Campanha do Mulondo
| Campanha do Mulondo | |||
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| Campanhas de Pacificação e Ocupação | |||
| Data | 23 de Setembro – 25 de Outubro de 1905 | ||
| Local | Ovampo, Angola | ||
| Desfecho | Vitória Portuguesa | ||
| Beligerantes | |||
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| Comandantes | |||
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A campanha do Mulondo foi uma das Campanhas de Pacificação e Ocupação e teve por objectivo a anexação pelos portugueses do sobado do Mulondo, no sul de Angola.
Contexto
Desde 1839 que os portugueses procuravam expandir a sua influência e território no sul de Angola mas em meados daquele século aceleraram as suas acções de pacificação e ocupação de terras, combatendo contra povos hostis, fundando fortalezas no interior, estabelecendo famílias portuguesas, brasileiras, alemães e bóeres no planalto de Huíla, desenvolvendo a indústria e abrindo os portos ao comércio internacional.
Quando se deu a derrota de um esquadrão de dragões comandado pelo conde de Almoster em 1898, o governo português decidiu ocupar a região entre o rio Cunene e o Cubango mas a expedição de 1800 homens enviada a cumprir esse objectivo foi duramente vencida a 25 de Setembro de 1904 na Batalha do Vau do Pembe.[2]
Após o "Desastre de Pembe", os ovambos, em particular os cuamatos, começaram a atacar tribos sob a protecção de Portugal com maior confiança, chegando até a ameaçar fazendas na margem norte do Cunene e gerando um clima de insegurança.[2] A onda de consternação que se gerou entre a opinião pública portuguesa na metrópole obrigou o governo português a planear uma grande expedição contra os cuamatos.[2]
Mediante requerimento do governo português, o experiente major Eduardo Costa entregou um minucioso plano de operações, enquanto o capitão do Estado Maior Eduardo Marques deslocou-se ao sul de Angola para reconhecer o terreno, negociar apoios e auscultar o posicionamento de vários sobas em caso de hostilidades.[3] Em reunião com Eduardo Costa, o governador-geral António Duarte Ramada Curto decidiu levar a cabo algumas acções preliminares para consolidar o domínio da margem direita do Cunene enquanto se preparava a grande campanha.[3] Entre os objectivos contava-se a ocupação do Mulondo, cujo soba barrava a passagem de europeus pelo seu território e se revelara tirânico para com os seus súbditos, levando muitos ao êxodo para Quipungo, Luceque e Quiteve.[1][3] A campanha ficaria a cargo do capitão Alves Roçadas.
A Campanha do Mulondo
A 23 de Setembro, partiu do Lubango uma expedição composta por uma secção de artilharia com duas peças de montanha BEM m/82, 1 oficial e 38 praças; um esquadrão de dragões com 2 oficiais e 58 praças; uma companhia de infantaria europeia com 5 oficiais e 210 praças; a 12ª Companhia de Infantaria Indígena de Moçambique, com 6 oficiais e 202 praças; um corpo de auxiliares com 50 bóeres, comandados por Willem Venter, 50 muchimbas, comandados por Carlos Maria e um número variável de portugueses.[4][1] Totalizava 23 oficiais, 563 praças, 90 animais de carga, 10 carroças bóeres, 1 carroça de duas rodas e 168 bois de tracção, 2 peças de artilharia.[4]
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As praças europeias encontravam-se armadas com espingardas Kropatschek m/1886 de 8mm e as praças indígenas com Martini-Henry de 11mm, ao passo que as restantes forças auxiliares foram armadas com espingardas Snider 14mm, enquanto que os bóeres conservaram as suas Mauser.[4]
A coluna percorreu 400 quilómetros ao longo das etapas de Lubango, Chibia, Gamos - tendo aqui sido engrossada com cerca de 1000 auxiliares africanos e alguns bóeres - Humbe e Quiteve.[4] A 19 de Outubro chegou ao posto militar de Quiteve, sobranceiro ao rio Cunene.[4] Em Quiteve, Carlos Maria contactou a gente da localidade e com 300 muchimbas atravessou, para se colocar entre os vaus do Cácua e do Handjabero no Cunene, de forma a evitar a chegar reforços ao Mulondo como impedir a sua fuga.[5]
Planeado o ataque à "embala" de Mulondo a 25, restavam à coluna seis dias para percorrer os últimos 27 quilómetros e tomar o objectivo.[4]
A "embala" de Mulondo era uma fortaleza circular de paliçada com cerca de 500 metros de diâmetro e 5 metros de altura, formada por paus de mutiate secos, descascados e afiados, entrelaçados por uma sebe viva de espinheiro.[4] Revestia o interior desta paliçada uma camada de terra argilosa.[4]
Os dragões fizeram o reconhecimento do terreno e revelaram estar o terreno à volta livre de obstáculos ou vegetação, deserto de pessoas e gado, tendo o soba concentrado os seus guerreiros no interior.[4] Alves Roçadas decidiu atacar a embala em três pontos simultaneamente, sendo o ataque principal feito à esquerda da porta principal, o secundário à direita, ao passo que o terceiro teria por propósito cortar as vias de fuga e seria levado a cabo pelos dragões em apoio de um pelotão de infantaria africana.[4]
Às 6 horas da manhã de 25 de Outubro a coluna partiu para a embala e pelas 8 as tropas tinham-se colocado nos seus postos a 500 metros da embala.[4] A peça de artilharia abriu fogo, secundada pela infantaria e, após vários avanços, pelas 8:30, o capitão Alves Roçadas decidiu atacar à baioneta apesar do fogo que partia da embala ser muito vivo e terem já tombado alguns soldados. Após uma nova ordem de cessar fogo e novo avanço, a 50 metros da paliçada Alves Roçadas deu a ordem para o ataque à baioneta mediante o aviso de "Acelerado carregar".[4]
Foi imponente. Toda a linha da infantaria corria como em um exercício, corpos dobrados sobre o terreno e baionetas em riste. Chegamos junto do fosso; este era profundo e os soldados procuravam a forma de o transpor mas o entusiasmo era tal que lá desceram e ajudados uns pelos outros, subiam a paliçada.[4]
Os sapadores correram então para uma porta da embala onde alguns troncos já haviam sido arrancados à mão. Dentro da embala, os portugueses depararam-se ainda com alguma resistência mas ela foi rapidamente debelada.[4] Pouco depois foi ordenado o cessar-fogo e às 10 tocado o reunir.[4]
Estimou-se as baixas do Mulondo em 200 mortos e 300 feridos, ao passo que os portugueses 12 tiveram mortos. O hospital de campanha começou de imediato a funcionar para os feridos portugueses como para os do inimigo.[4]
No dia seguinte, a embala foi incendiada.[3] O soba Haugalo fugira ferido mas os bóeres a cavalo e os muchimbas espalharam-se à sua procura pela região, tendo sido encontrado três dias depois numa mata, morto ao lado da espingarda.[3][6][7][5]
A coluna segui viagem para o vau de Handjabero e, a 3 de Novembro de 1905, inaugurou ali perto o Forte do Mulondo.[3] Após a inauguração, a tropa regular e os auxiliares bóeres e portugueses escaramuçaram com os cuamatos de Cuamato Grande, para dissuadir ataques a tribos aliadas, averiguar o seu estado de preparação e obrigá-los a gastar munições.[3]
Ver também
Referências
- ↑ a b c d e f g Colecção pelo Império. [S.l.]: Divisão de Publicações e Biblioteca, Agência Geral das Colónias. 1943. p. 41. Consultado em 5 de junho de 2025
- ↑ a b c Regalado, 2004, pp. 12-15.
- ↑ a b c d e f g Jaime Ferreira Regalado: Cuamatos 1907: Os Bravos do Mufilo no Sul de Angola, Tribuna da História, 2004, pp. 16-24.
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o p Regalado, 2004, pp. 18-19.
- ↑ a b Colecção pelo Império. [S.l.]: Divisão de Publicações e Biblioteca, Agência Geral das Colónias. 1943. p. 42. Consultado em 5 de junho de 2025
- ↑ «O Portal da História - Biografia: Alves Roçadas (1865-1926)». www.arqnet.pt. Consultado em 5 de junho de 2025
- ↑ «Jornal A Voz de Ermesinde - 30-04-2020 - Crónicas - As campanhas de pacificação em Angola - A CAMPANHA DO CUAMATO». www.avozdeermesinde.com. Consultado em 5 de junho de 2025
Ligações externas
- "Relatório das operações no distrito da Huíla em 1905" in ahm-exercito.defesa.gov.pt.