Cinetrida

Cinetrida
Rainha Consorte da Mércia
Moeda com a imagem da rainha, cunhada por Eoba, na Cantuária.
Dados pessoais
MorteApós 798
CônjugeOfa da Mércia
Descendência
Egfrido, Rei da Mércia
Edeburga, Rainha de Wessex
Elfleda, Rainha da Nortúmbria
Elflida de Crowland
Etelburga
CasaIcel (por casamento)

Cinetrida (em inglês antigo: Cynethryth; m. após 798), foi rainha consorte da Mércia como esposa de Ofa, e mãe de seu sucessor, Egfrido. Única rainha anglo-saxã que teve seu nome e rosto cunhados em moedas da época, ela estabeleceu o Dique de Ofa, junto ao marido.[1] Após a morte de Ofa, em 796, Cinetrida tornou-se abadessa na Abadia de Cookham, assim como a responsável pela administração de vários mosteiros e terras associadas.

Origens

Não há certezas sobre as origens de Cinetrida. O seu nome é parecido com os nomes da esposa e filhas do rei Penda de Mércia — Cinevisa, Cineburga e Cinesvida — o que sugere que era uma descendente de Penda.[2] Nesse caso, o casamento entre Ofa e Cinetrida teria tido um componente político, pois seria uma forma de Ofa fortalecer a sua reivindicação ao trono da Mércia, já que ele mesmo era um parente distante de Penda.[3]

Alguns historiadores também sugerem que ela possuía franca, sendo até mesmo uma parente distante do imperador Carlos Magno.[3]

Segundo a obra do século XIII, Vitae duorum Offarum ("As vidas dos dois Ofas"), ela era de origem franca, e que, devido aos seus crimes, ela foi condenada pelo sistema de justiça de Carlos Magno, a ser colocada num barco à deriva em alto mar. O barco, eventualmente, encalhou no litoral do País de Gales, onde Cinetrida foi levada até a presença de Ofa. Ela alegou que tinha sido perseguida cruelmente, e que pertencia à Dinastia carolíngia. Ofa, por sua vez, deixou Drida, como ele era chamada, sob os cuidados de sua mãe, Marcelina. O rei, então, apaixonou-se por ela, e os dois se casaram. Ela, então, adotou o nome Quindrida. Contudo, segundo a lenda, ela continuou a agir de forma corrupta, antes de ser assassinada por ladrões. Essa parte parece ter relação com uma menção breve da esposa "pecaminosa" de Ofa, que acabou reformada, chamada Trita, que aparece no poema Beowulf. No entanto, o relato também possui aspectos semelhantes à uma história contada sobre uma garota de Yorkshire que foi deixada à deriva no mar pelo pai, que era a esposa Ofa dos Anglos, rei semi-lendário dos Anglos.[4]

Rainha dos Mércios

Diferentemente dos relacionamentos do predecessor de Ofa, Etelbaldo, os quais foram condenados pela Igreja, o casamento entre Ofa e Cinetrida foi de acordo com as convenções e teve a aprovação do clero.

Não se sabe ao certo a data de casamento de Ofa e Cinetrida, mas, apenas após o nascimento de Egfrido, o seu nome começou a aparecer em outorgas como testemunha delas[5][3], a primeiro da qual foi assinada em 770, junto a Egfrido, e uma das filhas, Elfreda.[2] Isso era algo muito incomum para a época, pois apenas homens costumavam participar como testemunhas.[3] Em 780, ela é referida como Cyneðryð Dei gratia regina Merciorum ("Cinetrida, pela graça de Deus, Rainha dos Mércios"), tendo sido a primeira rainha a ser denominada de tal forma, e isso coloca a sua autoridade real dentro do contexto de nomeação divina. Na verdade, Ofa, Cinetrida e Egfrido podem ter sido os primeiros membros da realeza inglesa a adotarem, de forma estratégica, o conceito crescente de monarquia predestinada pelo direito divino, conceito prevalente no continente europeu na época.[2]

Cinetrida é associada ao marido em outorgas, e teria sido a patrona da Abadia de Chertsey, hoje no condado inglês de Surrey. O Papa Adriano I, quando elevou a posição de Higiberto de bispo para arcebispo de Lichfield, endereçou sua carta tanto para o rei quanto para a rainha. Carlos Magno também costumava escrever para ambos.[6]

Sabe-se que a rainha era bem vista pelo monge Alcuíno de Iorque. Numa carta para o filho do casal, Egfrido, o monge o aconselha a seguir o exemplo dos pais, inclusive a piedade da mãe. Alcuíno também se refere à rainha, em outra carta, como a "responsável pela Casa Real." Já numa correspondência para uma freira chamada Huntrita, ele pede que ela fale com a rainha em nome dele, para indicar sua lealdade à ela; ele adiciona ainda que teria escrito para Cinetrida diretamente "caso os assuntos do rei a tivessem permitido lê-la." Ainda em outra carta para outra freira, Alcuíno pede que ela "cumprimente aquela grande senhora em meu nome." [2]

Cunhagem de moedas

Diversas moedas foram emitidas com a imagem e nome da rainha, das quais, hoje, sobrevivem 43. A inscrição está em latim: "CYNETHRYTH REGINA M(erciorum)", que significa "Rainha Cinetrida da Mércia'. Isso é significativo, pois são as únicas moedas que foram produzidas com a imagem de uma rainha no período da Alta Idade Médica ocidental.[2]

Foi sugerido que a cunhagem da rainha imitava a da imperatriz bizantina, Irene de Atenas, que, nessa época, governava através do filho, Constantino VI. No entanto, as imagens usadas não seguem o exemplo das imagens da moedas de Irene, ao contrário, o estilo das moedas possui similaridade com as da imperatriz romana, Faustina, a Maior e Helena de Constantinopla, mãe do imperador Constantino. A representação de Ofa nas moedas também o mostram como um imperador romano.[2] Especula-se que que as moedas foram cunhadas como parte de doações da rainha para a Igreja, porém, a semelhança com as cunhagem geral de outras moedas sugere o contrário.[2] De fato, a cunhagem é de um padrão único na Inglaterra anglo-saxã e Europa Ocidental nesse período.

É possível que essas moedas serviam como uma concessão de renda a ser usada pela própria Cinetrida. Elas foram cunhadas no Reino de Kent, destacando a influência ampla da família real da Mércia. As moedas também foram encontradas nos reinos de Essex, Sussex, Ânglia Oriental e Wessex.[2]

Acusação de assassinato

Ofa teria ordenado a morte do rei Etelberto II da Ânglia Oriental, que mais tarde foi canonizado. No entanto, segundo alguns cronistas escrevendo séculos depois, como Roger de Wendover, Cinetrida teria sido pessoalmente responsável pela morte do rei ou então, teria incitado o marido a matá-lo.[7]

Rainha viúva e Morte

Após a morte de Ofa em 796, Cinetrida entrou numa ordem religiosa, e tornou-se abadessa do mosteiro de Cookham, cuja propriedade o marido tinha lhe dado.[2] Ela também comandava a igreja de Bedford, onde o marido foi enterrado. Ela provavelmente administrou também a Abadia de Glastonbury e de Fladbury, onde sua filha, Etelburga, era abadessa.[2]

Embora o reino de seu filho, Egfrido, tenha sido breve, Cinetrida aparece como testemunha em duas de três outorgas sobreviventes do rei. Ela também pode ter influenciado a emissão de um privilégio papal ao sucessor do filho, Cenulfo da Mércia, em 798, pelo Papa Leão III. O documento confirmava o acordo que havia sido feito entre Egfrido e o rei Beotrico de Wessex, genro de Cinetrida, de deixar a propriedade do mosteiro de Glanstobury para um abade. O próprio Cenulfo e o irmão dele podem ter sido parentes de Cinetrida, e ambos tinham filhos com o nome começando com o prefixo "Cine".[8]

Embora a data exata de sua morte seja desconhecida, sabe-se que ela ainda estava viva em 798, pois, naquele ano, uma disputa entre ela e o arcebispo Etelhardo da Cantuária, por terras da igreja, foi resolvida num dos Concílios de Clovecho,[2] que ocorreu em local incerto. Ela pode ter sido sepultada em Cookham, algo que estava sendo explorado através de uma pesquisa arqueológica realizada pela Universidade de Reading iniciada em agosto de 2021 quando o mosteiro foi desenterrado.[9]

Descendência

  • Egfrido (m. 17 de dezembro de 796), sucessor do pai, mas reinou por menos de um ano antes de morrer. Não se casou e nem teve filhos;
  • Edeburga (m. após 802), segundo Guilherme de Malmesbury, ela foi casada com o rei Beortrico de Wessex como parte de um acordo do pai dela para trair Egberto de Wessex que tinha procurado refúgio na Mércia após ser expulso do Wessex por Beortrico. Ela teria envenenado o marido acidentalmente, e fugiu para a corte de Carlos Magno, que a tornou abadessa de um mosteiro do qual a ex-rainha foi mais tarde expulsa. Segundo Asser, ela morreu em Pavia, hoje na Itália;[10]
  • Elfleda, esposa de Etelredo I da Nortúmbria;
  • Elfrida de Crowland (m. 835), esposa de Etelberto II da Ânglia Oriental, com quem não teve filhos, pois o casamento não foi consumado. Após o assassinato do marido, ela entrou para a Abadia de Crowland onde viveu até a sua morte;
  • Etelburga, abadessa.

Referências

  1. «Cookham's Queen, Cynethryth». cookhamabbey.org.uk. Consultado em 13 de Janeiro de 2026 
  2. a b c d e f g h i j k Baig, Saima. «Fantastic Women Series l Cynethryth: Queen of Mercia». 24 de Abril de 2024. Consultado em 8 de Janeiro de 2026 
  3. a b c d Dickerson, Meagan (17 de Novembro de 2021). «Queen Cynethryth of Mercia: Victim of a Medieval Smear Campaign?». Consultado em 8 de Janeiro de 2026 
  4. Chamber, Raymond Wilson (1921). Beowulf; an introduction to the study of the poem with a discussion of the stories of Offa and Finn. [S.l.]: Cambridge University Press. p. 36 a 37. Consultado em 13 de Janeiro de 2026 
  5. Stafford, Pauline (2001). «Mercia, an Anglo-Saxon kingdom in Europe». In: Michelle P. Brown e Carol A. Farr. Mercia, an Anglo-Saxon kingdom in Europe. Leicester: Leicester University Press 
  6. «Encontrado mosteiro 'perdido' liderado por rainha anglo-saxã». 19 de Agosto de 2021. Consultado em 13 de Janeiro de 2026 
  7. «Offa of Mercia Biography». biographybase.com 
  8. King, Vanessa. «Kinship and Power: Cynethryth and Æthelswith, Queens of Mercia». Cambridge University Press. Consultado em 20 de Janeiro de 2026 
  9. Milligan, Mark (1 de Agosto de 2022). «Archaeologists hunt for clues on lost Anglo-Saxon queen». Heritage Daily 
  10. «ENGLAND, ANGLO-SAXON & DANISH KINGS». fmg.ac. Consultado em 13 de Janeiro de 2026