Carlismo (Brasil)
| Carlismo | |
|---|---|
| Líder(es) | Antônio Carlos Magalhães (1954-2007) ACM Neto (2007-atualidade)[1] |
| Área de atividade | Bahia, Brasil |
| Espectro político | centro-direita à direita |
| Aliados | Governo Collor (1990-1992)[2] Governo FHC (1995-2001)[3] |
| Inimigos | Governo Itamar Franco (1992-1994)[4] Governo Lula 1 e 2 (2003-2011)[5][6] Governo Lula 3 (2023-atualidade)[7] |
| Filiação | UDN (1954-1965) ARENA (1965-1979) PDS (1980-1986) PFL (1986-2007) DEM (2007-2022) UNIÃO (2022-atualidade) |
Carlismo designa o grupo formado no estado brasileiro da Bahia em torno inicialmente da liderança de Antônio Carlos Magalhães (1927-2007), que durante quatro décadas foi o político mais importante do estado e um dos mais influentes do Brasil.[8][9]
Entre suas características está a defesa de uma tecnocracia na administração pública, apresentada como garantia de eficiência dos governos.[10] Se inicialmente o carlismo caracterizava apenas a liderança de ACM, apoiada no clientelismo e no controle dos meios de comunicação através do coronelismo eletrônico,[11] mais tarde o termo se tornou uma expressão do grupo político ligado a ele e, numa terceira concepção, um modo de fazer política, aliando modernização econômica e conservadorismo político.[12]
Histórico
Em seus últimos anos de vida, ACM perdeu parte do seu prestígio político e chegou a ter que rivalizar com o "soutismo", o grupo chefiado pelo governador Paulo Souto.[13] Com a morte de ACM, o carlismo entrou em declínio. Além disso, os carlistas passaram a adotar um discurso mais moderado, até mesmo aproximando-se de rivais históricos, como o PT.[14]
Em 2012, contudo, o deputado federal ACM Neto, principal herdeiro político do avô, mostrou a recuperação do grupo ao ser eleito prefeito de Salvador em segundo turno contra o petista Nelson Pelegrino.[15] A sua gestão foi tão bem aprovada que conseguiu a reeleição em 2016 com 73,99% dos votos válidos ainda em primeiro turno.[16] E mesmo após o fim do seu mandato, em 1.º de janeiro de 2021, manteve-se como uma figura muito influente no município, tendo em vista que seu vice, Bruno Reis foi eleito e reeleito prefeito da capital, em 2020 e em 2024, com apoio de ACM Neto.[17][18]
Em 2022, ACM Neto foi candidato a governador da Bahia, e liderou a maioria das pesquisas no primeiro turno. Porém, a forte campanha do adversário Jerônimo Rodrigues (PT), que contou com o apoio de Lula, conseguiu derrotar o ex-prefeito da capital. Apesar da derrota eleitoral, a figura de ACM Neto cresceu muito no estado da Bahia, e mostrou que não perdeu força em Salvador, ao conquistar o voto de mais de 60% dos soteropolitanos.[19] Pesquisas eleitorais de 2025, de pré-campanha, apontaram que o maior representante atual do carlismo era o favorito para vencer a disputa de 2026.[20]
Coronelismo eletrônico
O fenômeno do coronelismo eletrônico implica a intermediação de uma rede de relações entre instâncias locais e nacionais de forma clientelista, na qual o coronel angaria verbas públicas de publicidade governamental, aproveita da instalação de retransmissoras por prefeituras municipais, bem como da audiência e custos reduzidos com a afiliação à grande rede nacional e oferecendo capilaridade e apoio político (governamental) à mesma. Essa atuação é fruto de sua incapacidade em atender a lógica de mercado e competir com conteúdo qualificado e/ou distribuição eficaz. Essa precariedade econômica se dá no contexto de serviços ofertados por meio de novas tecnologias da informação e de comunicação e a reciprocidade de favores, na sociedade da informação. Ademais, o coronel não é necessariamente o radiodifusor, mas a figura que consegue atuar na chefia política, na coerção e arbitragem social; tampouco o coronelismo é idêntico ao mandonismo, clientelismo ou patrimonialismo.[21]
Assim, considerando as comunicações brasileiras marcadas pelo sistema de "coronelismo eletrônico", constitui instrumento exemplificativo desse sistema o grupo midiático controlado por décadas pela família Magalhães, da qual fazem parte figuras da política baiana.[21][22][23][24] Como exemplo tradutor desse sistema, a emissora é a cabeça de uma rede estadual afiliada a um grande grupo midiático nacional (isto é, TV Globo/Grupo Globo).[21] Por meio da emissora e como liderança política, o político e empresário Antônio Carlos Magalhães (ACM) operou sua estratégia de conservar a si e sua família dentro da elite política, dominando espaços de debate público e controlando o acesso à informação pelo eleitorado, como também promovendo imagens positivas de seus integrantes e aliados e ataque a adversários.[21] Por consequência, isso compromete o exercício da cidadania e fragiliza a democracia.[21][25]
De forma mais específica, durante sua história, houve reclamações diversas de utilização política da TV Bahia e do grupo midiático do qual faz parte para dar visibilidade midiática e força eleitoral.[21][23][26] Em 1993, a TV Bahia se envolveu em novas controvérsias devido à relação familiar de parte de seus acionistas com Antônio Carlos Magalhães. Durante o mandato da prefeita de Salvador Lídice da Mata, opositora a ACM, a emissora foi alvo de críticas por parte da gestão municipal devido à exibição de reportagens sobre os problemas da administração da capital baiana. Segundo as acusações da prefeita, a cobertura dos problemas da cidade estaria sendo feita com o intuito de beneficiar o grupo político do governador na eleição municipal de 1996. A assessoria de imprensa da Prefeitura de Salvador afirmou que naquele ano, 600 matérias negativas relativas à gestão de Lídice foram exibidas nos telejornais da estação.[27]
Em 2001, TV Bahia se recusou a cobrir a Passeata de 16 de maio e transmitir as imagens à Rede Globo, da qual é afiliada. A passeata foi um protesto estudantil realizado na dentro da Universidade Federal da Bahia (isto é, área sob jurisdição federal) que demandava a cassação do então senador ACM e foi alvo de violência pela Polícia Militar da Bahia (órgão estadual).[22] Esse episódio de recusa foi informado durante o telejornal Jornal Nacional, da Globo, e, então, circularam na imprensa informações de que o canal perderia sua afiliação com a rede carioca devido a uma suposta desestabilização na relação entre os grupos.[28] A movimentação, no entanto, foi negada pela Globo, que ratificou ter boa relação com a Rede Bahia[29] e renovou o contrato com o grupo baiano em 21 de junho.[30]
Durante as eleições municipais de 2012, em 21 de julho, foi anunciado que o então candidato a prefeito de Salvador, Nelson Pelegrino, entraria com uma ação contra a TV Bahia, acusando-a de beneficiar o também candidato da época, ACM Neto, em reportagem que falava a respeito do quinto aniversário de morte do senador Antônio Carlos Magalhães, exibida na edição do dia anterior do telejornal Bahia Meio Dia, pelo fato do mesmo ter sido entrevistado e participado da matéria.[31] Em 3 de agosto, no entanto, a Justiça Eleitoral julgou a acusação como improcedente. Segundo a juíza da 18.ª Zona Eleitoral, Ângela Bacellar Batista, não ocorreu quebra de isonomia, já que o então candidato Mário Kertész, que disputava o mesmo cargo eletivo, também foi entrevistado e participou da reportagem.[32]
Ver também
Referências
- ↑ A Tarde. «ACM Neto mantém o carlismo vivo». Consultado em 30 de junho de 2025
- ↑ Gazeta do Povo. «'Era grande e querido amigo', diz Collor sobre morte de ACM». Consultado em 30 de junho de 2025
- ↑ Gazeta do Povo. «Veja biografia política de ACM». Consultado em 30 de junho de 2025
- ↑ Folha de São Paulo. «ACM sempre foi um adversário do governador». Consultado em 30 de junho de 2025
- ↑ Agência Senado. «ACM classifica governo Lula como "estado policial"». Consultado em 30 de junho de 2025
- ↑ Agência Senado. «ACM relata visita que fez a Lula e diz que continua oposicionista». Consultado em 30 de junho de 2025
- ↑ Poder360. «ACM Neto defende entrega de cargos: "Não estaremos com Lula em 2026"». Consultado em 30 de junho de 2025
- ↑ «Carlismo volta com força na disputa pela prefeitura de Salvador». Valor Econômico. 11 de agosto de 2012
- ↑ «ACM Neto: prefeito não pode dizer que recebeu 'herança maldita'». Terra. 8 de outubro de 2012
- ↑ «ACM Neto e o carlismo na Bahia». Carta Maior. 12 de setembro de 2012
- ↑ SOUZA, Celina (1997). Constitutional Engineering in Brazil: The Politics of Federalism and Decentralization. [S.l.]: Palgrave Macmillan. p. 130
- ↑ DANTAS NETO, Paulo Fábio. «Mudança política na Bahia: circulação, competição ou pluralismo de elites?» (PDF). FUNDAJ
- ↑ «Carlismo: passado, presete, futuro». Acessa Comunicação. Julho de 2007
- ↑ «Sem ACM, carlismo dialoga com o PT». O Estado de S. Paulo
- ↑ «ACM Neto (DEM) é eleito em Salvador e coloca "carlismo" no poder da capital após 8 anos». UOL Eleições 2012
- ↑ BA, Do G1 (2 de outubro de 2016). «ACM Neto (DEM) é reeleito prefeito em Salvador». Eleições 2016 na Bahia. Consultado em 19 de abril de 2025
- ↑ «Vitória de Bruno Reis fortalece ACM Neto na Bahia». Valor Econômico. 16 de novembro de 2020. Consultado em 19 de abril de 2025
- ↑ estadaoconteudo. «Bruno Reis é reeleito no 1º turno em Salvador e reforça influência do carlismo». Terra. Consultado em 19 de abril de 2025
- ↑ «Eleições em Salvador (BA): Veja como foi a votação no 2º turno». G1. 31 de outubro de 2022. Consultado em 19 de abril de 2025
- ↑ «Paraná Pesquisas: ACM Neto lidera em todos os cenários a corrida pelo governo da Bahia em 2026 - Bahia Notícias». www.bahianoticias.com.br. 24 de março de 2025. Consultado em 19 de abril de 2025
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Bibliografia
- João Carlos Teixeira Gomes (2001). Memórias das Trevas. São Paulo: [s.n.]
- DANTAS NETO, Paulo Fábio (2002). «Carlismo e oposição na Bahia pós-carlista». Fundação Joaquim Nabuco
- Dantas, Paulo Fábio (2003). «"SURF" NAS ONDAS DO TEMPO: do carlismo histórico ao carlismo pós-carlista». Caderno CRH (39). ISSN 1983-8239. doi:10.9771/ccrh.v16i39.18643. Consultado em 16 de fevereiro de 2023
- Pereira, Carla Galvão (maio–agosto de 2017). «O JOGO ENTRE ELITES E INSTITUIÇÕES: as estratégias políticas de ACM Neto e a tradição carlista». Caderno CRH: 237–255. ISSN 0103-4979. doi:10.1590/S0103-49792017000200003. Consultado em 16 de fevereiro de 2023

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