CPI dos Terrenos de Marinha

CPI dos Terrenos de Marinha
Data(s)1964-1965
LocalBrasil

A Comissão Parlamentar de Inquérito para Apurar Irregularidades na Utilização de Terrenos de Marinha foi uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) criada pela Câmara dos Deputados do Brasil em 1964 para investigar irregularidades na gestão e ocupação de terrenos de marinha no litoral paulista.[1]

Contexto histórico

A CPI foi criada em resposta a denúncias da imprensa sobre irregularidades na utilização de terrenos de marinha, principalmente nos municípios de Santos, São Vicente e Guarujá. As denúncias incluíam construções envolvidas em escândalos, ocupações irregulares e má gestão do patrimônio público costeiro.

Os terrenos de marinha são bens da União localizados na faixa de 33 metros a partir da linha de preamar média de 1831, sendo fundamentais para a segurança nacional e o desenvolvimento costeiro ordenado.

Criação e composição

Instituição

  • Data de criação: 23 de maio de 1964
  • Resolução: nº 54-64 da Câmara dos Deputados
  • Publicação: Diário do Congresso Nacional de 23.5.64, pág. 8.420[2]

Composição partidária

A CPI foi composta por 9 deputados federais representando diferentes partidos:

Membros titulares:

Mesa diretora:

  • Presidente: Deputado Dias Menezes
  • Relator: Deputado Epílogo de Campos
  • Relator Substituto: Deputado Nicolau Tuma

Trabalhos realizados

Metodologia

A CPI adotou uma abordagem abrangente que incluiu:

  • 16 reuniões (13 em Brasília, 2 em Santos, 1 em São Paulo)
  • Oitiva de 13 testemunhas, incluindo prefeitos, deputados e técnicos
  • Diligências in loco nos municípios investigados
  • Análise documental extensa

Principais testemunhas

Entre as personalidades ouvidas destacam-se:

Documentação analisada

A CPI examinou mais de 20 tipos de documentos, incluindo:

  • Legislação federal sobre patrimônio imobiliário da União
  • Ofícios e comunicados de prefeituras municipais
  • Recortes de jornais com denúncias
  • Pareceres técnicos de engenharia
  • Fotografias de construções irregulares
  • Cartas de autoridades locais

Principais conclusões

Responsáveis identificados

A CPI concluiu que as irregularidades eram de responsabilidade mútua de:

  1. Prefeituras Municipais locais - por falta de controle e fiscalização
  2. Secretaria do Patrimônio da União - por deficiências administrativas

Causas das irregularidades

  • Legislação inadequada (federal e municipal)
  • Aparelhamento deficiente do Serviço do Patrimônio da União
  • Falta de pessoal qualificado e recursos financeiros
  • Ausência de controle efetivo sobre ocupações

Casos específicos investigados

  • Invasões no Jardim Rádio Clube (Santos): 300 famílias ocupando irregularmente terrenos de mangue
  • Irregularidades no "Monte Cabrão": exploração inadequada de terrenos de marinha
  • Construções irregulares em Guarujá, Santos e São Vicente
  • Aforamentos não regulamentados ao longo do litoral paulista

Recomendações

Reforma administrativa

Reforma legislativa

  • Revisão do Decreto-lei nº 9.760/1946 eliminando dispositivos inconstitucionais
  • Elaboração de nova legislação para melhor proteção do patrimônio imobiliário da União

Critérios de utilização

Estabelecimento de prioridades para uso de terrenos de marinha:

  1. Serviço público (federal, estadual, municipal)
  2. Fins urbanísticos e turísticos
  3. Fins econômicos e sociais
  4. Estabelecimentos de pesca

Aprovação e encaminhamentos

Projeto de Resolução nº 121 de 1965

Em 2 de outubro de 1964, a CPI aprovou por unanimidade o relatório final, resultando no Projeto de Resolução nº 121 de 1965, que:

Legado e importância

Impacto institucional

A CPI dos Terrenos de Marinha de 1965 estabeleceu precedentes importantes para:

  • Fiscalização parlamentar do patrimônio público costeiro
  • Controle da especulação imobiliária em áreas sensíveis
  • Proteção de ecossistemas costeiros de interesse nacional
  • Responsabilização de gestores públicos na administração territorial

Relevância contemporânea

As questões investigadas pela CPI permanecem relevantes, considerando:

  • A crescente pressão imobiliária no litoral brasileiro
  • A necessidade de proteção ambiental de áreas costeiras
  • A importância do controle público sobre terrenos estratégicos
  • Os conflitos fundiários em zonas costeiras urbanas

Documentação histórica

O relatório completo da CPI foi publicado no Diário do Congresso Nacional, Seção I, de 30 de setembro de 1965, constituindo importante documento histórico sobre a gestão do patrimônio público no Brasil durante a década de 1960.

Referências

Bibliografia

  • BRASIL. Congresso Nacional. Câmara dos Deputados. Diário do Congresso Nacional, Seção I, 30 de setembro de 1965, páginas 8054-8056.
  • BRASIL. Câmara dos Deputados. Resolução nº 54-64, de 23 de maio de 1964.

Ligações externas