Chanacomchana

Chanacomchana foi uma publicação independente em formato de boletim, ou zine, dos coletivos paulistas Lésbico-Feminista (LF) e Grupo Ação Lésbica-Feminista (GALF), que desempenhou um papel importante na organização política e resistência da comunidade lésbica no Brasil, durante o primeiro ciclo do MHB (Movimento Homossexual Brasileiro) também chamado de ciclo libertário (78-83/84), período marcado pela articulação de diversos movimentos sociais no país.[2] O boletim seguiu a ética e a estética contraculturais do "do it yourself (DIY)", onde através de produções independentes e artesanal, foram elaborados com colagens e a mistura de diferentes tipos de design gráfico. No conteúdo, apresentava uma variedade de textos políticos, tirinhas, desenhos, poesias, depoimentos, notícias, divulgação de atividades e reflexões pertinentes para a comunidade e um mecanismo arcaico de troca afetiva, conhecido como “Troca-cartas”. Entre as contribuições literárias, destacam-se poemas de Vânia Garcia, Marina e Jurema Barreto, que abordavam temas relacionados a encontros e desencontros amorosos e eróticos.[3][4][5][6]
História
O boletim foi publicado pela primeira vez em 1981, pela ala lésbica do grupo Somos, e voltou a ser publicado pelo GALF em 1982. Em um período bastante conservador, ainda no final da Ditadura Militar no Brasil, a própria circulação da publicação era difícil entre as próprias mulheres lésbicas, que tinham medo de receber uma revista com um nome que sugerisse sua identidade sexual. Mas também marcava as movimentações socioculturais que nasceram de pensamentos contracultura Dessa forma, as fundadoras do GALF Rosely Roth, falecida em 1990, e Miriam Martinho passaram a comercializar o Chanacomchana na frente do Ferro's Bar, local de encontro de mulheres lésbicas na época.[7]
A edição zero foi a única produzida em formato de jornal e precedeu um hiato de publicação de mais de um ano, até voltar a ser produzido em formato reduzido ao final de 1982, quando passou a ser chamado de Boletim Chanacomchana.
"Por meio de matérias que investigaram e questionaram os lugares ocupados pelas lésbicas na sociedade, de entrevistas que buscaram trazer à tona vozes silenciadas, de publicações de cartas que formaram extensos fóruns de discussão, encontro e paquera, de poesia e de literatura lésbica e de outros formatos que por fim colocaram a vivência lésbica em foco, o Chanacomchana representou para as homossexuais um espaço inaugural na escrita de sua própria história e da demarcação de sua identidade como potente e política".[8]
O Grupo Ação Lésbica-Feminista (GALF) foi influenciado por essas correntes contracultura e referências da esquerda libertária, do feminismo de segunda onda em sua vertente hegemônica, no qual as questões de raça e classe foram frequentemente silenciadas. O grupo também dialogou com o questionamento dos papéis sexuais e com vertentes do separatismo lésbico vinculadas ao então incipiente movimento lésbico internacional, ainda em fase inicial de articulação.[2]
A partir de 1985, o Movimento Homossexual Brasileiro (MHB) passou a adotar estratégias de atuação institucional, priorizando a busca por conquistas graduais, como reconhecimento legal, diálogo com o Estado, participação em conselhos, formulação de políticas públicas, campanhas por direitos civis e combate à discriminação. Grupos como o Grupo Gay da Bahia (GGB) e o Triângulo Rosa exemplificam essa mudança, ao enfatizarem a atuação institucional, a produção de dados, a incidência política e a ampliação da visibilidade pública como estratégias para a promoção de direitos.[2]
A publicação existiu até 1987, quando mudou de nome para Um Outro Olhar, seguindo uma nova fase do GALF. Suas últimas edições exploraram temas importantes para a época como a pandemia da AIDS, a Lei da Anistia, e o debate sobre a Constituinte.[9][10]
A manifestação do Ferro's Bar

Situado na rua Martinho Prado, em frente ao atual Museu Judaico de São Paulo, no centro da cidade, o Ferro's Bar era anteriormente frequentado por militantes comunistas, mas com o Golpe Militar na década de 1960, passou a ser um local importante para os encontros LGBT na cidade. Contudo, em 1983, o então dono do bar tentou proibir aos poucos a circulação do Chanacomchana e expulsar as ativistas do local.[11]
Segundo Míriam Martinho, os donos do bar não gostavam da publicação. “A razão pela qual eles começaram a implicar com gente foi porque o boletim era muito explícito, explicitamente lésbico, numa época em que todo o mundo estava no armário. Aquela coisa hipócrita de ‘você pode estar aqui desde que finja que não é homossexual’ rolava lá também. O bar era sustentado pelas lésbicas, mas não podíamos ter nenhuma expressão muito aberta de carinho. Imagine só um boletim chamado Chanacomchana”.[7]
Em resposta às frequentes expulsões violentas, em 19 de agosto de 1983, deu-se início ao protesto que ficou conhecido como o "Stonewall brasileiro". As ativistas da GALF se organizaram para trazer a presença de outros grupos LGBT, feministas e figuras políticas como o então deputado Eduardo Suplicy, para invadir o interior do Ferro’s e leram um manifesto lésbico contra a censura do bar, exigindo que a venda do jornal fosse permitida e que elas fossem respeitadas.[12]
O ocorrido foi um marco na história da luta por direitos LGBT no Brasil e em sua memória é celebrado, no dia 19 de agosto, o Dia do Orgulho Lésbico.[13][14][15]

Período de redemocratização
Durante o período da ditadura militar apesar da forte repressão contra grupos que rompiam com o ideal de "família tradicional brasileira", temos o surgimento de vários grupos de militância homossexual no período de redemocratização.[16] É nesse contexto que surgem as imprensas alternativas, como forma de resistência a repressão e de luta pelos direitos humanos. O boletim Chanacomchana abordava temas relacionados a sexualidade feminina e a lesbianidade, que muitas vezes era ignorada pela imprensa homossexual e a feminista.[17]
Na redemocratização o grupo GALF começou a debater sobre a constituinte e as eleições através do chancomchana, na expectativa de que leis fossem criadas para garantir o direito homossexual, o Betim tinha como intenção analisar as leis existentes e como elas afetavam a vivencia de suas sexualidades, além de conscientizar sobre a importância da constituição e a empolgação com as eleições e as expectativas do que isso resultariam para o movimento lésbico no futuro. [18]
Edições[19]
| Número | Páginas | Ano | Formato |
|---|---|---|---|
| 0 | 4 | Janeiro de 1981 | Jornal |
| 1 | 11 | Dezembro de 1982 | Boletim |
| 2 | 13 | Primeiro bimestre de 1983 | Boletim |
| 3 | 16 | Maio de 1983 | Boletim |
| 4 | 19 | Setembro de 1983 | Boletim |
| 5 | 14 | 4 Maio de 1984 | Boletim |
| 6 | 14 | Nov/1984 a Jan/1985 | Boletim |
| 7 | 23 | Abril de 1985 | Boletim |
| 8 | 26 | Agosto de 1985 | Boletim |
| 9 | 28 | Dez/1985 a Fev/1986 | Boletim |
| 10 | 35 | Jun/Set de1986 | Boletim |
| 11 | 34 | Out/1986 a Jan/1987 | Boletim |
| 12 | 39 | Fev/Mai de1987 | Boletim |
Referências
- ↑ «Projeto quer levar nome de expoente do movimento lésbico para rua de SP». Folha de S.Paulo. 28 de junho de 2024. Consultado em 21 de dezembro de 2024
- ↑ a b c Olhar, Um Outro. «Chanacomchana 10: resgate e edição comentada». Consultado em 6 de fevereiro de 2026
- ↑ Olhar, Um Outro. «Memória Lesbiana: Míriam Martinho e o processo de produção dos boletins ChanacomChana e Um Outro Olhar». Consultado em 20 de julho de 2022
- ↑ «Chanacomchana: Conheça a história do Stonewall brasileiro». observatoriog.bol.uol.com.br. Consultado em 30 de outubro de 2021
- ↑ «As mídias alternativas ChanacomChana e Lampião da Esquina: uma trajetória de resistência, identidade e visibilidade». Consultado em 30 de outubro de 2021
- ↑ «Na ditadura, mídias alternativas quebraram tabus sobre LGBTs». Jornal da USP. 13 de julho de 2018. Consultado em 30 de outubro de 2021
- ↑ a b Queer, iG (5 de janeiro de 2021). «Pequeno Stonewall Brasileiro: protesto que deu origem ao Dia do Orgulho Lésbico». Queer. Consultado em 30 de outubro de 2021
- ↑ LUCRESIA, Emir de Mello; MARQUEZ, Renata Moreira (2022). Anais do 1º Colóquio Design e Memória. Belo Horizonte: Sobrado. p. 563. 671 páginas. ISBN 978-65-998126-0-6
- ↑ «ChanacomChana n.12 - "Sexualidade e Saúde"». Acervo Bajubá (em inglês). 19 de setembro de 2017. Consultado em 30 de outubro de 2021
- ↑ «Para completar a coleção, ChanacomChana edição 11». Acervo Bajubá (em inglês). 17 de setembro de 2020. Consultado em 30 de outubro de 2021
- ↑ «Árvore da vida - Gilberto Dimenstein». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 30 de outubro de 2021
- ↑ Ker, João (27 de agosto de 2020). «Por que celebramos os Dias do Orgulho e da Visibilidade Lésbica». Revista Híbrida. Consultado em 30 de outubro de 2021
- ↑ Trabalhadora, Casa da Mulher. «19 de Agosto – Dia do Orgulho Lésbico». Consultado em 30 de outubro de 2021
- ↑ «Dia da Visibilidade Lésbica: como surgiu e por que ele é tão necessário?». Capricho. Consultado em 30 de outubro de 2021
- ↑ Digital, Máxima (19 de agosto de 2021). «Dia do Orgulho Lésbico Brasileiro: Conheça a história por trás desta data». Máxima. Consultado em 30 de outubro de 2021
- ↑ https://periodicos.saolucasjiparana.edu.br/foruns/article/view/1041
- ↑ https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/109204517/Anais_da_Segunda_Semana_de_Direito_UNIR_V1_1-libre.pdf?1702935744=&response-content-disposition=inline%3B+filename%3DAnais_da_2a_Semana_de_Direitos_Humanos_d.pdf&Expires=1754015255&Signature=CwwNSohsNCpU6RpxAp72nZjJ5L2W24EZvJgvupUlQzPPquIE~r8XXbOwGT-LxScoTUmjDmeUrM77iZ1UWgTqRNku4Q~OZtLii5GsM7w1JaHbhepyGXhmaWqg4Dw7kKuVn1Ax3YE9KS32w8g9bgvCUug3DIzJ6zZSSGtNdNrINlTtHVg525qjMwCf84FHKxmO3pH14rYH6E13oLzKVM~o4~chr4~aiN89eeNssZCKLKEwUxHZy5p5Cliqdc52U-5UPkzSJftrYY7tlcf1bI7s~ojVqRzvR-KXKFge20zNAdLFOFSI6FVe8StVpRUcrEudNcKcqZJtDNzsuvdI9XU7Jw__&Key-Pair-Id=APKAJLOHF5GGSLRBV4ZA#page=66
- ↑ SALES, Gabriela Coutinho. Lésbicas no debate da redemocratização: uma análise do boletim ChanaComChana. Universidade de Brasília, 2019.
- ↑ Valadão, Júlia (2024). 41 anos do Orgulho Lésbico Brasileiro: memória gráfica e identidade cultural através de uma análise dos boletins do Grupo Ação Lésbica-Feminista (1981-1990). Pelotas: UFPel. p. 36-37. 145 páginas