Celeus torquatus pieteroyensi

Celeus torquatus pieteroyensi
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Piciformes
Família: Picidae
Gênero: Celeus
Espécie: Celeus torquatus
Subespécie: Celeus torquatus pieteroyensi
Nome trinomial
C. torquatus pieteroyensi

A Celeus torquatus pieteroyensi é uma subespécie do pica-pau-de-coleira (nome científico: Celeus torquatus), endêmica do Brasil. Ocorre no Centro de Endemismo Belém, compartilhado pelos estados do Maranhão e Pará. Sua existência é contestada em algumas classificações taxonômicas.

Etimologia

O nome genérico Celeus vem da palavra grega antiga keleós (Κελεός), que significa "pica-pau verde". O epíteto específico torquatus é o latim para "coleira".[1]

Taxonomia e sistemática

O pica-pau-de-coleira foi descrito pela primeira vez na obra História Natural das Aves (Histoire Naturelle des Oiseaux; 1780), do polímata francês Georges-Louis Leclerc, o conde de Buffon. Este o descreveu a partir de um espécime coletado em Caiena, na Guiana Francesa.[2] O pássaro também foi ilustrado em uma placa colorida à mão gravada por François-Nicolas Martinet em Planches Enluminées D'Histoire Naturelle, uma outra obra que foi produzida sob a supervisão de Edme-Louis Daubenton para acompanhar o texto de Buffon.[3] Contudo, nenhuma das obras incluíram um nome científico à espécie. Em 1783, o naturalista neerlandês Pieter Boddaert cunhou a nomenclatura binomial Picus torquatus em seu catálogo denominado Planches Enluminées.[4] O pica-pau-de-coleira é classificado atualmente no gênero Celeus, que foi introduzido pelo zoólogo alemão Friedrich Boie em 1831.[5]

Um estudo genético realizado por Benz e Robbins (2011) indicou que o pica-pau-canela (Celeus loricatus) e o pica-pau-de-coleira são espécies irmãs e juntas são irmãs de todas as outras espécies do gênero Celeus.[6] De acordo com as classificações do Congresso Ornitológico Internacional (COI) e taxonomia de Clements v.2018, com base em Winkler & Christie (2002) e Grantsau (2010), são reconhecidas três subespécies:[7][8]

  • C. t. torquatus (Boddaert, 1783) – leste da Venezuela, Guiana, Guiana Francesa e nordeste do Brasil.
  • C. t. occidentalis (Hargitt, 1889) – sudeste da Colômbia, Brasil (Amazônia) e norte da Bolívia.
  • C. t. tinnunculus (Wagler, 1829) – leste do Brasil.

Gorman (2014) reconheceu como quarta subespécie, Celeus torquatus pieteroyensi, que apresenta características intermediárias entre as demais subespécies.[9] A edição on-line do Manual dos Pássaros do Mundo dividiu o pica-pau-de-coleira e criou o pica-pau-de-peito-preto-da-amazônia (Celeus occidentalis) e o pica-pau-de-peito-preto-do-atlântico (Celeus tinnunculus), mas nenhuma das divisões foi apoiada pelos resultados dos estudos de genética molecular.[10][11]

Descrição

O pica-pau-de-coleira adulto tem cerca de 27 centímetros de comprimento. A cabeça é coroada por um tufo castanho e desgrenhado. O macho tem bochechas vermelhas brilhantes, que faltam à fêmea, mas fora isso os sexos são semelhantes. A cabeça, o pescoço e a garganta são castanho-canela e as partes superiores do corpo e as asas são castanho-acastanhadas, com listras ou barras pretas. Tanto a cauda quanto a parte superior do peito são pretas, enquanto a parte inferior do peito e o ventre são barrados em preto e branco, ou são canela, dependendo da subespécie. Os olhos são castanhos, o bico cinzento ou amarelado e as patas cinzentas.[12] C. t. pieteroyensi difere de C. t. torquatus devida a coleira incompleta e de C. t. occidentalis e C. t. tinnunculus pela barriga e costas sem marcas.[13][14]

Distribuição e habitat

C. t. pieteroyensi ocorre na Amazônia Ocidental, restrito ao Centro de Endemismo Belém, do leste do Pará (incluindo a ilha de Marajó) ao oeste do Maranhão. Os únicos registros recentes foram feitos no estado do Pará, nos municípios de Tucuruí, Vigia e Curralinho. Em termos hidrográficos, está presente na sub-bacias da foz do Amazonas, do Gurupi, do Mearim e do Baixo Tocantins. Habita florestas altas e úmidas, incluindo floresta tropical de terra firme, de várzea, de galeria, secundária e clareiras.[9]

Ecologia

A dieta de C. t. pieteroyensi é composta por formigas e sementes. É considerada residente e está restrita a fragmentos de mata grandes e bem conservados, não se deslocando entre eles.[9]

Conservação

Embora a área de distribuição do C. t. pieteroyensi tenha sido amplamente amostrada por diversos ornitólogos, os registros permanecem extremamente raros, o que permite inferir que existam menos de 10 mil indivíduos maduros. Como a espécie não se desloca por áreas antropizadas, a fragmentação do habitat resulta numa forte fragmentação populacional, sendo improvável que cada subpopulação abrigue mais de mil indivíduos maduros. Além disso, observa-se um declínio populacional contínuo em razão da perda de habitat. A perda e a alteração do habitat, resultantes da exploração madeireira, de incêndios florestais e da expansão agropecuária, representam as principais ameaças à subespécie e são responsáveis por um declínio populacional contínuo.[9]

Em 2018, C. t. pieteroyensi foi classificada como em perigo (EN) na Lista Vermelha do Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).[15][16] Em sua área de distribuição, ocorre em quatro áreas de conservação: a Reserva Biológica do Gurupi (Rebio do Gurupi), a Área de Proteção Ambiental do Arquipélago do Marajó (APA Arquipélago do Marajó), a Área de Proteção Ambiental do Lago de Tucuruí (APA Lago de Tucuruí) e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Alcobaça (RDS Alcobaça).[9]

Referências

  1. Jobling, James A. (2010). The Helm Dictionary of Scientific Bird Names. Londres: Christopher Helm. pp. 96, 388. ISBN 978-1-4081-2501-4 
  2. Buffon, Georges-Louis Leclerc de (1780). «Le pic a cravate noire». Histoire Naturelle des Oiseaux (em francês). Volume 13. Paris: De L'Imprimerie Royale. pp. 53–54 
  3. Buffon, Georges-Louis Leclerc de; Martinet, François-Nicolas; Daubenton, Edme-Louis; Daubenton, Louis-Jean-Marie (1765–1783). «Pic à cravate noire, de Cayenne». Planches Enluminées D'Histoire Naturelle. Volume 9. Paris: De L'Imprimerie Royale. Plate 863 
  4. Boddaert, Pieter (1783). Table des planches enluminéez d'histoire naturelle de M. D'Aubenton : avec les denominations de M.M. de Buffon, Brisson, Edwards, Linnaeus et Latham, precedé d'une notice des principaux ouvrages zoologiques enluminés (em francês). Utreque. p. 52, Number 863 
  5. Boie, Friedrich (1831). «Bemerkungen über Species und einige ornithologische Familien und Sippen». Isis von Oken (em alemão). Cols 538–548 [542] 
  6. Remsen, J. V., Jr.; Areta, J. I.; Bonaccorso, E.; Claramunt, S.; Jaramillo, A.; Lane, D. F.; Pacheco, J. F.; Robbins, M. B.; Stiles, F. G.; Zimmer, K. J. «A classification of the bird species of South America». American Ornithological Society. Cópia arquivada em 4 de abril de 2022 
  7. Gill, Frank; Donsker, David; Rasmussen, Pamela, eds. (agosto de 2024). «Woodpeckers». IOC World Bird List. 15.1. Consultado em 1 de junho de 2025. Cópia arquivada em 31 de maio de 2025 
  8. Clements, J. F.; Schulenberg, T. S.; Iliff, M. J.; Roberson, D.; Fredericks, T. A.; Sullivan, B. L.; Wood, C. L. (2018). The eBird/Clements checklist of birds of the world. Ítaca, Nova Iorque: Laboratório Cornell de Ornitologia 
  9. a b c d e Aleixo, Alexandre Luis Padovan; Ruiz, Carlos Martínez; Lima, Diego Mendes; Lopes, Edson Varga; Cerqueira, Pablo Vieira; Dantas, Sidnei de Melo; de Oliveira, Túlio Dornas (2023). «Celeus torquatus pieteroyensi Oren, 1992». Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade (SALVE), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). doi:10.37002/salve.ficha.18152. Consultado em 8 de junho de 2025. Cópia arquivada em 5 de maio de 2025 
  10. del Hoyo, J.; Collar, N.; Sharpe, C. J.; Christie, D.A. (2019). del Hoyo, J.; Elliott, A.; Sargatal, J.; Christie, D.A.; de Juana, E., eds. «Amazonian Black-breasted Woodpecker (Celeus occidentalis. Handbook of the Birds of the World Alive. Barcelona: Lynx Edicions. Consultado em 10 de agosto de 2019 
  11. del Hoyo, J.; Collar, N.; Sharpe, C. J.; Christie, D.A. (2019). del Hoyo, J.; Elliott, A.; Sargatal, J.; Christie, D.A.; de Juana, E., eds. «Atlantic Black-breasted Woodpecker (Celeus tinnunculus. Handbook of the Birds of the World Alive. Barcelona: Lynx Edicions. Consultado em 10 de agosto de 2019 
  12. Gorman, Gerard (2014). Woodpeckers of the World: A Photographic Guide. Richmond Hill, Ontário: Firefly Books. pp. 382–383. ISBN 978-1770853096 
  13. Firme, Daniel Honorato (30 de março de 2016). «Revisão sistemática do gênero Celeus Boie, 1831 (Aves: Piciformes: Picidae)» (PDF). São Paulo. doi:10.11606/t.41.2016.tde-15032016-162823. Consultado em 27 de junho de 2025. Cópia arquivada (PDF) em 4 de junho de 2024 
  14. Oren, David C. (1992). «Celeus torquatus pieteroyensi, a new subspecies of ringed woodpecker (Aves, Picidae) from eastern Pará and western Maranhão, Brazil» (PDF) (em inglês). Belém: Museu Paraense Emilio Goeldi. Consultado em 16 de abril de 2023. Cópia arquivada (PDF) em 16 de abril de 2023 
  15. «Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção» (PDF). Brasília: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Ministério do Meio Ambiente. 2018. Consultado em 3 de maio de 2022. Cópia arquivada (PDF) em 3 de maio de 2018 
  16. «Celeus torquatus pieteroyensi Oren, 1992». Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr). Consultado em 27 de junho de 2025. Cópia arquivada em 27 de junho de 2025