Cerco de Đắk Đoa

O cerco de Dak Doa foi um evento militar que ocorreu entre 11 e 17 de fevereiro de 1954 durante a Primeira Guerra da Indochina, envolvendo elementos de um grupo de batalha francês – o Groupement Mobile No. 100 – e o Việt Minh. Após sete dias de cerco, o Việt Minh tomou e aniquilou uma posição francesa avançada em Đắk Đoa, próximo a Kon Tum.[1]

Antecedentes

Após a conclusão do cessar-fogo coreano em julho de 1953, o veterano Bataillon de Corée francês, que havia lutado com as Nações Unidas na Guerra da Coreia, chegou a Saigon para atuar na guerra na Indochina. A unidade foi ampliada para um regimento de dois batalhões e reforçada com duas companhias vietnamitas. O Bataillon de Corée foi ativado e formou o núcleo do Groupement Mobile No. 100 (“Group Mobile 100” ou G.M. 100) em 15 de novembro de 1953, transformando-se na espinha dorsal do exército francês no centro da Indochina.[2]

O G.M. 100 foi deslocado para uma área designada como Zona Tática de Corpo 2 (CTZ2), aproximadamente um triângulo cujos vértices eram Kon Tum, An Khê e a Passagem Chu Dreh nos Planaltos Centrais. Em janeiro, a unidade foi encarregada de reforçar Pleiku, Kon Tum e Cheo Reo, vitais para a defesa estratégica do planalto. Inicialmente posicionada 40 milhas a nordeste de Buôn Ma Thuột, cabia a ela ser a espinha dorsal na defesa da região. Dali, o Grupo Móvel executava operações de patrulha, reforço e liberação de estradas em meio a selvas e montanhas.[2] Em poucos dias, a unidade envolveu-se em combates com o 803º Regimento do Việt Minh, na região do importante posto em Đăk Tô, a noroeste de Kon Tum. Um posto foi estabelecido 28 milhas ao sudoeste de Kon Tum, em Đắk Đoa, com um pelotão, que depois foi reforçado.[3]

Cerco

O Việt Minh logo se aproximou de Đắk Đoa em 2 de fevereiro. Três dias depois, o Việt Minh explodiu várias pontes ao norte de Kon Tum, dificultando as patrulhas.[4] Foi chamado apoio aéreo francês; caças-bombardeiros de pistas em Nha Trang realizaram missões de metralhamento ao redor do posto sitiado até o cair da noite.[5]

Ao mesmo tempo, o Alto Comando francês, liderado por Pierre Chasse, viu a situação perigosa e decidiu abandonar Kon Tum, temendo ser cercado. Em 7 de fevereiro, já havia sido concluída a evacuação dos civis europeus e dos funcionários civis vietnamitas.[5]

O G.M. 100 logo se entrincheirou ao redor de Pleiku para uma defesa final da região. Em 11 de fevereiro, eles já lutavam havia sete dias e, com a evacuação de Kon Tum, reforçar Đắk Đoa tornou-se ainda mais difícil. Uma patrulha do G.M. 100 foi emboscada, com saldo de três mortos e dez feridos. Um contra-ataque francês às montanhas Dan Roia nada encontrou.[6]

Nesse mesmo dia, o Việt Minh lançou seu primeiro grande ataque à meia-noite. Chegando até o perímetro de arame farpado, os franceses abriram fogo, contando com apoio de artilharia e com um observador aéreo leve que usava sinalizadores. Aeronaves Grumman Goose adaptadas para ataque ao solo também ajudaram a repelir o ataque.[7] No dia seguinte, dois pelotões do Regimento Coreano conseguiram atravessar as linhas do Việt Minh para socorrer a guarnição, elevando o contingente a 130 homens.[8]

O Việt Minh se reagrupou e continuou bombardeando as posições francesas. A estrada entre Pleiku e Đắk Đoa agora estava sob contínua ameaça. As defesas da guarnição logo ficaram em ruínas; o arame farpado foi destruído por torpedos Bangalore e os abrigos de terra eram a única proteção.[6]

Em 17 de fevereiro, o Việt Minh lançou um grande ataque pouco antes da meia-noite. Durante o bombardeio inicial, um disparo de morteiro atingiu o posto de comando francês, inflamando contêineres de gasolina, enquanto outro golpe destruiu o gerador elétrico — isso significou a perda dos holofotes usados para iluminar a área. Em seguida, o Việt Minh investiu com infantaria contra o posto avançado; a batalha prosseguiu durante a noite, iluminada pelos incêndios no bunker do comando.[9]

Os defensores estavam exaustos e reduzidos em número, mas o fogo de contrabateria do 1º Coreano foi mantido. A resistência francesa, assim, continuou por algum tempo. Porém, o Việt Minh logo tomou as posições avançadas, começando a dominar os franceses. Ainda assim, a comunicação por rádio persistiu até cerca de 3h da madrugada, quando se informou que metade do posto havia caído.[10]

Finalmente, a comunicação por rádio com o posto silenciou por volta das 4h. Após a batalha, rádios na área captaram alguém assobiando a La Marseillaise em meio às ruínas fumegantes — a identidade do indivíduo permanece desconhecida.[11]

Consequências

O 1º Coreano planejava retomar o posto e averiguar possíveis sobreviventes, mas foi frustrado por ordens de se retirar de Pleiku. Um prisioneiro ferido conseguiu voltar às linhas do 1º Coreano, e prisioneiros gravemente feridos foram deixados pelo Việt Minh na estrada para que os franceses os recolhessem. Uma força de reconhecimento seguiu rumo a Đắk Đoa, mas não encontrou nada; seu pelotão de retaguarda, contudo, sofreu fortes baixas numa emboscada que custou ao 1º Coreano mais trinta homens.[12]

As baixas foram pesadas para o G.M. 100: no total, 120 mortos, incluindo trinta de seus aliados vietnamitas. Somente seis feridos sobreviveram e retornaram às linhas francesas.[13]

Em março de 1954, iniciou-se a Batalha de Dien Bien Phu em Tonquim; o G.M. 100 voltou a ficar sitiado em vários pontos nos Planaltos Centrais. Combates ocorreram em torno de Pleiku, Kon Tum, Dak To e Ankhe. Após a derrota em Dien Bien Phu em maio, os franceses começaram a abandonar suas posições isoladas nos Planaltos Centrais. Essa ação foi chamada de Operação Églantine e, durante esse período, o G.M. 100 sofreu graves perdas em emboscadas constantes. Ao final de junho, a unidade caiu em outra emboscada — na Passagem de Mang Yang perto de An Khê — sofrendo uma das piores derrotas francesas da guerra. Outra emboscada na Passagem de Chu Dreh praticamente destruiu a unidade em julho.[14]

Referências

  1. Davidson 1991, pp. 212-13.
  2. a b Eggleston 2017, p. 9.
  3. Fall 2005, p. 190.
  4. Davidson 1991, p. 212.
  5. a b Eggleston 2017, p. 10.
  6. a b Fall 2005, p. 191.
  7. Mesko 1985, p. 9.
  8. Bergot, Erwan (1966). Les petits soleils. [S.l.]: Éditions France-Empire. p. 231. Consultado em 22 de agosto de 2023 
  9. «Vietnam Vignette: The French Groupement Mobile 100». Parallel Narratives. 6 de agosto de 2011. Consultado em 22 de agosto de 2023 
  10. Fall 2005, p. 192.
  11. Bergot 1966, p. 231.
  12. Fall 2005, p. 193.
  13. Clodfelter 2017, p. 614.
  14. Luedeke 2001, pp. 22–29.

Bibliografia

  • Clodfelter, Micheal (2017). Warfare and Armed Conflicts A Statistical Encyclopedia of Casualty and Other Figures, 1492-2015, 4th Ed. [S.l.]: McFarland, Incorporated, Publishers. ISBN 9780786474707 
  • Davidson, Phillip B (1991). Vietnam at War The History, 1946-1975. [S.l.]: Oxford University Press. 9780195067927 páginas 
  • Eggleston, Michael A (2017). Dak To and the Border Battles of Vietnam, 1967-1968 McFarland. [S.l.]: McFarland, Incorporated, Publishers. ISBN 9781476664170 
  • Fall, Bernard (2005). Street Without Joy: The French Debacle in Indochina. [S.l.]: Stackpole Military History. ISBN 9780811732369 
  • Mesko, Jim (1985). Riverine A Pictorial History of the Brown Water War in Vietnam. [S.l.]: Squadron/Signal Publications. ISBN 9780897471633 
Journals
  • Luedeke, Kirk A (janeiro–fevereiro de 2001). «Death on the Highway: The Destruction of Groupement Mobile 100». Armor Magazine