Células Mesenquimais do Sangue Menstrual (CeSaM)
As células mesenquimais do sangue menstrual (CeSaM) são de fácil obtenção, não requerem procedimentos invasivos, como as outras fontes de células mesenquimais, e o material é abundante. O sangue menstrual pode ser coletado nos dias de maior fluxo durante a menstruação, sendo armazenado em um coletor de urina e pode ser levado para o laboratório para ser processado imediatamente ou permanecer sob refrigeração até o processamento. As células expandem rápido e apresentam uma excelente sobrevida em laboratório. Todas essas características colocam as CeSaM como uma fonte interessante de células[1][2][3]
Entre 2015 e 2022, a antropóloga Daniela Manica acompanhou o cotidiano da pesquisa sobre essas células.[4] Essa investigação etnográfica foi junto de cientistas do campo biomédico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) . Durante sua trajetória acadêmica, Manica investigou a menstruação por uma perspectiva sócio-antropológica[5] e, por motivações feministas, se interessou nesse engajamento do sangue menstrual como fonte de células-tronco. Um dos principais resultados dessa sua pesquisa é que, mesmo preenchendo a maioria dos requisitos desejáveis para um tecido corporal utilizado em experimentos, as CeSaM permanecem em uma posição bastante marginal. Manica e colaboradoras observaram que publicações em periódicos da área com as CeSaM representam apenas 0,25% dos artigos sobre células mesenquimais.[6] Não existe nenhuma explicação técnico-científica para tal escolha. As autoras argumentam que a razão correlacionada é o fato desse tecido ser marcado por questões sociais e por um viés de gênero. A desconfiança com a viabilidade do desenvolvimento dessa tecnologia teria a ver com a possível limitação dela somente poder ser usada em corpos menstruantes.
Por uma marcação de gênero nas CeSaM, os cientistas da área biomédica assumem que aplicações futuras com essas células poderiam “apenas” beneficiar mulheres sendo uma das razões para sua baixa utilização.[7] Mesmo que a existência de diversos corpos menstruantes e mulheres que não menstruam embaralhem essa associação, essa diversidade tende a ser ignorada pelo campo biomédico. Existem corpos não femininos que menstruam, como pessoas trans, não-binárias e intersexo, e existem corpos femininos que não menstruam, como mulheres na menopausa e pessoas trans.
Não há nenhum impeditivo do ponto de vista técnico para que tecnologias futuras com as CeSaM não possam ser utilizadas por corpos não menstruantes, excetuando-se casos que se utilizam células do próprio paciente. Mesmo com a descontinuidade que os procedimentos laboratoriais tendem a produzir entre a célula e sua origem, as CeSaM mantêm mais intensamente a continuidade com sua fonte, sendo marcada como uma célula feminina. Ou seja, uma marcação de gênero de sua fonte de obtenção se traduz em uma associação ao sexo dessas células. As CeSaM não alcançam um espaço mais central porque os cientistas não as consideram como uma célula humana, apenas feminina.[8][9]
As CeSaM já foram tema de episódios de podcast de divulgação científica. No episódio Uma antropóloga na sala de cultura do Podcast Mundaréu, as CeSaM são descritas como uma abertura para fazer antropologia da ciência e feminismo acadêmico. Também no episódio no Estranha célula das entranhas do Podcast Oxigênio, Manica conta da sua pesquisa com as CeSaM, com foco na relação entre gênero, menstruação e ciência.[10]
Referências
- ↑ Asensi, Karina D.; Fortunato, Rodrigo S.; dos Santos, Danúbia S.; Pacheco, Thaísa S.; de Rezende, Danielle F.; Rodrigues, Deivid C.; Mesquita, Fernanda C. P.; Kasai-Brunswick, Tais H.; de Carvalho, Antonio C. Campos (2014). «Reprogramming to a pluripotent state modifies mesenchymal stem cell resistance to oxidative stress». Journal of Cellular and Molecular Medicine (em inglês) (5): 824–831. ISSN 1582-4934. PMC 4119388
. PMID 24528612. doi:10.1111/jcmm.12226. Consultado em 16 de abril de 2025
- ↑ Manica, Daniela Tonelli; Goldenberg, Regina Coeli dos Santos; Asensi, Karina Dutra (13 de julho de 2018). «CeSaM, as Células do Sangue Menstrual: Gênero, tecnociência e terapia celular». Interseções: Revista de Estudos Interdisciplinares (1). ISSN 2317-1456. doi:10.12957/irei.2018.35862. Consultado em 16 de abril de 2025
- ↑ CARVALHO, Antonio Carlos Campos de; GOLDENBERG, Regina Coeli dos Santos. (2012). Células-Tronco Mesenquimais: conceitos, métodos de obtenção e aplicações. São Paulo: Editora Atheneu
- ↑ Manica, Daniela Tonelli; Goldenberg, Regina Coeli dos Santos; Asensi, Karina Dutra (13 de julho de 2018). «CeSaM, as Células do Sangue Menstrual: Gênero, tecnociência e terapia celular». Interseções: Revista de Estudos Interdisciplinares (1). ISSN 2317-1456. doi:10.12957/irei.2018.35862. Consultado em 16 de abril de 2025
- ↑ Manica, Daniela Tonelli (19 de agosto de 2018). «Estranhas entranhas: de antropologias, e úteros». Amazônica - Revista de Antropologia (1): 22–41. ISSN 2176-0675. doi:10.18542/amazonica.v10i1.5852. Consultado em 16 de abril de 2025
- ↑ Manica, Daniela Tonelli; Asensi, Karina Dutra; Mazzarelli, Gaia; Tura, Bernardo; Barata, Germana; Goldenberg, Regina Coeli Santos (1 de dezembro de 2022). «Gender bias and menstrual blood in stem cell research: A review of pubmed articles (2008–2020)». Frontiers in Genetics (em inglês). ISSN 1664-8021. PMC 9754585
. PMID 36531244. doi:10.3389/fgene.2022.957164. Consultado em 16 de abril de 2025
- ↑ Manica, Daniela Tonelli; Goldenberg, Regina Coeli dos Santos; Asensi, Karina Dutra (13 de julho de 2018). «CeSaM, as Células do Sangue Menstrual: Gênero, tecnociência e terapia celular». Interseções: Revista de Estudos Interdisciplinares (1). ISSN 2317-1456. doi:10.12957/irei.2018.35862. Consultado em 16 de abril de 2025
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- ↑ Manica, Daniela Tonelli; Goldenberg, Regina Coeli dos Santos; Asensi, Karina Dutra (13 de julho de 2018). «CeSaM, as Células do Sangue Menstrual: Gênero, tecnociência e terapia celular». Interseções: Revista de Estudos Interdisciplinares (1). ISSN 2317-1456. doi:10.12957/irei.2018.35862. Consultado em 16 de abril de 2025
- ↑ soraya (11 de dezembro de 2020). «# 10 – Uma antropóloga na sala de cultura». Consultado em 16 de abril de 2025