Canção de trabalho
Uma canção de trabalho ou canto de trabalho é, tipicamente, uma canção rítmica a cappella cantada por pessoas enquanto trabalham numa tarefa muitas vezes repetitiva. Uma canção de trabalho é uma peça de música intimamente ligada a uma forma de trabalho, seja cantada durante a realização de uma tarefa (geralmente para coordenar o tempo) ou uma canção ligada a uma tarefa que pode ser uma narrativa, descrição ou canção de protesto.
Definições e categorias
Os registros das canções de trabalho são tão antigos quanto os registros históricos, e evidências antropológicas sugerem que a maioria das sociedades agrárias tende a tê-las.[1]
A maioria dos comentaristas modernos incluem as canções cantadas enquanto se trabalha e as músicas sobre o trabalho, uma vez que as duas categorias são vistas como interconectadas.[2] Norm Cohen dividia as canções de trabalho em canções domésticas, agrícolas ou pastorais, celeumas, cantos de trabalho afro-americanos, canções de direção e gritos de rua.[3] Ted Gioia dividiu as canções agrícolas e pastorais em canções de caça, cultivo e pastoreio, e destacou as canções industriais ou proto-industriais dos trabalhadores da indústria têxtil, operários, marinheiros, lenhadores, cowboys e mineiros.[1]
Na década de 70, o diretor Leon Hirszman produziu uma trilogia de documentários em curta-metragem registrando cantos de trabalho na área rural e mostrando como essas canções sobrevivem.[4] O escritor Ferreira Gullar, que narra um dos documentários, diz: “Os cantos de trabalho são talvez as primeiras canções criadas pelo homem. A sua origem se perde na distância do tempo. Essas remotas cantigas nasceram do trabalho coletivo, da solidariedade de pessoas que se juntaram em grupo para executar uma tarefa comum. E especialmente a primeira e primordial tarefa do homem: lavrar a terra e cultivar os seus frutos.”
Canções de caça e pastoreio
Em sociedades sem cronometragem, as canções de mobilização – ou seja, convocando os membros para uma tarefa coletiva – eram extremamente importantes.[5] Tanto a caça quanto a criação de gado envolviam pequenos grupos ou indivíduos, geralmente meninos e jovens, que passavam longas horas trabalhando, longe dos centros urbanos. Como resultado, essas atividades produziam longas canções narrativas, frequentemente cantadas individualmente, com o objetivo de passar o tempo.
As canções de caça, como as do povo Mbuti, frequentemente incorporavam assobios e iodelei distintos para que os caçadores pudessem identificar a localização uns dos outros e a localização de suas presas.
Canções de trabalho agrícola
A maioria das canções de trabalho agrícola eram cantadas a cappella e destinadas a aumentar a produtividade e reduzir a sensação de tédio.[5] Os ritmos, semelhantes à batida de um tambor africano, serviam para sincronizar os movimentos físicos em grupos, coordenando a semeadura, a capina e a colheita. Os versos eram, por vezes, improvisados e diferentes. A improvisação proporcionava aos cantores uma forma de expressão. Os escravizados cantavam versos improvisados para zombar de seus capatazes, expressar frustrações e compartilhar sonhos de fuga. Muitas canções de trabalho serviam para criar conexão e familiaridade entre os trabalhadores.
Canções de trabalho afro-americanas
As canções de trabalho afro-americanas desenvolveram-se originalmente na era da escravidão, entre os séculos XVII e XIX. Por fazerem parte de uma cultura quase inteiramente oral, não possuíam uma forma fixa e só começaram a ser registradas após 1865, quando a escravidão chegou ao fim. Slave Songs of the United States foi a primeira coleção de "canções de escravos". Foi publicada em 1867 por William Francis Allen, Charles Pickard Ware e Lucy McKim Garrison.[6] As canções de trabalho afro-americanas também foram vistas como um meio de suportar as dificuldades e expressar raiva e frustração por meio da criatividade.[7]
Uma característica comum das canções afro-americanas era o formato de "chamada e resposta", onde um líder cantava um ou mais versos e os outros respondiam com um refrão. Isso veio das tradições africanas de canções de trabalho agrícola. A parte do líder pode se sobrepor à resposta, criando assim um som colaborativo único. Da mesma forma, a música folclórica e tradicional afro-americana se concentra na polifonia em vez de uma melodia com harmonia.[8] O foco na polifonia também permite a improvisação, um componente crucial para as canções de trabalho afro-americanas.[8] Nos primórdios do cativeiro africano, os tambores eram usados para marcar o ritmo, mas foram proibidos anos depois devido ao receio de que os africanos os utilizassem para se comunicar em caso de rebelião. Mesmo assim, os africanos conseguiram gerar percussão e sons percussivos, usando outros instrumentos ou seus próprios corpos.[9]
As canções de trabalho eram usadas por equipes de operários ferroviários afro-americanos no sul dos Estados Unidos antes da disponibilidade de máquinas modernas na década de 1960.
Outro tipo comum de canção de trabalho afro-americana eram as canções de barco, cantadas por escravos que tinham a tarefa de remar. Esse tipo de canção de trabalho é caracterizado por um "canto plangente e melancólico". Essas canções eram melancólicas para que pudessem manter o ritmo lento e constante necessário para remar. Dessa forma, as canções de trabalho seguiam a tradição africana, enfatizando a importância de as atividades serem acompanhadas pela canção apropriada.[10]
Celeumas
Os celeumas eram canções de trabalho cantadas por marinheiros entre os séculos XVIII e XX. Essas canções eram tipicamente executadas enquanto ajustavam o cordame, içavam a âncora e realizavam outras tarefas em que os homens precisavam remar em ritmo. Essas canções geralmente têm um ritmo muito pontuado justamente por esse motivo, além de um formato de "chamada e resposta". Bem antes do século XIX, as canções de trabalho marítimo eram comuns em embarcações a remo. Tais canções também eram muito rítmicas para manter os remadores unidos. Como muitas culturas utilizavam escravos para remar, algumas dessas canções também podem ser consideradas canções de escravos. Versos improvisados cantados por marinheiros falavam dos males relacionados às condições de trabalho e aos capitães. Essas canções eram executadas com ou sem o auxílio de um tambor.
Canções de trabalho femininas
As rendeiras das Midlands Orientais, da Flandres e da Saxônia cantavam contos sobre renda — rimas cativantes sobre a fabricação de renda e temas mórbidos — ao ritmo do seu trabalho. O conjunto sobrevivente de contos sobre renda ingleses constitui uma parte substancial das canções de trabalho femininas inglesas que sobreviveram.[11]
Referências
- ↑ a b Gioia, E. (2006). Work Songs. [S.l.]: Duke University Press
- ↑ Gioia, E. (2006). Work Songs. [S.l.]: Duke University Press. p. XI
- ↑ Green, A. (1993). Songs about Work: Essays in Occupational Culture for Richard A. Reuss. [S.l.]: Indiana University Press. pp. 334–5
- ↑ «Leon Hirszman – Cantos de Trabalho | revista USINA». 8 de junho de 2015. Consultado em 23 de outubro de 2021
- ↑ a b Peek, P. M.; Yankah, K. (2004). African Folklore: An Encyclopedia. Londres: [s.n.] p. 520
- ↑ Dixon, M. (1987). Ride Out the Wilderness: Geography and Identity in Afro-American Literature. [S.l.]: University of Illinois Press. p. 12
- ↑ Volo, D. D. (2004). The Antebellum Period. [S.l.]: Greenwood. p. 278
- ↑ a b Brooks, Tilford, America's Black Musical Heritage. New Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1984.
- ↑ https://archive.today/20120629094818/http://www.pbs.org/jazz/time/time_slavery.htm Em falta ou vazio
|título=(ajuda) - ↑ Southern, Eileen (1983). The Music of Black Americans: A History. Nova Iorque: Norton & Company, Inc. pp. 161–165. ISBN 9780393952797
- ↑ Porter, Gerald (1994). «"Work the Old Lady out of the Ditch": Singing at Work by English Lacemakers». Journal of Folklore Research. 31 (1/3): 35–55. ISSN 0737-7037