Clô para os Íntimos

Clô, para os Íntimos
Informações gerais
Direção Eduardo Sidney
Apresentação Clodovil Hernandes
País de origem  Brasil
Idioma original Português
Produção
Duração 30 min
Formato
Formato de imagem 480i (SD)
Exibição original
Emissora TV Manchete
Transmissão Fevereiro de 1986 – Julho de 1988

Clô, para os Íntimos foi um programa de televisão brasileiro de variedades e entrevistas, apresentado pelo costureiro Clodovil Hernandes na Rede Manchete entre fevereiro de 1986 e julho de 1988. Com supervisão de Eduardo Sidney e gravado no Rio de Janeiro, era exibido diariamente de segunda a sexta, inicialmente no fim da tarde e depois no início da noite e, por fim, no início da tarde, com duração de 30 minutos.

Antecedentes e estreia

Foi o quarto programa apresentado por Clodovil em vida e o segundo programa dele na TV Manchete, na qual ele havia conduzido, anteriormente, o programa Manchete Shopping Show, do qual foi dispensado no final de 1985 após uma série de desentendimentos.

Segundo o diretor Eduardo Sidney, o nome do programa foi tirado de uma anedota repetida pelo apresentador sobre seu nome: “Clô para os íntimos, “vil” para os inimigos e “do” para quem quiser”.[1]

Em 2 de janeiro de 1986, apesar de suas limitações financeiras, a Manchete anunciou a volta de Clodovil às telas com “Clô, para os íntimos”, um programa novo adaptando ideias velhas, com entrevistas a convidados em cenário de ateliê.[2] Inicialmente, a estreia estava prevista para o dia 27 de janeiro de 1986.[3] Porém, a estreia acabou transferida para o dia 3 de fevereiro daquele ano.[4]

Na estreia, que contou com a participação da socialite carioca Regina Marcondes Ferraz (amiga e cliente pessoal de Clodovil), o apresentador disse que estava “encantado” com o retorno à televisão em um programa seu e novo, tecendo elogios à sua equipe técnica, ao cenário elegante criado por Arlindo Rodrigues e à emissora, e prometendo um clima descontraído nas entrevistas, com muito bom humor, e também revelar o lado íntimo dos convidados.[5] Dividido em ambientes, o cenário-ateliê do programa era composto de uma saleta informal para convidados em geral e de um canto especial para chá com convidados especiais.[6]

Pausa e mudança de horário

Em maio de 1986, a fim de cobrir a Copa do Mundo FIFA em seu espaço físico, concorrendo com a TV Globo por audiência, a Manchete reorganizou sua programação e deu férias a Clodovil e a outros apresentadores da emissora, que só retornariam em julho daquele ano.[7]

No final de julho, Clodovil se mostrou insatisfeito com a ideia de Maurício Sherman de mudar o horário do seu programa noturno das 19h para às 13h, em razão da reorganização da faixa vespertina da Manchete, e ameaçou deixar o programa.[8] Contudo, a mudança de horário acabou efetivamente acontecendo no início de agosto.[9]. Clodovil se recusou a gravar novos quadros, o que obrigou a emissora a exibir reprises do programa, até 11 de agosto de 1986, quando Clodovil concordou com o novo horário[10][11], com a condição de que o horário novo não abalasse a sua audiência.[12] Assim, no Rio de Janeiro, o programa de Clodovil passou a ser exibido às 13h15 na TV Manchete, mas na capital do país, na TV Brasília, era reexibido no horário antigo às 18h30.

Em setembro de 1986, a direção da Manchete estava satisfeita com os índices de audiência alcançados por Clô, para os íntimos.[13]

Conteúdo

No programa, Clodovil fazia basicamente três coisas que apreciava bastante: desenhar modelos de roupas em uma prancheta, entrevistar famosos e responder cartas de mulheres solicitando sua opinião profissional.[14] Encerrava o programa com um comentário sobre alguma notícia que o tinha impressionado. Clodovil também fazia sorteios e presenteava com tecidos de patrocinadores.[15]

Nas segundas-feiras, em seu programa, Clodovil tinha um quadro especial chamado “Confecções e Artistas da Moda”, em que mostrava com exclusividade os lançamentos do mundo da moda.[16] Havia também o quadro "Variedades" e o quadro “Clô no Camarote”.[17]

Após a mudança para o horário vespertino, o programa ganhou uma série de quadros especiais. Um mini auditório para a participação de espectadores no quadro “Clô no Camarote”, com o apresentador discutindo temas atuais com eles e com especialistas de diferentes áreas. Nas terças-feiras, Clodovil apresentava o quadro "Perfume", dando dicas de como diferenciar fragrâncias e de quando usá-las. Nas quartas-feiras, havia o quadro "Acessórios e Bijuterias", para ensinar o público feminino sobre como acessórios complementavam o vestuário. Nas quintas-feiras, o quadro "Flores", com dicas de plantio e manutenção de plantas domésticas. Finalmente, nas sextas-feiras, havia o quadro "Moda Clô", em que apresentava seu trabalho pessoal como costureiro. Em dezembro de 1986, Clodovil passou a apresentar um novo segmento no programa, às sextas-feiras, ensinando em uma cozinha um prato culinário de sua autoria aos telespectadores.[18]

Segundo Clodovil, o programa promovia um bate-papo informal e bem-humorada para a “hora do jantar”, com mulheres em casa à espera do marido e, eventualmente, com maridos que chegam, salientando que preferia que as pessoas o chamassem de “bich*” e rissem com ele, e não dele, como parte de sua filosofia de vida desde que entrou na comunicação.[19][20]

Entrevistados famosos

Em “Clô, para os íntimos”, diversas celebridades e artistas foram entrevistados por Clodovil: Maitê Proença[21]; Nana Caymmi[22]; Betty Faria[23]; Villas-Bôas Corrêa[24]; Guilherme Araújo, fundador do Baile Gay do Rio de Janeiro[25]; Fausto Silva[26]; os integrantes da banda A Cor do Som[27]; Zezé Mota[28]; Fernando Morais[29]; Saturnino Braga[30] Sandra Sá e a dupla Les Étoiles[31]; Rogéria[32], Dalal Achcar, com um clipe de Dom Quixote bailado por Natalia Makarova e por Fernando Bujones; Elba Ramalho[33]; Oswaldo Montenegro[34]; Affonso Romano de Sant’Anna[35]; Luiza Brunet[36], entre outros.

Em setembro de 1986, então com o programa sob direção de Carlos Elino, Clodovil entrevistou uma série de personalidades: o ator Juca de Oliveira, a atriz Íris Bruzzi, Elizeth Cardoso, Ney Galvão e Jimy Raw.[37]

Criticas da imprensa

Em sua estreia no programa, houve crítica negativa sobre Clodovil em parte da imprensa, como na coluna de Ferreira Netto, segundo a qual o programa entrava na “regressiva”, pois o apresentador abusava de seu mau-humor, caiu em desgraça junto aos “carimbados” da Bloch e deveria “sambar” logo.[38]

Ferreira Neto também acusou Clodovil de fazer de seu espaço no programa uma “janela aberta para a propaganda do homossexualismo” e de usar da televisão “indevidamente” para conseguir “novos adeptos”, após o apresentador fazer um comentário sobre o polêmico filme francês “Je vous salue, Marie” (1985), relacionando-o com uma questão particular, no caso uma relação amorosa descrita por ele como confusa.[39] Ainda, o jornalista acusou Clodovil de ser uma figura perniciosa por se insinuar em outros assuntos que não fossem o de sua especialidade, isto é, a costura.[40]

Em outubro de 1986, Cora Rónai criticou Clodovil descrevendo como um personagem paradoxal, escrevendo que ele regia seu programa dentro de um “conservadorismo quase puritano”, sendo “um homossexual que defende o homossexualismo, mas no geral ataca homossexuais”. Porém, elogiou-o como um apresentador com convidados interessantes, uma intimidade fantástica com a câmera e com um estilo muito próprio de conversa, “meio com o público, meio consigo mesmo”.[41]

Censura por trejeitos

Em março de 1986, o programa "Clô para os íntimos", que estreava às 18h50 diariamente, entrou na mira da Censura Federal, cujo chefe Coriolano Fagundes opinou que Clodovil “exagerava em seus trejeitos” em horário considerado “impróprio”, intimando a emissora a colocá-lo em um horário mais tarde ou tirá-lo do ar.[42]

Demissão e fim do programa

Em julho de 1988, ao vivo no programa “Clô, para os íntimos”, Clodovil chamou a então Assembleia Nacional Constituinte de “Prostituinte”, e o último episódio foi ao ar em 16 de julho daquele ano.[43][44]

O apresentador alegou que a demissão ocorreu por "razões pessoais", porém o diretor artístico da emissora Manchete, Jayme Monjardim, declarou à imprensa que sua saída decorreu de uma situação “insustentável”, uma vez que Clodovil foi o responsável por muitas advertências sérias à Manchete pela Censura, o que dificultou a participação de convidados.[45]

Sobre a episódio polêmico, muito mais tarde, em 2007, em entrevista a Abujamra, Clodovil Hernandes afirmou que Ulysses Guimarães, então o presidente da Assembleia Nacional Constituinte, ligou pessoalmente a Adolpho Bloch pedindo a sua demissão por ter chamado a Constituinte de 1988 de “Prostituinte”.

Demitido, Clodovil só voltaria a receber um programa seu novamente na televisão brasileira em agosto de 1992, ou seja, quatro anos após, quando a TV Manchete o contratou para "Clodovil Abre o Jogo".[46]

Referências

  1. Jornal do Brasil (RJ). "Para os íntimos e para os inimigos", por Ricardo Soares. 24 de fevereiro de 1986.
  2. Tribuna da Imprensa (RJ). "Férias na TV". 2 de janeiro de 1986.
  3. Correio de Notícias (PR). "Os novos lançamentos da Manchete", por Ferreira Netto. 19 de janeiro de 1986.
  4. Correio de Notícias (PR). "A semana e as novidades", por Ferreira Netto. 28 de janeiro de 1986.
  5. Tribuna da Imprensa (RJ). "A volta de Clodovil". 25 de fevereiro de 1986.
  6. Cidade de Santos (SP). "As novidades, já em fevereiro". 12 de fevereiro de 1986.
  7. Cidade de Santos (SP). Coluna de Ferreira Netto. 30 de maio de 1986.
  8. Cidade de Santos (SP). Coluna de Ferreira Netto. 29 de julho de 1986.
  9. Cidade de Santos (SP). Coluna de Ferreira Netto. 31 de julho de 1986.
  10. Cidade de Santos (SP). "Clô de novo", por Ferreira Netto. 11 de agosto de 1986.
  11. Correio Braziliense (DF). "Informes APDL". 4 de agosto de 1986.
  12. Correio Braziliense (DF). Bate-Rebate. 15 de agosto de 1986
  13. Diário de Pernambuco. "Bate rebate", por Ferreira Netto. 11 de setembro de 1986.
  14. Jornal do Dia (MT). Sociedade / Roteiro. Destaques - Canal 8, por Oliveira Leal. 25 de fevereiro de 1986.
  15. A Tribuna (SP). Variedades. Em Cartaz. 25 de fevereiro de 1986.
  16. Cidade de Santos (SP). Destaques de Hoje. 18 de agosto de 1986.
  17. Cidade de Santos (SP). Destaques - Clô para os íntimos. 20 de agosto de 1986.
  18. Braziliense - Clô para os íntimos. 18 de agosto de 1986.
  19. Manchete (RJ). Clô para os íntimos, por Glória Alvarez. Página 55. 15 de março de 1986.
  20. Manchete (RJ). Clô para os íntimos, por Glória Alvarez. Página 56-57. 15 de março de 1986.
  21. Jornal do Commercio (AM). Maitê e Clodovil para os íntimos. Coluna "Por dentro da TV", de Hildegard Angel. 17 de maio de 1987.
  22. Tribuna da Imprensa (RJ). Bate-Rebate. Coluna de Ferreira Netto. 08 de junho de 1987.
  23. Jornal A Luta Democrática. Coluna TV, por Chico Martins. 18 de setembro de 1986.
  24. Cidade de Santos (SP). Destaques - Clô para os íntimos. 20 de agosto de 1986.
  25. Cidade de Santos (SP). Destaques - Clô para os íntimos. 22 de agosto de 1986.
  26. Cidade de Santos (SP). Bate-rebate. "Fausto no Rio". 3 de novembro de 1986.
  27. Cidade de Santos (SP). Destaques. 5 de dezembro de 1986.
  28. Cidade de Santos (SP). Destaques. 22 de agosto de 1986.
  29. Diário de Pernambuco. Variedades. 19 de março de 1986.
  30. Diário de Pernambuco. Diversões - A caráter. 21 de abril de 1988.
  31. Correio Braziliense. Clodovil quebra tabus na TV. 28 de fevereiro de 1986.
  32. Correio Braziliense. Tele Visão - As fofocas de Clodovil e Ortega em "Conexão". 3 de maio de 1986.
  33. Correio Braziliense. CLODOVIL - Clô para os íntimos. 18 de agosto de 1986.
  34. Correio Braziliense. Mais valem as estrelas de Clodovil e Danuza. 13 de novembro de 1986.
  35. Correio Braziliense. TV A toda hora. 9 de dezembro de 1986.
  36. Correio Braziliense. TV A toda hora. 26 de março de 1987.
  37. Jornal dos Sports (RJ). Clô para os íntimos. 1 de setembro de 1986.
  38. Correio de Notícias (PR). Clô na marca. 10 de julho de 1987.
  39. Cidade de Santos (SP). Coluna de Ferreira Netto. 28 de fevereiro de 1986.
  40. Cidade de Santos (SP). "Cara de pau". Coluna de Ferreira Netto. 7 de maio de 1986.
  41. Jornal do Brasil (RJ). Clodovil puritano, por Córa Ronai. 9 de outubro de 1986.
  42. Jornal O Pioneiro (RS). Registros. 22 de março de 1986.
  43. Correio Braziliense. Coluna de Ferreira Netto. Bandeirantes está pendurada na corda bamba. 15 de julho de 1986.
  44. Tribuna da Imprensa (RJ). Ferreira Netto no Ar. Não tem volta. 15 de julho de 1988.
  45. Diário do Pará. Demitido, por Elanir Pessoa Gomes da Silva (Lana). 24 de julho de 1988.
  46. O Pioneiro (RS). Lazer - Clodovil volta à Manchete quatro anos depois. 6 de agosto de 1992.