Caminho de Ferro Congo-Oceano

Caminho de Ferro Congo-Oceano
Info/Ferrovia
Informações principais
Área de operação Congo-Brazavile
Tempo de operação 1934–Presente
Operadora Companhia Ferroviária Congo-Oceano (CFCO)
Portos Atendidos Porto da Ponta Negra
Especificações da ferrovia
Extensão 512 km (318 mi)
Diagrama e/ou Mapa da ferrovia

O Caminho de Ferro Congo-Oceano (em francês: Chemin de fer Congo-Océan) é uma linha ferroviária que atravessa o sul do Congo-Brazavile, sendo a maior e mais importante ferrovia do país. Sua testa é o porto atlântico de Ponta-Negra , de onde exporta todo tipo de produtos, desde minérios, a alimentos, componentes industriais, cargas vivas, etc..

A ferrovia foi construída para contornar as cataratas de Inga, no rio Congo, já que, a partir de Brazavile, barcos fluviais podem subir o rio Congo e seus principais afluentes, incluindo o rio Ubangui até Bangui.

Em 2012, a ferrovia estava operando regularmente serviços de carga e passageiros ao longo de toda a linha, apesar do mau estado dos trilhos. Um trem de luxo, La Gazelle, usando vagões fabricados na Coreia, foi introduzido em 2012; em 2014, operava entre Ponta-Negra e Brazavile a cada dois dias e estava programado para levar de 14 a 16 horas para completar a jornada de 512 kilometres (318 mi).[1]

História

Construção da ferrovia na zona de Maiombe, em 1930

Sob a administração colonial francesa, em 1921, foi contratada a Sociedade de Construção de Batignolles (SCB) para construir uma linha ferroviária de 172 km que partiria da Ponta-Negra.[2] O restante da linha, entre o quilômetro 172 e Brazavile, foi repassado para a construtora Companhia Leonesa d'África Equatorial Francesa (COLYAF).[2] Em 1924, os primeiros quarenta quilômetros a partir da Ponta-Negra foram concluídos pela SCB. De Brazavile, a COLYAF alcançou o quilômetro 75. Mas perto de Ponta-Negra, as primeiras dificuldades surgiram porque a obra se aproximava de um formidável obstáculo natural: o maciço de Maiombe.[2] Localizado a 60 km do oceano, trata-se de uma cordilheira de 800 metros de altura, coberta por densa floresta, cortada por torrentes, ravinas íngremes, rios, lagoas e pântanos.[2] Além disso, o solo era propenso a deslizamentos de terra alternados com afloramentos de rocha muito dura. O clima quente e úmido, aliado a esses fatores, impediu qualquer progresso rápido da obra.[2]

O contrato assinado com a SCB e com a COLYAF previa que a administração colonial seria responsável pelo recrutamento e o fornecimento de mão de obra, sendo estipulado um número de 8.000 homens para a construção. As dificuldades de Maiombe, porém, tornaram escassos a força de trabalho na região, com a administração francesa chegando a buscar pessoas em Cabinda.[3] Tornou-se então necessário recrutar em áreas mais distantes, utilizando o princípio do trabalho forçado, buscando homens adultos em todo o Congo Central.[2] No entanto, a população local logo abandonou o canteiro de obras, pois era de conhecimento geral que trabalhar no maciço de Maiombe era frequentemente fatal.[2]

A decisão foi então tomada, em fevereiro de 1925, de procurar trabalhadores mais longe — no sul do Chade, nos Camarões e na Centráfrica — com quase 6.000 homens por ano de 1926 a 1931.[2] A viagem para Maiombe era longa e árdua, e muitos pereceram antes de chegar ao seu destino.[2] Os recrutados eram obrigados ao trabalho forçado.[2] Tendo em vista sua política no Congo, a França não ratificou a Convenção sobre Trabalho Forçado de 1930.[4] Tal cenário de opressão e trabalho forçado contra a população africana levou à revolta Kongo-Wara entre 1928 e 1931.[5] A revolta Kongo-Wara e os diversos artigos publicados na imprensa europeia e estadunidense denunciando o "escândalo Congo-Oceano" alterou os planos da administração colonial da África Equatorial Francesa. Em 6 de agosto de 1930, o contrato com a SCB (maior utilizadora do trabalho forçado) foi reformado, com a exigência de emprego de meios mecânicos para escavações, transporte de terra e terraplanagem, substituindo o trabalho manual.[2] Além disso, os governos belga e português restringiram o recrutamento em suas possessões coloniais, encarecendo fortemente o recrutamento para o trabalho forçado.[3]

Acampamento de trabalho forçado, localizado perto de Les Saras, durante a construção em 1930

No final de 1930, os trilhos foram finalmente instalados, cobrindo 100 km a partir da Ponta-Negra e, no lado leste, partindo de Brazavile, a linha férrea estava praticamente concluída até o km 172.[2] Mas o trecho em Maiombe ainda precisava ser finalizado, com a perfuração do túnel de Bamba, o mais longo da África na época (1.694 metros), e, nesse ponto, os trabalhos avançaram muito lentamente, com muitas dificuldades.[2]

Para resolver a escassez de mão de obra, foram trazidos 600 trabalhadores chineses de Cantão e Honguecongue para o Congo.[2] Porém, ao perceberem as condições de trabalho e as dificuldades de Maiombe, os chineses recusaram-se imediatamente a trabalhar. Os líderes foram rapidamente deportados e, um ano depois, outros 400 trabalhadores foram repatriados, enquanto outros morreram no local de trabalho.[2] Em 1930 as máquinas de perfuração foram instaladas no túnel de Bamba, mas as galerias desabaram assim que se tenta escavá-las.[2] Em março de 1932, após três anos de trabalho, o túnel tinha apenas 410 metros de comprimento dos 4,1 km totais de túneis planejados.[2] Após três anos de esforço, finalmente, em 8 de setembro de 1933, as duas equipes de trabalho do túnel se encontram.[2] A 13 de abril de 1934 a linha foi finalmente totalmente construída, com 511 km de via férrea de bitola métrica (1.067 mm), 12 túneis, 172 pontes e viadutos e muitos quilômetros de muros de contenção de alvenaria.[2]

Em 10 de julho de 1934, o governador-geral Raphaël Antonetti inaugurou a linha que tornou possível ligar Brazavile ao oceano sem transbordo.[2] O projeto custou um total de 930 milhões de francos franceses na época, ou aproximadamente 108 bilhões de francos CFA em 2016.[6] Durante o período de construção até 1934, houve um custo contínuo elevado em vidas humanas,[7] com o número total de mortes estimado em mais de 17.000 trabalhadores de construção, devido a uma combinação de acidentes industriais e doenças, incluindo malária.[8] Em 1946, a França ratificou a Convenção sobre Trabalho Forçado, em razão da pressão da opinião pública aos relatórios produzidos sobre a construção e pela revolta dos povos africanos.[2]

Em 1959, inspirados nos princípios pan-africanos, os governos dos Estados recém-independentes que anteriormente compunham a África Equatorial Francesa, criaram uma agência de cooperação regional, a Agência Trans-Equatorial das Comunicações (ATEC), para gerir a operação logística conjunta entre o Chade, a Centráfrica, o Gabão e o Congo-Brazavile.[9] A ATEC, assim, administrava um sistema de ligações fluviais e ferroviárias (denominado Rotas Federais) que serviam o interior tendo como principal terminal costeiro o Porto da Ponta-Negra; o Caminho de Ferro Congo-Oceano era a principal infraestrutura ferroviária sob gestão da ATEC, e havia a previsão da construção do Caminho de Ferro Bangui-Chade.[9] Em 1962, a ATEC construiu um ramal ligando a estação de Mont-Belo à cidade de Mbinda, esta perto da fronteira com o Gabão, para conectar a ferrovia Congo-Oceano com a Linha Teleférica COMILOG e assim transportar minério de manganês para o Porto da Ponta-Negra.[9][10] Em 1969 a parte brazavile-congolesa da ATEC foi nacionalizada e convertida na Agência Transcongolesa de Communicações – Companhia Ferroviária Congo-Oceano (ATC-CFCO), com esta passando a administrar a via férrea Congo-Oceano.[2]

No início da década de 1970 a deterioração da rede era tal que os descarrilamentos se tornavam cada vez mais frequentes e a velocidade dos trens diminuía. Investimentos eram necessários, a começar pela passagem de nível de Maiombe, e diversas opções foram estudadas. Em 1973, o projeto para uma nova rota, conhecida como "variante sul", entre as estações de Billinga e Dolisie, foi finalmente selecionado. Em 1975, o consórcio Astaldi-Holzman-Fougerolles (ASHFO) foi escolhido para as obras de engenharia civil: 91 quilômetros de nova via única com doze pontes e seis túneis. O projeto custou 33 bilhões de francos CFA; o financiamento foi concluído em 17 de dezembro de 1975.[11]

No início de 1976, o grupo ASHFO instalou o canteiro de obras. Em 25 de setembro de 1976 ocorreu o início efetivo das obras, inauguradas pelo Presidente da República, Marien Ngouabi. Porém, em 15 de janeiro de 1977, uma unidade das Forças Armadas de Cabinda, braço armado da Frente para a Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) atacou o canteiro de obras no quilômetro 65, matando doze pessoas e sequestrando três engenheiros. A ASHFO interrompeu os trabalhos. Os três reféns foram libertados rapidamente após o pagamento de um resgate.[12]

Entretanto, o trabalho de revitalização da linha continuou com dificuldade.[2] O último obstáculo foi a perfuração de um novo túnel sob o maciço de Bamba, com 4.600 metros de comprimento.[2] A sua escavação começou em dezembro de 1978 e demoraria cinco anos até que as duas equipas de perfuração do túnel se encontrassem.[2] Em julho de 1983, devido a inundações e deslizamentos de terra, os trabalhos foram interrompidos.[2] Após novos trabalhos de terraplanagem e correções nas fissuras no concreto, e em condições de segurança ideais para os trabalhadores, a nova rota foi inaugurada em 15 de agosto de 1985.[2]

Com o fechamento da Linha Teleférica COMILOG em 1986, quando o vizinho Gabão construiu sua própria ferrovia para transportar sua produção mineral,[10] o volume transportado pela linha reduziu drasticamente. No entanto, o ramal de Mont-Belo a Mbinda permeneceu ativo.[13]

A adoção de políticas neoliberais pelo governo de Denis Sassou-Nguesso na década de 1990 deixou a linha em condições operacionais muito precárias, com a companhia gestora da linha, a ATC-CFCO, ficando sem recursos em caixa. Um dos principais indicadores deste quadro foi o acidente ferroviário de Mvoungouti na noite do dia 5 e madrugada do dia 6 de setembro de 1991, na localidade Mvoungouti, na zona de Maiombe, na variante sul da linha. O acidente ocorreu após uma colisão frontal entre um trem de passageiros e um trem de carga, num trecho muito íngreme da via. As causas citadas para o acidente foram a falta de manutenção da locomotiva e a velocidade excessiva do comboio cargueiro. Maior acidente da linha, o número de mortos foi de 133, dos quais 104 corpos foram recuperados, os outros 29 estão desaparecidos, com mais de 300 outros feridos.[14] Em 2001, 10 anos depois, outro grave acidente ocorreu na mesma localidade.[14]

Com o início da guerra civil em 1997, a ATC-CFCO ficou sem condições de manter as operações da linha, ocorrendo a interrupção do tráfego por dois anos e circulação reduzida por outros quatro, com grandes perdas de materiais e equipamentos: seis pontes foram destruídas, o sistema de telecomunicações ficou inoperacional, o material circulante e vários quilómetros de via férrea foram danificados.[15]

Uma composição na Estação de Ponta-Negra, em 2020

Em janeiro de 2000, o governo congolês decidiu dissolver a ATC, e tornou a Companhia Ferroviária Congo-Oceano (CFCO) uma entidade independente.[15] Em 2000, iniciou-se a reconstrução das seis pontes, juntamente com a reabilitação dos trilhos nos trechos danificados e a aquisição de equipamentos de telecomunicações de reserva.[15] Em 2001, para reativar o tráfego ferroviário, o governo investiu mais de 6 bilhões de francos CFA na CFCO.[15]

As operações foram reiniciadas em 2004, mas, em agosto de 2007, a BBC News relatou que a linha férrea estava em um "estado decrepito, com a maioria dos trens quebrados", após o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) ter organizado um comboio para distribuir redes mosquiteiras contra a malária.[8] Em 2007, um consórcio liderado pelo CMKC Group chegou a assinar um contrato para construir extensões ferroviárias para Ouésso e Djambala, principalmente para o tráfego de madeira, mas as obras não chegaram a iniciar.[16]

Em 21 de junho de 2010, ocorreu o descarrilamento de trem em Yanga, um grave acidente no qual pelo menos 60 pessoas morreram.[14] Acredita-se que o trem tenha descarrilado ao contornar uma curva em uma área remota entre Bilinga e Tchitondi, lançando quatro vagões em um desfiladeiro.[14] Os mortos e feridos foram levados para hospitais e necrotérios em Ponta-Negra.[17]

Em 2011, foi anunciado que a Africa Iron estava próxima de concluir um contrato de transporte de minério de 25 anos com a CFCO para utilização do Caminho de Ferro Congo-Oceano.[18] No início de 2015, a operadora CFCO adquiriu 10 locomotivas EMD GT38AC da Electro-Motive Diesel, que foram colocadas em operação no segundo semestre de 2015.[19]

Em 2019 foram anunciados planos de construção de uma nova linha em direção ao norte do país, já interconectada à linha Congo-Oceano, que inicialmente ligaria Lékana a Sembé (330 km), depois Ouésso a Garabinzam (340 km), Lékana a Brazzaville (386 km) e, finalmente, Komono a Mossendjo (80 km).[13] Em 2021, foi anunciada uma proposta para uma extensão ferroviária partindo de Mayoko e Niari até a Ponta-Negra[13] para o tráfego de minério de ferro.[20]

Operações

Traçado da linha Congo-Oceano (em verde), a variante sul (em vermelho) e o ramal de Mbinda (em amarelo)

Estações pricipais

As estações principais da linha são:[7]

Ramais

O único ramal operacional que liga-se com a linha Congo-Oceano é o de Mont-Bélo a Mbinda, que totaliza 285 km de extensão.[13]

Referências

  1. «Thorn Tree is coming to an end». Lonely Planet. Consultado em 14 de setembro de 2024 
  2. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa John F. Clark; Samuel Decalo (2012). Historical Dictionary of Republic of the Congo. [S.l.]: The Rowman & Littlefield Publishing Group, Inc. p. 93, 94, 105. ISBN 978-0-8108-4919-8 
  3. a b Paulo Ricardo Müller (2015). Historicidade, pós-colonialidade e dinâmicas das tradições: etnografia e mediações do conhecimento em Cabinda, Angola (PDF). Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul 
  4. «C29 Forced Labour Convention, 1930». International Labour Organization. 2011. Consultado em 14 de setembro de 2024. Cópia arquivada em 5 de dezembro de 2011 
  5. «Republic of Congo profile» (em inglês). BBC News. 12 de julho de 2011. Consultado em 14 de setembro de 2024 
  6. «Il y a exactement 101 ans, débutaient les travaux du Chemin de fer Congo Océan (CFCO)». Centrifuge. 6 de fevereiro de 2022 
  7. a b «Le chemin de fer Congo-Océan : « effroyable consommateur de vies humaines »». Archives nationales du monde du travail - Republique francaise. 2024 
  8. a b «In pictures: Malaria train». BBC News. 2007. Consultado em 14 de setembro de 2024 
  9. a b c Pierre Kalck; Xavier-Samuel Kalck (2005). Historical dictionary of the Central African Republic. [S.l.]: Scarecrow Press. p. 93, 144. ISBN 9780810849136 
  10. a b Jacques Peccia-Galleto; Paul Gadilhe (Janeiro de 1995). «Georges Perrineau: l'aventure de l'industrie minière en France et à l'etranger». Revue des ingénieurs des mines (em francês) 
  11. The World Bank (21 de maio de 1980). Report No. P-2819-Cob - Report and Recomendation of the President of the International Development Association to the Executive Directors on a Proposed Credit to the People's Republic of The Congo for Supplementary Financing for the Second Railway Project (PDF). [S.l.: s.n.] 
  12. J.-P. L. (2 de fevereiro de 1977). «Les trois Français enlevés au Congo racontent leur détention par des maquisards du FLEC». Le Monde 
  13. a b c d «Congo's railway outfit CFCO to undergo reforms». Cemac eco.finance. 24 de dezembro de 2019 
  14. a b c d «Acidente de trem deixa cerca de 60 mortos no Congo». Extra. 22 de junho de 2010 
  15. a b c d «Le Chemin de fer Congo océan de1990 à 2018, entre accidents attentats et guerre». Ambassade du Congo en France. 26 de novembro de 2018 
  16. «Korea to build railroad in Congo». Korea.net. 20 de agosto de 2007. Consultado em 14 de setembro de 2024. Cópia arquivada em 25 de outubro de 2008 
  17. «Toll rises in Congo train crash». Al Jazeera. 23 de junho de 2010 
  18. «"Railway Gazette: News in Brief"». Railway Gazette. 2011 
  19. Paul Denton (2015). «Locos For All Conditions» 6 ed. Railway Gazette International (171): 50 
  20. «"New US$ 1bn Mayoko to Pointe-Noire port railway project in Congo underway"». Sub Sahara Mining. 16 de julho de 2021