Dinastia cânzida

Os cânzidas ou Banu Canze (em árabe: بنو كنز; romaniz.: Banu Kanz), também conhecidos como Aulade Canze (Awlad Kanz), foram uma tribo seminômade de origem árabo-egípcia muçulmana[1] que controloua região fronteiriça entre o Alto Egito e a Núbia entre os séculos X e XV. Eles descendiam dos filhos de xeique da tribo árabe dos hanifaítas que se casaram com princesas da tribo beja dos hadaribas. Obtiveram controle oficial sobre a região de Assuã, Uádi Alaqui e a zona de fronteira no início do século XI, quando seu chefe, Abu Almacarim Hibatalá, capturou um grande rebelde em nome das autoridades fatímidas. Abu Almacarim recebeu o título de Canze Adaulá (Kanz al-Dawla; Tesouro do Estado) do califa Aláqueme Bianre Alá, e seus sucessores herdaram o título. Os cânzidas entraram em conflito com os aiúbidas em 1174, durante o qual foram derrotados e forçados a migrar para o sul, em direção à Núbia setentrional, onde contribuíram para acelerar a expansão do Islã na região então majoritariamente cristã. Eles acabaram assumindo o controle do Reino de Macúria no início do século XIV, mas, no começo do século XV, foram suplantados pelos membros da tribo huaras enviados pelos mamelucos para combater os cânzidas.

História

Origens

As origens dos cânzidas remontam às migrações tribais árabes para a região fronteiriça do Egito com a Núbia no século IX.[2] As tribos árabes nômades, das quais as maiores eram os modaritas, rebiaítas, juainaítas e caicitas,[3] moveram-se para a região após a descoberta de minas de ouro e esmeralda ali.[2] Os cânzidas originaram-se dos Banu Hanifa, que se mudaram para o Egito vindos da Arábia durante o reinado do califa abássida Almotauaquil (r. 847–861).[4] Em 855, Abedalá ibne Abde Alhamide Alumari, um natural de Medina que estudou em Fostate e Cairuão, emigrou para Assuã, onde buscava lucrar com as minas de ouro da região. Ele e seus escravos foram acolhidos pelos modaritas e, gradualmente, tornou-se o eminente xeique (chefe) destes.[5] Alumari e os modaritas foram expulsos de Uádi Alaqui e de Assuã pelos rebiaítas e passaram a estabelecer seus acampamentos e uma colônia mineira em Axanca, a leste do Reino de Macúria (“Almacurra” em árabe).[6] Alumari foi empurrado de volta ao norte, para Uádi Alaqui e Assuã, pelos núbios de Almacurra no final do século IX. Depois disso, obteve reconhecimento dos juainaítas, rebiaítas e caicitas como seu líder coletivo. Alumari supervisionou uma enorme empresa de mineração de ouro na região, e a indústria financiou sua própria independência virtual em Uádi Alaqui e Assuã. Embora tenha derrotado duas vezes o exército egípcio do emir Amade ibne Tulune (r. 868–884), e forçado este a cessar suas tentativas de subjugá-lo, Alumari foi assassinado por membros dos modaritas após reprimir uma revolta dos rebiaítas. Após sua queda, a atividade tribal árabe continuou a aumentar na região do Deserto Oriental.[3]

Os rebiaítas emergiram como a mais forte das tribos árabes que habitavam a região fronteiriça egípcio-núbia. No século X, eles administravam um principado que substituiu o de Alumari. Os rebiaítas conseguiram crescer em poder devido à sua aliança com os indígenas beja, nomeadamente a tribo muçulmana hadariba, que controlava a região entre a costa do mar Vermelho e a margem oriental do rio Nilo. A aliança se manifestava em parcerias comerciais na indústria de mineração e em casamentos interculturais, inclusive entre os chefes das duas tribos. Os filhos de pai rebiaíta e mãe Hadariba herdavam as terras e títulos de seus avós maternos, já que a herança beja priorizava a descendência pela linha materna. Assim, em 943, Isaque ibne Bisre, nascido de pai rebiaíta, tornou-se chefe do principado rebiaíta-hadariba após suceder seus tios maternos, Abedaque e Cauque. Segundo o historiador árabe do século XIV Alumari, os rebiaítas e os bejas “tornaram-se como um só” durante o reinado de Isaque.[6] Este foi morto durante uma guerra intratribal em Uádi Alaqui, sendo sucedido por um primo paterno de Bilbeis, Abu Iázide ibne Isaque. Abu Iázide estabeleceu Assuã como capital do principado e foi reconhecido pelo Califado Fatímida, que controlava o Alto Egito, como o "protetor de Assuã".[7]

Canze Adaulá e integração no Estado Fatímida

Em 1006, o filho e sucessor de Abu Iázide, Abu Almacarim Hibatalá, recebeu o título de Canze Adaulá (“Tesouro do Estado”) do califa fatímida Aláqueme Bianre Alá como recompensa honorífica por capturar o rebelde antifatímida Abu Racua.[2] A partir de então, os sucessores de Abu Almacarim herdaram o título de Canze Adaulá, enquanto o povo mestiço rebiaíta-hadariba de seu principado passou a ser conhecido como os cânzidas (Banu Canze; também grafado Banu Alcanze ou Cunuz).[8] O principado dos cânzidas incluía o campo de Assuã ao norte, a fronteira com a Núbia ao sul e a maior parte do Deserto Oriental entre Assuã e o mar Vermelho. Isso colocava os cânzidas no controle das minas de Uádi Alaqui, das rotas que ligavam as minas a Assuã e à cidade portuária do mar Vermelho, Aidabe, além do comércio entre a Núbia e o Egito. Tudo isso permitiu que os cânzidas obtivessem considerável riqueza e influência.[7]

Apesar de seu poder, os cânzidas não eram independentes do Estado Fatímida, e o Canze Adaulá — que prestava contas ao governador fatímida de Cus — beneficiava-se do papel integral que desempenhava no sistema fatímida. Os califas conferiam ao Canze Adaulá a responsabilidade de regular os laços diplomáticos e o comércio fatímida com a Núbia, a arrecadação de impostos nas aldeias fronteiriças, a proteção das minas de Uádi Alaqui e dos viajantes e caravanas que atravessavam o principado. Os seus homólogos núbios, sediados em Almaris, desempenhavam função semelhante e também pertenciam a um ramo menor da confederação rebiaíta-hadariba.[9]

Conflito com os aiúbidas

Em 1168, os cânzidas deram abrigo aos regimentos afro-negros dissolvidos do exército fatímida pelos influentes assessores do califa Aladide, Xircu e seu sobrinho Saladino.[10] Saladino depôs Aladide em 1171 e estabeleceu o Sultanato Aiúbida no Egito. Em 1171/2, o exército núbio, juntamente com os antigos contingentes afro-negros dos fatímidas, tentou ocupar o Alto Egito e saqueou Assuã, levando o Canze Adaulá a solicitar assistência militar a Saladino, que atendeu ao pedido. Os aiúbidas e os cânzidas expulsaram os núbios e as unidades rebeldes fatímidas do Alto Egito.[11] Embora os aiúbidas tenham ajudado os cânzidas a repelir a invasão núbia, o seu governo também testemunhou a ascensão de uma elite militar siro-turco-curda no Egito, em detrimento das tribos árabes e dos regimentos africanos, ambos grupos com os quais os fatímidas mantinham laços estreitos e que, em certo momento, governaram o Egito.[12] Assim, os cânzidas e as tribos árabes do Alto Egito sentiram que os seus ictas (feudos) e privilégios oficiais estavam ameaçados pela nova ordem aiúbida. Quando Saladino transferiu o icta dos cânzidas para um emir aiúbida (um irmão do emir aiúbida sênior Abu Alhaija Assamine), os cânzidas mataram o emir e seu séquito. Em 1174, ibne Almutauaje, o Canze Adaulá, iniciou uma insurreição contra os aiúbidas para restaurar os Fatímidas. Ele obteve o apoio de outras tribos árabes da região e dos regimentos africanos, e buscou unir-se à revolta de Abas ibne Xadi, líder das tribos árabes do Médio Egito.[10] Antes que os cânzidas pudessem se unir a Abas, as forças de Saladino, sob o comando de Abu Alhaija, derrotaram e mataram Abas. O exército aiúbida então marchou contra os cânzidas, que foram derrotados após grandes confrontos em Assuã. Ibne Almutauaje foi capturado e executado após a derrota de seu exército.[13]

A expulsão dos cânzidas da zona fronteiriça ao redor de Assuã levou ao abandono da área, incluindo a drástica redução na exploração das minas e ao aumento da vulnerabilidade de viajantes e caravanas a ataques beduínos, devido à ausência dos cânzidas, os guardiões tradicionais da região. Com a perda de sua capital, os cânzidas migraram para o sul para ocupar Almaris, onde o controle núbio sobre a região havia sido significativamente reduzido pela expedição punitiva aiúbida de 1172. Embora os cânzidas tenham se assimilado à cultura e à língua núbias, seu modo de vida permaneceu islâmico. A presença dos cânzidas em Almaris contribuiu significativamente para a difusão do Islão e da língua árabe na Núbia.[14][15]

Domínio de Macúria e relações com os Mamelucos

Em 1317, o sultão mameluco Anácer Maomé (os mamelucos sucederam os aiúbidas no Egito em 1250) manobrou para instalar um pretendente muçulmano fantoche, Barxambu, como rei cristã de Macúria, em substituição ao rei Carambas.[16] Este último procurou evitar sua deposição enviando a Anácer Maomé o Canze Adaulá, que era sobrinho de Carambas, como um possível substituto muçulmano em vez de Barxambu. Carambas via o Canze Adaulá como mais tolerável e potencialmente cooperativo do que Barxambu. No entanto, o Canze Adaulá foi preso pelos mamelucos ao chegar a Cairo e os mamelucos conseguiram instalar Barxambu como rei. Este, posteriormente, tornou o Islão a religião de Macúria. O Canze Adaulá foi libertado pouco depois e usurpou o trono, levando Anácer Maomé a lançar duas expedições malsucedidas contra os cânzidas (a última ocorrendo em 1324), e o Canze Adaulá manteve o trono macúrio.[17]

Durante o reinado do sultão Alaxerafe Xabane e do regente Ialbuga Alumari, os cânzidas e seu aliado árabe, os icrimaídas, controlavam a região entre os portos do Mar Vermelho de Aidabe e Suaquém a leste e as margens do rio Nilo a oeste.[17] Os mamelucos enviaram uma expedição contra os cânzidas e os icrimaídas depois que Dongola foi tomada pelos membros da tribo e seu rei morto. O Canze Adaulá e outros chefes cânzidas renderam-se ao governador mameluco de Cus em dezembro de 1365.[18] Em 1366, os cânzidas atacaram Assuã e, em 1370, atacaram e incendiaram a cidade novamente. Eles foram derrotados numa expedição militar por ibne Haçane, governador de Assuã, em 1378.[19] Durante o reinado do sultão Barcuque, este enviou os integrantes berberes da confederação huara ao Alto Egito e à região fronteiriça para enfrentar os cânzidas. Os huaras gradualmente substituíram os cânzidas como força dominante na região.[20] Os descendentes tribais modernos dos cânzidas são conhecidos como “Cunuz” e habitam o extremo norte do Sudão.[21]

Referências

  1. Shillington 2013, p. 754.
  2. a b c Holt 1986, p. 131.
  3. a b Baadj 2015, p. 90.
  4. Lev 1998, p. 101.
  5. Baadj 2015, p. 90–91.
  6. a b Baadj 2015, p. 91.
  7. a b Baadj 2015, p. 92.
  8. Holt 1986, p. 131–132.
  9. Baadj 2015, p. 93.
  10. a b Baadj 2015, p. 106.
  11. Baadj 2015, p. 105.
  12. Baadj 2015, p. 105–106.
  13. Baadj 2015, p. 107.
  14. Baadj 2015, p. 108.
  15. Fluehr-Lobban 1987, p. 23.
  16. Holt 1986, p. 135.
  17. a b Holt 1986, p. 135.
  18. Holt 1986, p. 135-136.
  19. Dumper & Stanley 2007, p. 51.
  20. Holt 1986, p. 136.
  21. Holt 1986, p. 132.

Bibliografia

  • Baadj, Amar S. (2015). Saladin, the Almohads and the Banu Ghaniya. Leida: Brill. ISBN 978-90-04-29620-6 
  • Dumper, Michael; Stanley, Bruce E. (2007). Cities of the Middle East and North Africa: A Historical Encyclopedia. Santa Bárbara, Califórnia: ABC-CLIO. p. 51. ISBN 9781576079195 
  • Fluehr-Lobban, Carolyn (1987). Islamic Law and Society in the Sudan. Londres: Frank Cass and Company, Limited. ISBN 9781134540358 
  • Holt, Peter Malcolm (1986). The Age of the Crusades: The Near East from the Eleventh Century to 151. Londres: Addison Wesley Longman Limited. ISBN 9781317871521 
  • Lev, Yaacov (1998). Saladin in Egypt. The Medieval Mediterranean Peoples, Economies, and Cultures, 400-1453. Vol. 21. Boston: Koninklijke Brill NV Leiden 
  • Shillington, Kevin (2013). Encyclopedia of African History 3-Volume Set. Londres e Nova Iorque: Routledge. ISBN 978-1-135-45669-6