Cinira Polônio

Cinira Polônio
Nome completoCinira Polonio
Nascimento17 de junho de 1857
Rio de Janeiro, Brasil
Morte3 de abril de 1938 (80 anos)
Rio de Janeiro
Gênero(s)valsa
Instrumento(s)piano, harpa
Período em atividade1879–1912
Outras ocupaçõesdramaturga, empresária, atriz, compositora, maestrina

Cinira Polônio (Rio de Janeiro, 17 de junho de 1857 – Rio de Janeiro, 3 de abril de 1938) foi uma atriz, pianista, compositora, maestrina, dramaturga e empresária brasileira. Foi uma das pioneiras pela defesa dos direitos do autor teatral.[1][2]

Biografia

Juventude

Nasceu e cresceu no centro da cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente, na casa comercial "Grão-Turco", localizada na rua do Ouvidor.[3] Apesar de não serem abastados, seus pais eram comerciantes e donos do Grão-Turco, loja que vendia brinquedos, charutos, perfumaria e outras miudezas. A loja, pela localização em um ponto valorizado e histórico da cidade, demonstrava o crescimento e estabilidade financeira da família Polônio.[4] Outros membros da família de Cinira, como tias e primas, também moravam junto com ela.

Sendo filha única, Cinira, diferente de suas primas, raramente trabalhava na loja de seus pais, assim como estudou em colégios particulares. Seu pai também tinha o habito de levá-la aos teatros da cidade, além de viagens que ele fazia para a Europa.[5] Em 1873, numa destas viagens para a Itália, Cinira escreve à sua mãe que "em breve principiarei aos meus estudos". Apesar de não deixar claro na carta quais estudos ela se refere, é provável que sejam estudos musicais.[6]

O seu contato com a natureza artística pode ser explicado pela tradição cultural de seus pais, além das relações que a família tinha com alguns artistas do Teatro Lírico que se hospedavam na casa da família, o que pode ser favorecido, desde cedo, o contato com Cinira com o mundo das artes, isentando-a do trabalho na loja de sua família.[6]

Com a morte de seu pai em 1874, em Paris, Cinira continuou a estudar na Europa. Este contato com a cultura europeia propiciou a Cinira um nível cultura semelhante aos adquiridos por moças de família rica. Ela tocava piano, harpa, falava italiano e francês fluentemente.[6][7]

Em 1879, já no Brasil, fez sua estreia na ópera Fausto, de Charles Gounod, no papel de Margarida, no extinto Teatro D. Pedro II, no Rio de Janeiro. Contudo, não foi bem-sucedida, e retornou para Paris. Em 1886, retornou ao Brasil e foi requisitada pelo empresário Jacinto Heller para reestrear em A canção de Fortúnio, de Jacques Offenbach, dedicando a alguns meses o repertório de opereta. No fim de 1886, havia participado da revista O carioca, de Artur Azevedo – notabilizando sua imitação de Sarah Bernhardt. Integrou o elenco de mais duas revistas de Azevedo: Mercúrio, estreada em 1887, e O homem, do mesmo ano, escrita em parceria com Moreira Sampaio a partir do romance homônimo de Aluísio Azevedo.[8]

Cinira Polônio não era casada, e levava uma vida amorosa muito ativa, descrita por Fialho de Almeida como "louca variabilidade amorosa". Lafaiete Silva, um cronista da época, cita que, por motivos amorosos, deixou o Brasil em 1888, voltando a morar na Europa por mais 12 anos.[9][10]

Sucesso em Portugal e retorno ao Brasil

Em Portugal, se tornou empresária, atividade que também exerceu no Brasil, e realizou diversas aparições em teatros como atriz. Foi contratada por Fernando Palha para o Teatro da Trindade, apresentando-se na opereta Noite e dia e na O burro do sr. Alcaide, além de participações em operetas como Retalhos de Lisboa, de Eduardo Schwalbach. Esteve também em cartaz Teatro da Rua dos Condes e no Teatro da Avenida, recebendo elogios do rei Carlos I de Portugal por sua atuação em A grã-duquesa de Gerolstei. Suas interpretações de cançonetas francesas também agradavam ao público.[11]

Participou também como atriz principal no filme A Dança Serpentina, do diretor Aurélio Paz dos Reis, protagonizando uma dança filmada no quintal do cineasta. Segundo Artur Azevedo, "toda a gente em Lisboa se apaixonou por ela."[12]

Retornou ao Brasil em 1900, e começou a se aproximar da imprensa por meio de cartas enviadas à diversos jornalistas, convidando-os para os espetáculos e mencionando a "regeneração da arte", mantendo uma relação amistosa e educada com o pessoal deste meio – mesmo com as críticas. Essas qualidades, juntamente com sua inteligência e elegância, cunharam ela o termo "divette", estando sempre elegantemente apresentada à moda francesa.[13][14]

Em 1902, apresentou a peça O príncipe da Bulgária no papel de "Norah, a domadora americana", sendo os aplausos da plateia descrita por Artur Azevedo como "que só se exibia nas grandes noites do Lírico e em récitas de artistas ilustres".[15] No ano de 1904, participava da opereta Cá e lá, de Tito Martins e Bandeira de Gouveia. Na estreia da opereta, atuou como maestrina. Criou sete dos 48 números musicais do espetáculos, uma delas tendo Chiquinha Gonzaga como compositora.[16]

Os espetáculos por sessões

Em 1908, com sua bagagem cultural europeia, foi responsável pela implantação do espetáculo por sessões — Anteriormente, os atores e atrizes das óperas e outros espetáculos trabalhavam duramente durante todos os dias, sem um dia sequer de descanso, normalmente atuando em mais de um personagem. Os espetáculos geralmente não contavam com patrocínios nem subvenções, e dependiam totalmente dos empresários, responsável por diversas funções, entre elas, a produção do espetáculo e contratação de atores. A única fonte de renda era a receita dos ingressos, que era diretamente proporcional à qualidade do espetáculo, já que um bom espetáculo era o que agravada a plateia.[17]

Em vista das dimensões das companhias de teatro e da magnitude dos espetáculos, os gastos e o risco das estreias pelos empresários acrescentava ansiedade no elenco teatral. Havia um esgotamento físico do elenco, alguns ficando afônicos e visivelmente cansados nas óperas em série. As condições arquitetônicas dos teatros também contribuíam para o cansaço e para a má qualidade dos espetáculos, sendo muitas casas de espetáculos desconfortáveis, tanto para a plateia quanto para os atores. Apesar disso tudo, estas condições desfavoráveis não afastava o público.[17] Contudo, a novidade implantada por Cinira não foi muito bem aceita por inúmeros críticos, que "consideraram a causa da decadência do teatro nacional por trazer grandes modificações no processo de produção teatral".[8]

Forrobodó, Nas zonas e a questão dos direitos autorais

Já em 1912, atuou na opereta Forrobodó, no papel da francesa Madame Petit-Pois, que estreou no Theatro São José, no Rio de Janeiro. No mesmo ano e no mesmo local, atuou como figura feminina principal na opereta Pomadas e Farofas, de Raul Pederneiras[16]. No final de 1912, estreou sua obra Nas zonas, no Cineteatro Rio Branco.

Originalmente, sua obra era prevista para ser exibida no Theatro São José, mas Alvarenga Fonseca, da empresa Pascoal Segreto, iria pagar Cinira 15 mil contos de réis no total. Cinira, sabendo que um autor recebia pelo menos 30 mil contos de réis por noite, não prosseguiu com a exibição no São José.[18] Este ato de reinvindicação pelos direitos é reforçado em outro momento, depois que Cinira foi ao jornal A Tribuna protestar como o fim de sua companhia foi noticiado.[8]

Após o ano de 1913, Cinira não atuou mais no Brasil, indicando um afastamento dos palcos.[19]

Morte

Cinira Polônio morreu aos 80 anos, no Retiro dos Artistas.

Legado

O jornalista Sousa Rocha reviveu a história da desavença entre Cinira e a empresa Pascoal Segreto em um artigo de 1962, e reconheceu o protagonismo da atriz para a reinvindicação dos direitos autorais e ser uma das pioneiras neste aspecto, comparando-a com Raul Pederneiras.[1][20]

Ver também

Referências

  1. a b Reis 1999, p. 36.
  2. Rocha, Maristela (2019). «Chiquinha Gonzaga e a consagração no teatro musicado: "A corte na roça" e "forrobodó" apontam o caminho». Revista Nava (1/2): 244. ISSN 2525-7757. doi:10.34019/2525-7757.2019.v4.32092. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  3. Reis 1999, p. 21.
  4. Reis 1999, p. 23.
  5. Reis 1999, p. 25.
  6. a b c Reis 1999, p. 26.
  7. Reis 1999, p. 32.
  8. a b c Reis 1999, p. 37.
  9. Reis 1999, p. 62.
  10. SILVA, Lafayette. Artistas de Outras Eras. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1939, 197p
  11. Reis 1999, p. 37-38.
  12. Reis 1999, p. 38.
  13. Reis 1999, p. 65.
  14. «Cinira Polônio». Casa do Choro. Consultado em 31 de outubro de 2025 
  15. Reis 1999, p. 85.
  16. a b Reis 1999, p. 33.
  17. a b Reis 1999, p. 89-95.
  18. Reis 1999, p. 35.
  19. Reis 1999, p. 133.
  20. Sousa Rocha, O Correio da Manhã, 13 de janeiro de 1962

Bibliografia

Ligações externas