Caso Ivens Mendes
O Caso Ivens Mendes, ocorrido em 1997, foi um episódio nunca devidamente esclarecido de suposta corrupção e influência política no futebol brasileiro.
As gravações
No dia 7 de Maio de 1997, o Jornal Nacional da TV Globo divulgou gravações de telefonemas que desvendariam um esquema de corrupção dentro da CBF, supostamente envolvendo venda de resultados de jogos de futebol e financiamento de campanhas políticas. O pivô do caso foi Ivens Mendes, que era desde 1988 presidente da CONAF (Comissão Nacional de Arbitragem de Futebol), órgão encarregado de escalar árbitros para as competições de futebol organizadas pela CBF.[1]
Numa das gravações, uma voz, identificada como a de Mendes, pedia 25 mil reais, supostamente ao presidente do Athletico Paranaense, Mario Celso Petraglia, e ainda insinuava que o seu clube poderia ser beneficiado pela arbitragem no jogo contra o Vasco pela Copa do Brasil. A partida foi realizada no dia 3 de Abril de 1997, em Curitiba, e o Athletico ganhou por 3 a 1, tendo o árbitro Oscar Roberto de Godói expulsado o atacante Edmundo, do Vasco.[2]Godoi negou, poucos dias após a divulgação dos áudios, que havia recebido ordens de Ivens Mendes.
Em outra gravação, a mesma voz pedia ajuda financeira ao presidente do Corinthians, Alberto Dualib, o qual teria inclusive mencionado "eu dou um, zero, zero" (interpretado como cem mil reais) como valor a ser pago.[3][4]
Nos dois casos, o dinheiro seria utilizado na campanha de Ivens Mendes a Deputado Federal em 1998, por Minas Gerais.
No dia seguinte, Ivens Mendes pediu afastamento de seu cargo na CONAF, declarando-se inocente no caso, mas alegando que sua família estava sofrendo ameaças.
A Subcomissão da Câmara
No dia 14 de Maio, a Comissão de Educação, Cultura e Desporto da Câmara Federal criou uma Subcomissão Especial para investigar o assunto, a pedido do Deputado Lindberg Farias.
Um dos integrantes da Subcomissão, o então deputado Eurico Miranda (mais tarde seria presidente do Vasco), tentou suspender uma das semifinais da Copa do Brasil, entre Grêmio e Corinthians, já que o Corinthians havia eliminado o Athletico, o qual eliminara o Vasco em circunstâncias suspeitas. Mas a CBF manteve o jogo para a data marcada.[5]
Dualib, que a princípio havia declarado "não saber de nada", disse à Subcomissão que sua relação com Mendes era pessoal, não envolvendo o Corinthians. Petraglia disse que foi coagido por Mendes a prometer dinheiro para a sua campanha, mas negou ter participado de qualquer esquema de fraudes.[6]
Ao todo, a Subcomissão Especial promoveu 8 audiências públicas, mas não chegou a ouvir Ivens Mendes, que se recusou a comparecer.[7] Os trabalhos da Subcomissão nunca foram oficialmente concluídos, não existindo um relatório final, mas apenas uma minuta bastante genérica e que não chegou a ser votada.[8]
Os Resultados
Na Justiça Comum, o processo não foi adiante, já que os únicos indícios de crime foram apontados por gravações clandestinas, portanto ilegais. Os jornalistas responsáveis pelas gravações chegaram a ser indiciados, mas acabaram beneficiados por prescrição.
O STJD baniu Ivens Mendes do futebol, o depondo imediatamente do cargo, sendo sucedido pelo ex-árbitro Armando Marques na presidência do CONAF.[9] Mário Celso Petraglia também foi banido do esporte, enquanto Alberto Dualib foi suspenso de pela CBF por dois anos[10], mas a decisão não afetou seus cargos, visto que eles conseguiram recursos favoráveis na Justiça comum.[11] O Furacão foi inicialmente suspenso de competições oficiais por um ano[12], mas recorreu da punição. Apenas começou o Campeonato Brasileiro de 1997 com 5 pontos negativos, como punição por sua participação no caso.
Diante do escândalo, a CBF cancelou o rebaixamento de Fluminense e Bragantino, que haviam sido os últimos colocados no Campeonato Brasileiro de 1996 e, pelo menos em tese, deveriam disputar a Série B em 1997. A medida acabou desviando as atenções dos clubes envolvidos no esquema. Sem rebaixados, o Brasileirão de 1997 teve 26 clubes, dois a mais que nos anos anteriores.[13]
Oscar Roberto Godói processou a revista Veja e o jornalista Maurício Cardoso, pedindo indenização por danos morais. A ação foi movida por conta da reportagem publicada na revista em 1997 sobre o caso, ilustrada com uma foto de Godoy. Em 2010, o Tribunal de Justiça de São Paulo julgou o caso inicialmente como improcedente, e a decisão foi mantida após Godói recorrer da decisão.[14]
Ivens Mendes morreu alguns anos depois do caso.[carece de fontes]
Referências
- ↑ «UOL - Brasil Online - Retrospectiva 97». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 31 de agosto de 2025
- ↑ «Folha de S.Paulo - Futebol: Juiz 'psicopata' é apontado melhor e pior do Paulista - 27/05/97». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 31 de agosto de 2025
- ↑ «Folha de S.Paulo - Justiça quebra o sigilo de Ivens Mendes - 22/05/97». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 31 de agosto de 2025
- ↑ «Análise do PVC: O descrédito se dá por decisões do passado, não do presente - 17/12/2013 - Esporte - Folha de S.Paulo». m.folha.uol.com.br. Consultado em 31 de agosto de 2025
- ↑ Sá, Por Edgard Maciel de; Curitiba, Fernando Freire e Raphael ZarkoRio de Janeiro e (6 de junho de 2015). «Duelo retrô: Eurico Miranda e Petraglia se reencontram e revivem rixa antiga». globoesporte.com. Consultado em 31 de agosto de 2025
- ↑ «Folha de S.Paulo - O escândalo da arbitragem - 3/9/1997». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 31 de agosto de 2025
- ↑ «Folha de S.Paulo - Teixeira pede 'basta' e depõe - 20/05/97». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 31 de agosto de 2025
- ↑ «Folha de S.Paulo - Subcomissão da Câmara não surtiu efeito - 03/07/97». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 31 de agosto de 2025
- ↑ «Armando Marques joga 'culpa' em Ivens Mendes e na FPF - 27/09/2005 - UOL Esporte - Futebol». www.uol.com.br. Consultado em 31 de agosto de 2025
- ↑ «Folha de S.Paulo - Mendes e Petraglia estão fora do futebol - 06/06/97». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 31 de agosto de 2025
- ↑ «Petraglia 80 anos: dirigente acumula polêmicas na carreira e chega a ser banido do futebol». ge. 15 de fevereiro de 2024. Consultado em 31 de agosto de 2025
- ↑ «Folha de S.Paulo - Futebol: Banido, Atlético-PR tenta título estadual - 13/03/98». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 31 de agosto de 2025
- ↑ «O escândalo de manipulação de jogos que evitou rebaixamento do Fluminense». O Globo. 17 de maio de 2023. Consultado em 31 de agosto de 2025
- ↑ Ghirello, Mariana (21 de outubro de 2010). «TJ-SP nega pedido de ex-árbitro de futebol contra Veja e jornalista». Consultor Jurídico. Consultado em 31 de agosto de 2025