Chimarrita

A “Chimarrita”, é uma dança típica do folclore gaúcho. Teve origem no Arquipélago dos Açores e na Ilha da Madeira, e foi trazida de Portugal por colonos açorianos, na segunda metade do séc. XVIII. Desde a sua chegada ao Rio Grande do Sul, a "chamarrita" (forma original de como era designada) foi evoluindo ao longo de gerações e, no início do séc. XX, passou a ser adotada a forma de dança de pares enlaçados.

A corruptela "Chimarrita” foi a denominação mais usual dessa dança, entre os campeiros.

Do Rio Grande do Sul (e de Santa Catarina), a dança passou para o Paraná, e para o Estado de São Paulo, bem como às províncias argentinas de Corrientes e Entre Ríos, onde ainda hoje são populares as variantes "Chamarrita". Também se encontra a “chimarrita” no Uruguai, onde é considerada um dos ritmos de raiz mais populares.[1]

A “chimarrita” tem como características o bater de pés e o bater de mãos.

Coreografia

  • o "Rufado" - simples dança, sem batidas dos pés no chão e das mãos;
  • o "Valsada" - sem batidas dos pés e das mãos;
  • o "Rufando" - onde os passos são valsados às batidas ritmadas das palmas e do sapateado.

Os figurantes dispõem-se em filas e depois seguem assim, até formarem uma roda, um atrás do outro. O passo é lento e atraente. É um baile cantado, onde há solo e coro. A “chimarrita” é uma espécie de antiga polca, ou rancheira moderna.

Variantes

Nos Açores

A chamarrita dos Açores é uma dança em compasso 3/4, tradicionalmente tocada ao violino, com ou sem acompanhamento.[2]

No Brasil

Embora sua origem esteja nos Açores e na Madeira, a chamarrita também é comum no Brasil graças aos colonos açorianos que chegaram ao país no século XVIII. Entretanto, no Rio Grande do Sul, ela é frequentemente conhecida como chimarrita. A mudança vocálica provavelmente se deve a um erro involuntário dos falantes locais. A dança também é popular em Santa Catarina, Paraná e São Paulo, onde ganhou novas reformulações influenciadas pela valsa.[3]

Os instrumentos usados com frequência incluem violão, gaita (harmônica) e acordeão. Os dançarinos, geralmente em pares, vestem roupas autênticas de gaúcho, refletindo a cultura açoriana. A dança é animada e feita em roda. Há um marcador que canta as instruções a todos os dançarinos. Os pares se organizam em fileiras opostas, aproximando-se e se afastando conforme a música avança.[4] A seguir, um exemplo de verso de chamarrita:[5]

A moda da Chamarrita

Nã tem nada que aprender,

E andar comum pé no ar

E outro no chão a bater

Quero cantar e bailar

Com a moça mais bonita

Bater o pé no terreiro

Dar voltas a Chamarrita

Nos Estados Unidos

A chamarrita foi levada para a Califórnia, nos Estados Unidos, por imigrantes açorianos. A musicóloga Sidney Robertson Cowell registrou duas chamarritas em 1939 para o WPA Folk Music Project:

  • uma em Richmond, tocada em duas violas de arame[6]
  • e outra em Oakland, tocada em “English guitar”.[7]

Em 1947, o músico luso-americano Anthony Sears gravou sua música “A Chamarrita Nova”, em Oakland, com a ajuda de dois ítalo-americanos; ela foi arranjada pelo bandolinista Rudy Cipolla, de São Francisco, e regida pelo violinista Vincent di Bianca, de Berkeley.[8] O músico de música tradicional Kenny Hall, criado na região da Baía de São Francisco e residente em Fresno na vida adulta, também tocava duas chamarritas em seu repertório, referindo-se a elas como “chamaritzas”.[9]

As chamarritas são parte tão fundamental das festas luso-americanas em Pescadero e Sausalito que, entre não portugueses, as festas frequentemente são chamadas simplesmente de “chamarritas”.[10][11][12] A dança também é presente em festas de outras localidades da Califórnia, incluindo Manteca[13] e no San Joaquin Portuguese Festival, em Turlock.[14]

No Guinness World Records

Em 2015, a Câmara Municipal da Madalena, na ilha do Pico, Açores, organizou a maior dança folclórica portuguesa, com o objetivo de promover sua cidade e suas tradições. 544 pessoas participaram da dança em pares, formando um enorme círculo no estádio da cidade. Um representante da Câmara Municipal de Madalena afirmou:[15]

“É com grande orgulho que celebramos a conquista deste recorde. Orgulho de saber que, deste modo, nossas tradições são respeitadas, renovadas e projetadas para o futuro.”

Referências

  1. J.C. Paixão Cortês, Luís Carlos Barbosa Lessa. Manual de Danças Gaúchas. Com Suplemento Musical e Ilustrativo. [S.l.]: Irmãos Vitale 
  2. Tunz+nath (19 de fevereiro de 2012). «Azores Lifestyle: Chamarrita». Azores Lifestyle. Consultado em 11 de novembro de 2025 
  3. «Estância Virtual | Tradição Gaúcha | Danças Tradicionais». Estância Virtual | Tradição Gaúcha | Danças Tradicionais. Consultado em 11 de novembro de 2025. Cópia arquivada em 13 de abril de 2018 
  4. «Vinda de Portugal, Chimarrita é uma das marcas do folclore gaúcho». Brasil Imperdível. 30 de novembro de 2011. Consultado em 11 de novembro de 2025 
  5. «Folk Customs of the Azores | Azores GenWeb Site». www.worldgenweb.org (em inglês). Consultado em 11 de novembro de 2025. Cópia arquivada em 13 de abril de 2018 
  6. "Chamarrita". Library of Congress, Washington, D.C. 20540 USA. Retrieved 2024-03-07.
  7. "Chamarita (Flores version)". Library of Congress, Washington, D.C. 20540 USA. Retrieved 2024-03-07.
  8. (2013) Sears Orchestra – A Chamarrita Nova. Excavated Shellac. Retrieved fromhttps://excavatedshellac.com/2013/02/18/sears-orchestra-a-chamarrita-nova/. Accessed November 16th, 2020
  9. Kenny Hall and Vykki Mende Gray. (1999) Kenny Hall's Music Book: Old-Time Music for Fiddle and Mandolin (Mel Bay Publications)
  10. «Wayback Machine» (PDF). historysmc.org. Consultado em 11 de novembro de 2025. Cópia arquivada (PDF) em 29 de setembro de 2020 
  11. Review, STACY TREVENON, Half Moon Bay (16 de junho de 2003). «a town's tradition». Coastside News (em inglês). Consultado em 11 de novembro de 2025 
  12. «IDESST Sausalito Portuguese Cultural Center - The Chamarrita». idesst.wildapricot.org. Consultado em 11 de novembro de 2025 
  13. «Its Festa time». www.mantecabulletin.com. Consultado em 11 de novembro de 2025 
  14. «Carlos Vieira Foundation - San Joaquin Valley Portuguese». Rooster Camisa (em inglês). 13 de abril de 2019. Consultado em 11 de novembro de 2025 
  15. «Portuguese town celebrates local tradition by performing huge folk dance». Guinness World Records (em inglês). Consultado em 11 de novembro de 2025. Cópia arquivada em 19 de dezembro de 2024