Calathea allouia
Ariá
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![]() Inflorescência do ariá | |||||||||||||||
| Classificação científica | |||||||||||||||
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| Nome binomial | |||||||||||||||
| Goeppertia allouia (Aubl.) Lindl. 1829 | |||||||||||||||
| Sinónimos | |||||||||||||||
| Allouya americana (Lam.) A.Chev. Curcuma americana Lam. Maranta allouia Aubl. Maranta niveiflora A.Dietr. Maranta semperflorens Horan. Phrynium allouia (Aubl.) Roscoe Phyllodes allouia (Aubl.) Kuntze | |||||||||||||||
Ariá (Goeppertia allouia)
Goeppertia allouia (Aubl.) Borchs. & S. Suárez é uma espécie de planta herbácea da família Marantaceae, endêmica das regiões tropicais e subtropicais da América Central e da América do Sul. É cultivada principalmente pelos seus tubérculos comestíveis, que possuem elevado valor nutricional e importância cultural entre diferentes povos indígenas. No Brasil, sobretudo na região de Manaus, no estado do Amazonas, é popularmente conhecida como ariá, mas recebe outros nomes em diferentes localidades do continente.[1]
O tubérculo é considerado um alimento tradicional da Amazônia, integrando a dieta de comunidades locais há milênios.[2] Sua relevância histórica é atestada tanto por registros arqueológicos quanto por descrições feitas nos primeiros relatos europeus sobre as Américas. Além de seu papel como alimento, a planta também é valorizada por suas características agronômicas, facilidade de cultivo e potencial de contribuição para a segurança alimentar em um contexto de mudanças climáticas.[2]
Taxonomia
A primeira descrição botânica da espécie foi realizada pelo naturalista francês Jean Baptiste Christophe Fusée-Aublet na obra Histoire des Plantes de la Guiane Françoise, publicada em 1775, na qual foi denominada Maranta allouia Aubl.[3] Posteriormente, em 1829, o botânico inglês John Lindley transferiu a espécie para o gênero Calathea, passando a ser designada como Calathea allouia (Aubl.) Lindl.[4]
Na obra clássica Flora Brasiliensis, publicada em 1890, a espécie aparece citada como Calathea allouia Lindl.[5] Mais de um século depois, em 2012, com base em estudos moleculares e análises filogenéticas, o botânico dinamarquês Finn Borchsenius e sua equipe renomearam a espécie como Goeppertia allouia (Aubl.) Borchs. & S. Suárez.[6]
Descrição
O ariá é uma planta perene que pode atingir até dois metros de altura. Apresenta tubérculos ovoides ou cilíndricas, de 2 a 8 cm de comprimento e 2 a 4 cm de diâmetro. As folhas têm base curta envolvente formando pseudocaule; com pecíolos longos com ranhuras; são simples, alternas, com ápice acuminado, elípticas, semelhante a folhas de bananeira, de 20 a 60 por 5 a 20 cm; nervuras paralelas. Inflorescência terminal ereta com brácteas cor creme, densamente imbricadas; as flores são esbranquiçadas, de 2 a 5 cm de comprimento. A tuberização começa nas pontas das raízes fibrosas. A reprodução é vegetativa, por rizomas.[7][8]
A planta cresce em touceiras e apresenta parte aérea composta por folhagem que varia entre 0,5 e 1,5 metro de altura. Suas inflorescências possuem brácteas verdes e flores brancas. A parte subterrânea é formada por tubérculos comestíveis, de formato ovoide, arredondado ou alongado, com casca de coloração bege-clara e polpa branca. Embora produza sementes pretas durante o desenvolvimento, estas geralmente são inviáveis, sendo os rizomas utilizados para o plantio.
A colheita ocorre cerca de um ano após o plantio, quando as folhas secam. Os tubérculos podem ser armazenados em temperatura ambiente por aproximadamente dez semanas.
História
Evidências arqueológicas indicam que o consumo de G. allouia remonta a cerca de 9.320 anos nas Américas.[9] Os primeiros registros escritos sobre o uso alimentar do ariá foram feitos por cronistas europeus no período colonial. Em 1535, o espanhol Gonzalo Fernández de Oviedo y Valdés, que participou da colonização do Caribe, relatou o consumo do tubérculo, chamado de liren, destacando seu sabor agradável e a abundância da planta nas ilhas e terras firmes da região.[10]
Em 1582, o cultivo e consumo de lerenes foi novamente mencionado no Memorial y descripción de la isla de San Juan de Puerto Rico, escrito por Joham Melgarejo.[11]
Valor nutricional
Os tubérculos do ariá possuem destaque nutricional por serem fonte de proteínas de alto valor biológico, contendo os nove aminoácidos essenciais. Essa característica o equipara a alimentos como leguminosas, carnes, peixes, ovos e cogumelos.
Além disso, o alimento é rico em minerais como ferro, potássio, magnésio, zinco, sódio, cálcio, manganês e fósforo, além das vitaminas tiamina (B1), riboflavina (B2), niacina (B3) e ácido ascórbico (C).[12][13]
Outro aspecto culturalmente relevante é que o tubérculo apresenta sabor naturalmente salgado, sendo considerado um "sal vegetal" por comunidades do Alto Rio Negro.[2]
Usos
Parte comestível da planta são as raízes tuberosas, que contêm 13 a 15% de amido, 1,5 a 2% de proteínas e 6% de aminoácidos. A produção pode chegar até produzir 2,2 kg por planta. Os agricultores tradicionais são os que mais cultivam e consomem esta espécie.[14] Nas Antilhas, e em algumas feiras de Manaus,[14] as raízes do ariá são comercializadas. Se cozinham e servem em saladas ou em pratos, geralmente com pescado.[7]
Também pode ser assado na brasa, utilizado purês, ensopados, saladas, salteados ou transformado em chips fritos e caramelizados. Em algumas regiões, é empregado na produção de bebidas tradicionais, como o caxiri, bebida fermentada à base de mandioca e outros tubérculos.[15]
Do tubérculo ralado e espremido pode-se extrair amido, utilizado em preparações de bolos, mingaus e outras receitas. A versatilidade culinária, aliada ao valor nutricional, torna o ariá um alimento de grande potencial para diversificação alimentar.[16]
Importância cultural e socioeconômica
Durante séculos, o ariá representou uma importante fonte de alimento para povos da Amazônia, especialmente em períodos de escassez de caça e pesca. Atualmente, a espécie é considerada estratégica para a segurança alimentar de comunidades tradicionais, sobretudo em um cenário de mudanças climáticas que afetam a disponibilidade de recursos na região.[2]
Apesar de sua relevância cultural e nutricional, o tubérculo tem se tornado cada vez mais raro em feiras e mercados amazônicos, o que tem despertado o interesse de pesquisadores e projetos de valorização da espécie como recurso alimentar e econômico.[2]
Referências
- ↑ BRIDGEMOHAN, Puran. Production and partitioning of dry matter in leren [Calathea allouia (Aubl.) Lindl]. Journal of Agriculture-Universidad de Puerto Rico , 95, 35-44, 2011.
- ↑ a b c d e MINEV-BENZECRY, Eli [et. al… ]; Ilustradora ABREU, Hadna; Tradutora SILVA, Rosilda Maria Cordeiro da. Ariá: um alimento de memória afetiva = Ya’î: nikâno ba’âro pehe tɨ’ó yã’â, wã’kûse. Manaus: Editora do Inpa: Editora Valer, 2024. ISBN: 978-65-5633-061-7 (Editora Inpa) - ISBN: 978-65-5585-595-1 (Editora Valer)
- ↑ AUBLET, J.B.C.F. (1775). Histoire des Plantes de la Guiane Françoise. Paris.
- ↑ Lindley, J. (1829). The Genera and Species of Orchidaceous Plants. London.
- ↑ Martius, C.F.P. von et al. (1890). Flora Brasiliensis, Vol. III, Parte III, p.126.
- ↑ Borchsenius, F. et al. (2012). Phylogenetics of Calathea. Botanical Journal of the Linnean Society.
- ↑ a b Noda, H.; C.R. Bueno y D.F. Silva Filho Lerén (Calathea allouia); La agricultura amazónica y caribeña. Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Manaus, A.M., Brasil. FAO.
- ↑ La Rotta, Constanza (1984) Especies utilizadas por la Comunidad Miraña: 273-274. Bogotá: WWF - FEN. ISBN 958-9129-05-6
- ↑ CHANDLER-EZELL, Karol; PEARSALL, Deborah, M.; ZAIDLER James A. Root and Tuber phytoliths and starch grains document manioc (Manihot esculenta), arrowroot (Maranta arundinacea), and llerén (Calanthea sp.) at the Real Alto site, Ecuador. Economic Botany, 60, 103-120, 2006.
- ↑ Fernández de Oviedo y Valdés, G. (1535). Historia general y natural de las Indias. Sevilla.
- ↑ MELGAREJO, J. (1582). Memorial y descripción de la isla de San Juan de Puerto Rico.
- ↑ MARQUES, Chelzea M. M. C.; SILVA FILHO, Danilo F.; BLIND, Ariel D.; COSTA, Heroldison G.; FIGUEIREDO, Jose N. R.; et al. Caracterização física e química de clones de ariá (Calathea allouia), Brazilian Apllied Science Review, 3, 2052-2064. 2019.
- ↑ VAREJÃO, Maria J. C.; RIBEIRO, Maria N. S.; BUENO, Calos R. Composição mineral do ariá (Calathea allouia (Aubl.) Lindl. Acta Amazonica, 18, 477-480, 1988.
- ↑ a b Silva Filho, Danilo; Chelzea Marques; Edimilson; José Nilton Figuereido; Alberto Ferreira e Fabio Araújo (2013) SELEÇÃO DE CLONES DE ARIÁ [Calathea allouia (Aubl.) Lindl. PARA O CULTIVO NO MUNICÍPIO DE MANAUS; 65ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência SBPC.
- ↑ KINUPP, Valdely F; LORENZI, Harri. Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas. 1 ed. Nova Odessa: Plantarum, São Paulo, 2014.768 pp. ISBN: 9786587655024.
- ↑ CARVALHO, Ana P. M. G.; ROSAS A. L. G.; BARROS, D.R.; LARANJEIRA, R. K.S.; DIAS, José L. L. et al. Análise físico-químico do amido de ariá (Goeppertia allouia (AUBL.) Borchs. & S. Suárez). Avanços em Ciência e Tecnologia de Alimentos, 3. 255-265, 2021.
