Carlos Assale
Carlos Assale (falecido em agosto de 2010) foi um luthier e empresário brasileiro, notório por sua contribuição ao desenvolvimento da indústria de instrumentos musicais no Brasil nas décadas de 1980 e 1990.
Assale foi o fundador da marca de guitarras Dolphin e, posteriormente, atuou como diretor técnico da Giannini, onde supervisionou a inédita produção de guitarras Fender em território brasileiro, conhecida como a série "Southern Cross". Foi também vice-presidente da Afimbra (Associação dos Fabricantes de Instrumentos Musicais do Brasil, atual Abemusica).
Carreira na Dolphin
Na década de 1980, Assale fundou a Dolphin, uma fabricante de instrumentos que se destacou no mercado nacional por buscar inovações tecnológicas e de design, contrastando com outras marcas da época, como a Tonante e a Golden, que focavam majoritariamente no mercado de baixo custo ou em cópias de modelos estrangeiros.
Sob a gestão de Assale, a empresa implementou processos industriais modernos, como o sistema Just in time e Kanban, além de profissionalizar a mão de obra, criando cargos específicos como o de "intonador".
Inovações e Modelos
A Dolphin notabilizou-se por desenvolver componentes proprietários devido à dificuldade de importação na época. Entre as inovações creditadas à gestão de Assale estão:
- Ponte High-Mass: Um sistema de cavalete desenvolvido para a guitarra GA 1000.
- Captação e Elétrica: Desenvolvimento de sistemas próprios como o "Truetone", o captador "Tribucker" e o "Cross-Coil" para baixos.
- Parcerias: Apoio financeiro e técnico para a produção das primeiras tarraxas seladas do Brasil e introdução de captadores ativos da marca inglesa Reflex.
- Floyd Rose: A Dolphin foi pioneira no uso de pontes Floyd Rose em guitarras nacionais (modelo GA 550).
A empresa produziu modelos de design original, como a GA 1000, Starlock, GA 500, GX 3000, além de guitarras com conceitos ergonômicos avançados para a época.
Linha King
Em resposta à demanda do mercado por instrumentos extremamente baratos, dominado pela concorrente "Rei" (Tonante), a Dolphin lançou a linha "King". Eram instrumentos de acabamento espartano e simples, mas funcionais. A linha ganhou notoriedade quando o músico Frejat (Barão Vermelho) adquiriu um exemplar diretamente da fábrica.
A produção da Dolphin sob o comando de Assale foi inviabilizada em 1990, em decorrência das políticas econômicas do Plano Collor.
Fender Southern Cross (Giannini)
Após deixar a Dolphin, Carlos Assale foi convidado por Giorgio Giannini para assumir a direção técnica da Giannini. Entre 1991 e 1995, ele liderou o projeto de licenciamento e fabricação de guitarras Fender no Brasil.
A linha, que ficou conhecida como Southern Cross Series (Série Cruzeiro do Sul), foi produzida na fábrica de Salto, sob rigorosa supervisão da Fender norte-americana. Assale atuou como interface direta com a matriz nos Estados Unidos, reportando-se a executivos como Dan Smith.
Características da Série
Cerca de 5.000 instrumentos foram produzidos entre 1993 e 1995. As guitarras possuíam especificações adaptadas às madeiras nacionais:
- Corpo: Cedro (diferente do Alder ou Ash americanos).
- Braço e Escala: Pau-marfim.
- Hardware: Peças importadas, majoritariamente da Coreia (fabricante Cor-Tek/Cort).
- Acabamento: Disponível nas cores Vermelho Metálico, Preto e Moonburst (Sunburst azul).
Curiosidades e "Moscas Brancas"
Embora a maior parte da produção utilizasse hardware asiático, existe um lote raro de aproximadamente 30 guitarras, apelidadas por colecionadores de "Moscas Brancas". Devido a um atraso no fornecimento coreano, Assale autorizou a importação de componentes (escudos, chaves e captadores) diretamente dos EUA, equipando essas unidades com eletrônica americana original.
Houve também a fabricação de uma única unidade para canhoto, feita sob medida para o guitarrista Edgar Scandurra.
Legado
Carlos Assale é lembrado por elevar o padrão da luthieria industrial brasileira. As guitarras Dolphin de sua época ("Old Dolphin") são consideradas itens de colecionador, valorizadas por sua construção e inovações. Da mesma forma, a série Fender Southern Cross é vista como um marco histórico da indústria nacional, sendo as únicas guitarras a ostentar oficialmente o logotipo da Fender e a inscrição "Made in Brazil".
Assale faleceu em agosto de 2010.