Hieros gamos

Hieros gamos de Hera (mostrada com Íris) e Zeus, desenho de 1900 de um afresco em Pompeia.

Hieros gamos (em grego clássico: ἱερός; romaniz.: hieros; santo, sagrado e γάμος gamos 'casamento') ou hierogamia (em grego clássico: ἱερὸς γάμος, ἱερογαμία 'casamento sagrado') é um casamento sagrado que ocorre entre deuses, especialmente quando realizado em um ritual simbólico onde participantes humanos representam as divindades.

A noção de hieros gamos nem sempre pressupõe o ato sexual literal em rituais, sendo também utilizada em contextos puramente simbólicos ou mitológicos, notadamente na alquimia e, consequentemente, na psicologia junguiana. Hieros gamos é descrito como o protótipo dos rituais de fertilidade.[1]

Antigo Oriente Próximo

Acredita-se que o intercurso sexual sagrado tenha sido comum no antigo Oriente Próximo[2] como uma forma de "Casamento Sagrado" ou hieros gamos entre os reis de uma cidade-estado suméria e as Sumas Sacerdotisas de Inana, a deusa suméria do amor, da fertilidade e da guerra. Ao longo dos rios Tigre e Eufrates havia muitos santuários e templos dedicados a Inana. O templo de Eana, que significa "casa do céu"[3] em Uruk,[4] era o maior deles. O templo abrigava Nadītu, sacerdotisas da deusa. A alta sacerdotisa escolhia para sua cama um jovem que representava o pastor Tamuz, consorte de Inana, em um hieros gamos celebrado durante a cerimônia anual Duku, pouco antes da Lua Invisível, com o Equinócio de Outono[5] (Festival de Outono Zag-mu).

Mitologia grega

Na mitologia grega, o exemplo clássico é o casamento de Zeus e Hera celebrado no Heraião de Samos,[6] juntamente com seus predecessores arquitetônicos e culturais. Alguns estudiosos[7] restringiriam o termo a reconstituições, mas a maioria aceita sua extensão à união real ou simulada na promoção da fertilidade: tal união antiga de Deméter com Iásion, encenada em um sulco arado três vezes, um aspecto primitivo de uma Deméter sexualmente ativa relatada por Hesíodo,[8] ocorreu em Creta, origem de muitos mitos gregos antigos. Em relação ao culto real, Walter Burkert considerou as evidências gregas "escassas e obscuras": "É difícil dizer até que ponto um casamento sagrado como esse não era apenas uma forma de ver a natureza, mas um ato expresso ou sugerido em rituais".[9] O exemplo ritual mais conhecido que sobreviveu na Grécia clássica é o hieros gamos, encenado na Antesteria pela esposa do Arconte Basileu, o "Rei Arconte" em Atenas, originalmente, portanto, a rainha de Atenas, com Dioniso, presumivelmente representado por seu sacerdote ou pelo próprio basileu, no Boukoleion na Ágora.[10]

A breve união mística e fertilizadora gera Dioniso, e uniões duplas, de um deus e de um mortal numa mesma noite, resultam, por meio da telegonia, na natureza semidivina de heróis gregos como Teseu e Héracles.

Budismo Tântrico

No budismo tântrico do Nepal, Butão, Índia e Tibete, yab-yum é um ritual da divindade masculina em união com uma divindade feminina como sua consorte. O simbolismo está associado ao tantra Anuttarayoga, onde a figura masculina é geralmente ligada à compaixão (karuṇā) e aos meios hábeis (upāya-kauśalya), e a parceira feminina à 'intuição' ou 'sabedoria' (prajñā).[11][12] Yab-yum é geralmente entendido como a representação da união primordial (ou mística) da sabedoria e da compaixão.[13]

Maithuna em Khajuraho

Maithuna é um termo sânscrito usado no Tantra, geralmente traduzido como união sexual em um contexto ritual. É o mais importante dos cinco Panchamakara e constitui a parte principal do Grande Ritual do Tantra, conhecido por diversos nomes, como Panchamakara, Panchatattva, e Tattva Chakra.[14]

O simbolismo da união e da polaridade é um ensinamento central no budismo tântrico, especialmente no Tibete. A união é vivenciada pelo praticante como uma experiência mística dentro do próprio corpo.[15]

Alquimia e psicologia junguiana

Representação da fase de fermentatio como hieros gamos, xilogravura do Rosário dos Filósofos do século XVI.

O hieros gamos é um dos temas abordados por Carl Jung em seu livro Símbolos da Transformação.[16]

Wicca

Na Wicca, o Grande Rito é um ritual baseado no Hieros Gamos. Geralmente, é encenado simbolicamente com uma adaga (conhecida como athame) sendo colocada com a ponta para baixo em um cálice, ação que simboliza a união do divino masculino e feminino.[17] Na Wicca Tradicional Britânica, o Grande Rito às vezes é realizado de fato pelo Sumo Sacerdote e pela Suma Sacerdotisa.[18]

Ver também

Referências

  1. Hinz, Evelyn J. (1976). «Hierogamy versus Wedlock: Types of Marriage Plots and Their Relationship to Genres of Prose Fiction.». Modern Language Association. PMLA. 91 (5): 909. JSTOR 461564. doi:10.2307/461564. S2CID 163770380 
  2. James Frazer (1922), The Golden Bough, 3e, Chapter 31: Adonis in Cyprus
  3. é-an-na = sanctuary ('house' + 'Heaven'[='An'] + genitive) [John Halloran's Sumerian Lexicon v. 3.0 -- see link below]
  4. modern-day Warkāʼ (arabic), Biblical Erech
  5. Wolkstein, D.; Kramer, S. Noah (1983). Inanna, Queen of Heaven and Earth. [S.l.: s.n.] (pede registo (ajuda)) 
  6. Walter Burkert warns that "the Hera festival is much too complicated to be understood simply as Hera's wedding" (Burkert, Greek Religion, J. Raffan, tr. (Cambridge: Harvard University Press, 1985) §II.7.7 "Sacred Marriage" 108.
  7. For example 'H. Sauer, in Der Kleine Pauly, s.v.
  8. Hesiod, Theogony 969f.
  9. Burkert 1985:108.
  10. S.M. Kramer, The Sacred Marriage Rite (Bloomington:Indiana University Press, 1969); Karl Kerenyi, Zeus und Hera. Urbild des Vaters des Gatten und der Frau (Leiden:Brill 1972) 83-90.
  11. Keown, Damien. (2003). A Dictionary of Buddhism, p. 338. Oxford University Press. ISBN 0-19-860560-9.
  12. "Yab Yum Iconography and the Role of Women in Tibetan Tantric Buddhism." The Tibet Journal. Vol. XXII, No. 1. Spring 1997, pp. 12-34.
  13. The Marriage of Wisdom and Method Arquivado em 2011-06-17 no Wayback Machine By Marco Pallis
  14. Powers, Barclay. «Tantric Buddhahood and the Evolution of Non-Duality». integralworld.net. Consultado em 28 de janeiro de 2026 
  15. Ferguson, Gaylon. «The Power of Buddhist Tantra». Lion's Roar. Consultado em 28 de janeiro de 2026 
  16. Rousseau, Benoit (28 de março de 2025). «Carl Jung and The Secret of the Golden Flower». GnosisJung.org. Consultado em 28 de janeiro de 2026 
  17. «The Great Rite». Wicca Magazine. Consultado em 28 de janeiro de 2026 
  18. «Wiccan Great Rite Ritual». ceisiwrserith.com. Consultado em 28 de janeiro de 2026 

Ligações externas