Carta Brandi
A Carta Brandi foi um documento divulgado em setembro de 1955, durante a campanha para Eleição presidencial no Brasil em 1955, que implicaria João Goulart, então candidato à vice-presidência pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), em uma suposta conspiração envolvendo tráfico de armas e a organização de brigadas sindicais. Investigações posteriores comprovaram que a carta era falsa, fabricada por imigrantes argentinos, e que sua divulgação teve como objetivo dificultar a eleição da chapa de Juscelino Kubitschek e João Goulart, em 3 de outubro de 1955.[1]
O nome do documento deriva do deputado argentino peronista Antonio Brandi, cuja suposta assinatura constava no texto. A carta foi apresentada publicamente a poucos dias da eleição, em 16 de setembro daquele ano, pelo deputado federal Carlos Lacerda, da União Democrática Nacional (UDN) em pronunciamento transmitido em cadeia nacional de rádio e televisão, e no dia seguinte publicada em fac-símile pelo jornal Tribuna da Imprensa, de sua propriedade, e pelo jornal O Globo.[2]
Contexto
Datada de agosto de 1953, quando Goulart ocupava o Ministério do Trabalho no governo de Getúlio Vargas, a suposta correspondência mencionava articulações entre autoridades argentinas e brasileiras. O texto atribuía ao ministro do Interior da Argentina, Ángel Borlenghi, a proposta de criar brigadas operárias no Brasil inspiradas na experiência sindical peronista. Também fazia referência ao prefeito de Uruguaiana, Iris Valls, e a um suposto fornecimento de armas adquiridas na Fábrica Militar de Córdoba, que chegariam ao território brasileiro disfarçadas de gêneros alimentícios.
Após receber a carta em julho de 1955, Lacerda declarou ter buscado indícios de sua autenticidade, como a presença de um comerciante argentino, Ignácio Pinedo, no Rio de Janeiro em 1953, fato que considerou comprobatório. A divulgação do documento gerou forte repercussão política e levou o Ministério da Guerra a instaurar um inquérito policial militar (IPM), chefiado pelo general Emílio Maurell. Um parecer caligráfico argentino inicialmente considerou a assinatura de Antonio Brandi “quase certamente” autêntica, e a informação foi anunciada por Maurell em rede nacional no dia da eleição presidencial.
Investigação
Na sequência, novas análises periciais realizadas no Brasil indicaram a falsificação da assinatura. As investigações atribuíram a autoria da fraude aos imigrantes argentinos Fernando Malfussi e Alberto Mestre Cordero. Segundo o IPM, Malfussi teria falsificado a assinatura de Brandi, enquanto Cordero redigiu o texto. Ambos foram condenados pela Justiça Federal em 1956. Apesar da repercussão do caso e da atuação de Lacerda na sua divulgação, o episódio não impediu a eleição de Juscelino Kubitschek e João Goulart, em 3 de outubro de 1955.
Repercussões posteriores
Décadas depois, familiares de Fernando Malfussi questionaram as conclusões do processo e solicitaram sua anistia póstuma. Em 2017, foi publicado um livro baseado em pesquisas do filho de Malfussi, sustentando a hipótese de que o documento seria autêntico.[3]
- ↑ SANTOS, Rodolpho Gauthier Cardoso dos. Uma missiva contra o peronismo tupiniquim - Carlos Lacerda, Tribuna da Imprensa e a carta Brandi (1955). Antíteses, [S. l.], v. 10, n. 19, p. 137–164, 2017. DOI: 10.5433/1984-3356.2017v10n19p137. Disponível em: https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/antiteses/article/view/27855. Acesso em: 27 set. 2025.
- ↑ Brasil, CPDOC-Centro de Pesquisa e Documentação História Contemporânea do. «CARTA BRANDI». CPDOC - Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil. Consultado em 27 de setembro de 2025
- ↑ GALISI, Juliano. https://www.estadao.com.br/politica/voce-sabia-curiosidades-politica/carta-brandi-ha-70-anos-documento-mirando-goulart-tumultuou-eleicao-e-causou-intriga-internacional/?srsltid=AfmBOopKY0Mb5b5QnV7g-dyd1QL9iwPZkg0VZUFDwZRtuzENVA-fmXMy