Campanhas do imperador Yongle contra os mongóis

As campanhas do Imperador Yongle contra os mongóis[nota 1] ocorreram de 1410 a 1424. Elas consistiram em cinco expedições militares ofensivas conduzidas pela China Ming contra os mongóis orientais, oirates mongóis e outras tribos mongóis.

Contexto

Durante o reinado do Imperador Hongwu, o comandante mongol Naghachu rendeu-se à China Ming em 1387, e Tögüs Temür da Yuan do Norte foi derrotado por um exército Ming liderado pelo General Lan Yu em 1388.[1] Muitas tribos mongóis da Manchúria renderam-se à China Ming e foram subsequentemente incorporadas aos Uriankhai (conhecidos como os “Três Comissariados”) para servir nas regiões fronteiriças ao norte do império.[2] No entanto, os oirates mongóis (o principal grupo dos mongóis ocidentais) e os mongóis orientais mantiveram-se hostis em relação à China Ming e também uns aos outros.[3]

A corte Ming havia enviado o embaixador Guo Ji aos mongóis orientais, exigindo que se submetessem como um estado tributário da China Ming.[1] Porém, em 1409, Bunyashiri dos mongóis orientais executou o embaixador Ming.[4][5] Em contraste, Mahmud dos oirates mongóis enviou uma missão tributária à corte imperial Ming em 1408.[1]

Ao estabelecer relações com os oirates, a China Ming efetivamente os utilizou para contrabalançar os mongóis orientais.[4][6] Havia uma crescente animosidade na corte Ming em relação aos mongóis orientais por recusarem o status de estado tributário e por terem matado um emissário Ming.[6] Entre 1410 e 1424, o Imperador Yongle liderou cinco campanhas militares contra os mongóis.[3]

Primeira campanha

No inverno de 1409, o Imperador Yongle fez preparativos para sua expedição militar.[7] Em 25 de março de 1410, ele partiu de Pequim em uma expedição contra os mongóis orientais.[8] Estima-se que ele tenha levado 100 000 soldados, embora o Mingshi forneça a improvável cifra de 500 000 tropas.[8][7] Eles utilizaram 30 000 carros para transporte.[4] Marcharam respectivamente rumo a Xuanfu, Xinghe e Kerulen.[5]

O exército Ming, avançando de Xinghe, parou em Minluanshu, pois o Imperador Yongle promoveu uma grande parada militar diante dos emissários oirates mongóis.[8] Nas margens ao norte do Rio Kerulen, ele mandou gravar nas rochas: “Oitavo ano do reinado Yongle geng yin (ano), quarto mês ding you (mês), décimo sexto dia ren zi [19 de maio de 1410], o Imperador do Grande Ming passou por aqui com seis exércitos durante a expedição punitiva contra os bárbaros rebeldes.”[7]

Bunyashiri queria fugir do exército Ming em avanço, mas Arughtai discordou.[8] Assim, os dois líderes mongóis e suas forças separaram-se cada um em uma direção.[8][7] O exército Ming perseguiu primeiro Bunyashiri.[7][8] Em 15 de junho de 1410, eles aniquilaram as forças de Bunyashiri no Rio Onon, mas ele conseguiu escapar.[7][5] Em seguida, o exército Ming perseguiu Arughtai e suas tropas mongóis.[7] Eles encontraram e derrotaram suas forças em Qingluzhen, próximo ao Rio Taor,[7] mas ele fugiu com os homens que restaram.[8] O Imperador Yongle retornou a Pequim em 15 de setembro de 1410.[8]

Arughtai, após sua derrota, tentou estabelecer uma relação frágil com a China Ming, pois temia seu poderio militar e desejava bens chineses por meio de comércio.[9] Submetendo-se como um estado tributário da China Ming, formou-se uma aliança entre Arughtai e a corte Ming.[4] No final de 1410, Arughtai enviou cavalos em tributo à corte imperial Ming e recebeu privilégios comerciais.[10] Na primavera de 1412,[5] as forças de Mahmud encontraram e mataram Bunyashiri enquanto ele fugia do exército Ming.[8][5]

Segunda campanha

[Sua Alteza] varreu a vespa venenosa,
Pelos próximos mil anos.
[Ele] lavou o fedor de carneiro,
[Nós] retornamos dez mil li.

— Hu Guang (1370–1418) sobre a vitória do Imperador Yongle contra os Oirats em 1414[11]

Uma inscrição composta pelo imperador:
Hanghai é a empunhadura,
Céu e Terra são a lâmina.
Um único golpe para afastar a poeira dos cavaleiros do norte,
Para sempre limpa a estepe.

Imperador Yongle, um epígrafe inscrito em um monumento de pedra na atual Naran, província de Sükhbaatar, Mongólia[12]

A atitude da corte Ming tornou-se mais desdenhosa e negativa em relação aos oirates mongóis.[10] O Imperador Yongle negou o pedido do líder oirate Mahmud pela concessão de recompensas a seus seguidores que haviam lutado contra Bunyashiri e Arughtai.[10] Mahmud logo se irritou com a falta de consideração da corte Ming.[4] Ele prendeu emissários Ming, e o Imperador Yongle enviou o eunuco Hai T’ung em uma tentativa malsucedida de garantir a libertação deles.[10]

Em 1413, sentindo-se ameaçado, Mahmud enviou 30 000 tropas mongóis ao Rio Kerulen contra a China Ming.[8] No final de 1413, Arughtai informou à corte Ming que Mahmud havia cruzado o Rio Kerulen, o que indicava uma guerra iminente com a China Ming.[5]

Em 6 de abril de 1414, o Imperador Yongle partiu de Pequim para liderar uma campanha militar contra os oirates mongóis.[8] O exército Ming avançou via Xinghe até Kerulen, para enfrentar os oirates na batalha do alto Rio Tula.[8] O confronto entre o exército Ming e os oirates ocorreu entre as nascentes dos rios Tula e Kerulen.[10] Os oirates foram sobrepujados pelo pesado bombardeio dos canhões Ming.[8][13] Sofreram grandes baixas e foram forçados a recuar.[13] Mahmud e o cã fantoche Delbek fugiram do exército Ming.[8][13] O Imperador Yongle retornou a Pequim em agosto de 1414.[13]

Arughtai desculpou-se da batalha alegando que não pôde participar devido a doença.[10][8] Mesmo que Mahmud procurasse a reconciliação com a China Ming, o Imperador Yongle olhou para essa possibilidade com muita desconfiança.[8] De todo modo, antes que algo pudesse acontecer, Arughtai atacou e matou Mahmud e Delbek em 1416.[8][10]

Terceira campanha

Pintura do Imperador Yongle (National Palace Museum)

Arughtai esperava receber recompensas da corte Ming por seus serviços contra os oirates mongóis.[10] A corte Ming concedeu apenas títulos a Arughtai e a sua mãe, mas não lhe deu os privilégios comerciais que ele desejava.[10] Arughtai ficou cada vez mais hostil e começou a atacar caravanas nas rotas comerciais ao norte da China Ming.[10][14] Por volta de 1421, ele havia parado de enviar tributos para a China Ming.[13] Em 1422, ele atacou e tomou a fortaleza de fronteira de Xinghe.[10][14] Isso levou a China Ming a lançar a terceira campanha militar.[10]

Muitos altos funcionários se opuseram à expedição e aconselharam o Imperador Yongle a não iniciá-la, pois julgavam que custaria muito caro ao tesouro do império, mas o imperador rejeitou seus conselhos.[14][13] Eventualmente, como resultado dessa oposição, o Ministro da Guerra Fang Bin cometeu suicídio, enquanto o Ministro das Receitas Xia Yuanji e o Ministro das Obras Wu Zhong foram presos.[14]

Em 12 de abril de 1422, o imperador e seu exército partiram de Pequim em direção a Kulun.[14] De acordo com Rossabi (1998), o exército Ming supostamente era composto por 235.000 soldados.[10] Eles somavam 235.146 homens, 340 000 burros, 117.573 carros e 370 000 shi de grãos, segundo Perdue (2005).[14] O Imperador Yongle conduziu suas tropas até Dolon, onde Arughtai estava acampado.[13] Uma força de 20 000 soldados foi destacada para os Comissariados Uriankhai, que haviam caído sob o domínio de Arughtai; eles foram reconquistados em julho.[13]

O exército Ming causou temor em Arughtai, que evitou o confronto fugindo para longe na estepe.[10][13] Em resposta, os Ming destruíram e saquearam os acampamentos de Arughtai.[14] A situação frustrante e infrutífera fez com que o Imperador Yongle direcionasse sua atenção para atacar impiedosamente e saquear três tribos Uriankhai mongóis que não estavam envolvidas nas hostilidades de Arughtai.[14] Os saques e ataques contra qualquer mongol que se encontrasse no caminho do exército Ming se repetiriam nas campanhas seguintes.[14] O exército Ming retornou a Pequim em 23 de setembro.[14]

Quarta campanha

Em 1423, o Imperador Yongle lançou um ataque preventivo contra as forças de Arughtai.[15] Partindo de Pequim em agosto, os exércitos Ming viajaram por Xinghe e Wanquan.[13] Contudo, Arughtai recuou e fugiu outra vez diante do exército Ming.[16] Esen Tügel, um comandante mongol oriental, rendeu-se à China Ming.[16] O exército Ming retornou a Pequim em dezembro de 1423.[13]

Quinta campanha

Arughtai continuou suas investidas contra a fronteira norte em Kaiping e Datong.[16][17] Em 1424, o Imperador Yongle respondeu lançando sua quinta campanha.[16][17] Ele reuniu seu exército em Pequim e Xuanfu.[17] No início de abril de 1424, partiu de Pequim para enfrentar as forças de Arughtai.[17] As tropas marcharam por Tumu e ao norte até Kaiping.[17] Mais uma vez, Arughtai evitou o confronto ao fugir do exército Ming.[16] Alguns dos comandantes Ming queriam persegui-lo, mas o Imperador Yongle sentiu ter se estendido demais e recuou suas tropas.[17] Em 12 de agosto de 1424, o imperador faleceu durante o retorno à China Ming.[14]

Ver também

  • Dinastia Ming na Ásia Interior
  • Batalha de Kherlen

Notas

  1. Também conhecidas como Campanhas do Imperador Chengzu ao Norte (Mobei) (chinês tradicional: 明成祖遠征漠北之戰, chinês simplificado: 明成祖远征漠北之战) ou as Expedições Setentrionais do Imperador Yongle (chinês tradicional: 永樂北伐, chinês simplificado: 永乐北伐)

Referências

  1. a b c Rossabi 1998, 227.
  2. Chan 1998, 222.
  3. a b Chan 1998, 223.
  4. a b c d e Perdue 2005, 54.
  5. a b c d e f Chan 1998, 226.
  6. a b Rossabi 1998, 228.
  7. a b c d e f g h Rossabi 1998, 229.
  8. a b c d e f g h i j k l m n o p q Perdue 2005, 55.
  9. Rossabi 1998, 229–230.
  10. a b c d e f g h i j k l m n Rossabi 1998, 230.
  11. Robinson 2020, 51.
  12. Robinson 2020, 52.
  13. a b c d e f g h i j k Chan 1998, 227.
  14. a b c d e f g h i j k Perdue 2005, 56.
  15. Rossabi 1998, 230–231.
  16. a b c d e Rossabi 1998, 231.
  17. a b c d e f Chan 1998, 228.

Bibliografia

  • Chan, Hok-lam (1998). «The Chien-wen, Yung-lo, Hung-hsi, and Hsüan-te reigns, 1399–1435». The Cambridge History of China, Volume 7: The Ming Dynasty, 1368–1644, Part 1. [S.l.]: Cambridge University Press. ISBN 9780521243322 
  • Perdue, Peter C. (2005). China Marches West: The Qing Conquest of Central Eurasia. [S.l.]: Belknap Press of Harvard University Press. ISBN 067401684X 
  • Robinson, David M. (2020). Ming China and Its Allies: Imperial Rule in Eurasia. [S.l.]: Cambridge University Press 
  • Rossabi, Morris (1998). «The Ming and Inner Asia». The Cambridge History of China, Volume 8: The Ming Dynasty, 1398–1644, Part 2. [S.l.]: Cambridge University Press. ISBN 9780521243339