, Clarice e familiares decidiram sepultá-lo na parte central do cemitério. Poucos dias depois, a cerimônia inter-religiosa na Catedral da Sé, em São Paulo, reuniu mais de oito mil pessoas e marcou um dos maiores atos públicos contra a repressão militar. Lideranças religiosas de diferentes credos, como o Cardeal D. Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o pastor James Wright, foram fundamentais na organização do evento.[5]

Ação judicial e reconhecimento oficial

Durante a ditadura, Clarice ingressou com uma ação declaratória contra o Estado Brasileiro, responsabilizando-o pela morte do marido. Décadas depois, Clarice continuou buscando o reconhecimento internacional do caso. Em 2009, com apoio do Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL), levou o Caso Herzog à Corte Interamericana de Direitos Humanos. Em 2018, a Corte condenou o Brasil por omissão na investigação e punição dos responsáveis, reconhecendo o assassinato de Vladimir Herzog como crime contra a humanidade. Em 2013, o atestado de óbito de Vladimir Herzog foi retificado, passando a constar oficialmente como “morte decorrente de lesões e maus-tratos sofridos em dependência do II Exército – DOI-CODI”, substituindo a versão anterior de suicídio.[6]

Atuação e legado

Clarice Herzog manteve-se ativa nas causas de direitos humanos e democracia ao longo de mais de quatro décadas. Desde 2009, atua como presidente do Instituto Vladimir Herzog, organização da sociedade civil voltada à promoção da memória, justiça e defesa dos direitos humanos.[7][8]

Em 2025, aos 83 anos, Clarice foi diagnosticada com Alzheimer. No mesmo ano, recebeu o direito a uma pensão vitalícia concedida pela Justiça Brasileira, calculada com base na remuneração que Vladimir Herzog teria direito se estivesse vivo, em reconhecimento à responsabilidade do Estado em sua morte.[9]

Referências

  1. «Estado brasileiro pede perdão oficial para Clarice Herzog, viúva de Vladimir que lutou por justiça para jornalista assassinado na ditadura». LatAm Journalism Review by the Knight Center (em inglês). Consultado em 8 de novembro de 2025 
  2. «Justiça concede pensão a Clarice Herzog, viúva de Vladimir, 50 anos após assassinato pela ditadura». CartaCapital. 5 de fevereiro de 2025. Consultado em 8 de novembro de 2025 
  3. «Filme reconta última semana de Herzog e repercussão do assassinato». Agência Brasil. 23 de outubro de 2025. Consultado em 8 de novembro de 2025 
  4. «Vladimir Herzog: a pouco conhecida trajetória do jornalista morto pela ditadura na BBC News Brasil». BBC News Brasil. 24 de outubro de 2025. Consultado em 8 de novembro de 2025 
  5. Unidade (9 de outubro de 2025). «50 anos por Vlado: ato inter-religioso na Catedral da Sé relembra resistência por Vlado e todas as vítimas da ditadura». Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. Consultado em 8 de novembro de 2025 
  6. «Comissão reconhece Clarice Herzog, viúva de jornalista morto pela ditadura, como anistiada política». G1. 3 de abril de 2024. Consultado em 8 de novembro de 2025 
  7. «Arquivos clarice herzog». Instituto Vladimir Herzog. Consultado em 8 de novembro de 2025 
  8. «A história de vida de Clarice Herzog: Mulher, profissão coragem». Museu da Pessoa. Consultado em 8 de novembro de 2025 
  9. «Justiça concede pensão a Clarice Herzog, viúva de Vladimir, 50 anos após assassinato pela ditadura». CartaCapital. 5 de fevereiro de 2025. Consultado em 8 de novembro de 2025