Campanha do Deserto
| Campanha do Deserto | |||
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| Data | 1878 – 1885 | ||
| Local | Pampa e Patagônia | ||
| Desfecho | Vitória argentina | ||
| Mudanças territoriais | A Argentina anexa a maior parte da Patagônia. | ||
| Beligerantes | |||
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| Comandantes | |||
A Conquista do Deserto ou Campanha do Deserto foi uma campanha militar levado a cabo pelo governo da República Argentina, sob as ordens do general e futuro presidente Julio Argentino Roca, contra os povos mapuche, tehuelche e ranquel, com o objetivo de obter o domínio territorial do Pampa e Patagônia oriental, até então sob controle indígena, denominado Wall Mapu.[1]
No sentido histórico mais amplo, o termo inclui também as Campanhas prévias à Conquista do Deserto, ou seja, ao conjunto de campanhas militares levadas a cabo pelos colonizadores espanhóis e os governos provinciais argentinos contra estes mesmos povos, antes da grande campanha de 1879.[1]
A atuação indígena no sul durante o século XIX
Agência indígena no sul da Argentina no século XIX
A agência indígena no sul da Argentina durante o século XIX refere-se à capacidade de ação política, militar, econômica e diplomática exercida pelos povos indígenas no contexto da expansão territorial do Estado argentino e do processo de consolidação nacional. Longe de atuarem somente como vítimas passivas da violência estatal, diferentes grupos indígenas desempenharam papéis ativos nas disputas políticas, nas negociações com autoridades criollas e nas estratégias de resistência e adaptação diante do avanço da fronteira.[1][2]
Após a independência argentina, o território ao sul da chamada “fronteira interna” — especialmente as regiões do Pampa e da Patagônia — era ocupado por povos indígenas como os mapuches, tehuelches e huilliches. Esses espaços eram habitados por populações diversas, muitas delas influenciadas pelo processo de araucanização, que introduziu novas formas de organização política, militar e econômica. Durante grande parte do século XIX, a presença indígena constituiu um elemento central nos debates sobre soberania, civilização e construção do Estado-nação.[1][2]
Os povos indígenas do sul da Argentina desenvolveram estruturas políticas complexas, frequentemente organizadas em confederações lideradas por caciques de grande prestígio. Essas lideranças exerciam autoridade sobre amplos territórios e populações numerosas, articulando alianças internas e externas. Caciques como Juan Calfulcurá, Manuel Namuncurá, Juan Catriel, Valentín Saygüeque, Feliciano Purrán atuaram como interlocutores políticos reconhecidos por governos provinciais e nacionais, negociando tratados de cessar-fogo e acordos comerciais.[1][2][3][4]
Essas confederações possuíam sistemas próprios de hierarquia militar, administração e diplomacia, o que lhes permitiu intervir de forma estratégica nas disputas entre diferentes facções criollas, especialmente durante os conflitos entre Buenos Aires e a Confederação Argentina.[5][4]
Esses povos tiveram agência nas negociações com o poder do Estado emergente da Argentina. Ao longo das décadas de 1850 e 1860, líderes indígenas firmaram tratados de paz, alianças militares e acordos comerciais, avaliando propostas concorrentes conforme seus interesses territoriais e econômicos. Em alguns casos, os indígenas apoiaram governos ou caudilhos provinciais em troca do reconhecimento da posse de terras, da liberdade de comércio e da manutenção de suas estruturas sociais.[6]
Essas relações eram marcadas por pragmatismo político e constante reavaliação, uma vez que os projetos do Estado argentino tendiam progressivamente à eliminação da autonomia indígena.[1][4]
A atuação indígena também foi central no plano econômico. Os malones — incursões armadas destinadas à captura de gado — integravam um sistema de circulação de mercadorias que conectava o interior argentino, o Chile e os territórios indígenas. Essa prática sustentava a economia de diversos grupos e reforçava seu poder militar e político. Havia frequentemente a captura de mulheres brancas que eram submetidas a inserção no grupo indígena.[4][5][6]
No campo militar, os indígenas desenvolveram estratégias eficazes de guerra móvel, reconhecimento territorial e uso do ambiente natural, o que dificultou por décadas o controle estatal sobre as regiões do sul. A resistência armada indígena contribuiu para a instabilidade das fronteiras e obrigou o Estado a investir na profissionalização do Exército e em novas tecnologias militares.[5]
Declínio da autonomia indígena e Campanha do Deserto
A partir da década de 1870, com o fortalecimento do Estado nacional e a consolidação de um discurso que associava civilização ao progresso europeu, a política indígena passou de uma lógica de negociação para uma ofensiva militar sistemática. A chamada Campanha do Deserto, liderada por Julio Argentino Roca, resultou no massacre, aprisionamento e deslocamento forçado de populações indígenas, bem como na perda definitiva de sua autonomia territorial. A revista Revue des Deux Mondes auxiliou como uma mediadora cultural, difundindo na Europa uma imagem da Argentina alinhada aos valores do liberalismo e da civilização europeia. Os indígenas são retratados como “selvagens anacrônicos”, cuja eliminação ou submissão seria necessária ao progresso nacional.[3]
Apesar da derrota militar, a agência indígena permanece evidente na resistência prolongada, nas tentativas de adaptação às novas condições impostas pelo Estado e na centralidade que essas populações tiveram na definição das políticas territoriais e militares argentinas do século XIX.[3][4]
Referências
- ↑ a b c d e f Maria Heloisa Lenz (2006). «O papel de La Conquista del Desierto na construção do Estado argentino, no século XIX». Ensaios FEE - Revista Estudos de Planejamento (Governo do Rio Grande do Sul). Consultado em 23 de fevereiro de 2024
- ↑ a b c Passetti, Gabriel (2005). «De "Civilização E Barbárie"às "Campanhas Do Deserto". Relações Políticas E Guerras Entre Indígenas E Criollos No Sul Da Argentina (1852-1885)». Diálogos - Revista do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História (3): 223–227. ISSN 1415-9945. Consultado em 19 de dezembro de 2025
- ↑ a b c Soares, Gabriela Pellegrino (5 de abril de 2015). «Perspectivas de um correspondente sobre a Campanha do Deserto: A Revue des Deux Mondes e a missão cultural francesa na Argentina oitocentista». Revista de fontes (3): 81–88. ISSN 2359-2648. doi:10.34024/fontes.2015.v2.9172. Consultado em 1 de dezembro de 2025
- ↑ a b c d e Pompeu, Ana Carollina Gutierrez (17 de dezembro de 2020). «TERRITORIALIZAÇÃO DO ESPAÇO PAMPEANO-PATAGÔNICO NA ARGENTINA (1870 - 1880): DA CAMPANHA DO DESERTO À LEI DE TERRITÓRIOS NACIONAIS.». Boletim Gaúcho de Geografia (1). ISSN 2357-9447. Consultado em 1 de dezembro de 2025
- ↑ a b c Pompeu, Ana Carollina Gutierrez (21 de dezembro de 2024). «Questão de índios" e "questão de fronteiras": relatos epistolares de Miguel Malarin a Julio Roca sobre a Campanha do Deserto». Revista Extraprensa (2): 118–138. ISSN 2236-3467. doi:10.11606/extraprensa2024.230475. Consultado em 1 de dezembro de 2025
- ↑ a b Pompeu, Ana Carollina Gutierrez (21 de dezembro de 2024). «Questão de índios" e "questão de fronteiras": relatos epistolares de Miguel Malarin a Julio Roca sobre a Campanha do Deserto». Revista Extraprensa (2): 118–138. ISSN 2236-3467. doi:10.11606/extraprensa2024.230475. Consultado em 29 de novembro de 2025
Ligações externas
- (em castelhano) "Nicolás Avellaneda", biografia por Felipe Pigna
- (em castelhano) "Consequências econômicas da Conquista do Deserto"
- (em castelhano) "Ocupação efetiva da Região Patagônica pelo governo argentino"
- (em castelhano) "Campanha do Deserto" Olimpíadas Nacionais de Conteúdos Educativos na Internet
- (em castelhano) "A Guerra do Deserto", diferentes vistas por Juan José Cresto, Osvaldo Bayer et al. - ElOrtiba.org
- (em castelhano) Entrevista à Diana Lenton y Walter Del Río
- (em castelhano) "Roca y el mito del genocidio" por Juan José Cresto.
